20 outubro 2011
O viveiro de Forcados
18 outubro 2011
A greve do Sal
18 agosto 2010
Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 Alcochete

Dos seus fundadores efectivamente nada se conhece. Diz a tradição oral que a Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 terá nascido no mesmo dia da restauração do Concelho de Alcochete (1), sendo considerada por isso (vox populi) a instituição gémea da Câmara Municipal de Alcochete.
A anteriormente chamada Sociedade de Recreio Alcochetense, terá passado a chamar-se, a partir desse dia, Filarmónica 15 de Janeiro de 1898 (2) .
O hino da Restauração, composto por João Baptista Nunes Júnior (música) e por Luís Cebola (letra), terá sido tocado pela primeira vez nesse dia 15 de Janeiro de 1898 (3).
No imaginário colectivo dos alcochetanos ao longo de sucessivas gerações, até mesmo nos nossos dias, paira uma imagem nítida das festas da Restauração, da agitação e do burburinho que se viveu na época, nas imagens recriadas mentalmente em que se vêm as iluminações dos archotes, as barricas a arder e até se consegue ouvir a música a tocar o Hino da Restauração. Para alimentar este sentimento bairrista em muito concorreu o artigo escrito em 1949 pelo Dr. José Grilo Evangelista (4):
Nas ruas pejadas de gente, abraçavam-se uns aos outros. A filarmónica, reunida à pressa, percorreu as ruas da Vila, no meio de muito povo, de muitos vivas, de muito fogo, tocando o “Hino da Restauração”esse hino que um alcochetano compôs, (João Baptista Nunes Júnior) e que todos nós alcochetanos sabemos cantar e sentir.
Ia, enfim, soar a hora da libertação!
- Duas semanas depois, no dia 30 de Janeiro, entrava solenemente nos seus Paços Municipais, o Arquivo do Concelho de Alcochete, não trazido por um simples oficial de diligências, mas sim pelas mãos fidalgas de D. António Pereira Coutinho, o primeiro presidente do Município restaurado.- Muito propositadamente o fora buscar em pessoa a Aldegalega, o ilustre Marquês de Soydos, com D. João Pereira Coutinho, António Luís Nunes e José Francisco Evangelista.
A população inteira, acompanhada pela filarmónica, esperou, fremente de alegria e comoção, à entrada do Concelho (...) – À noite não houve edifício público, não houve casa particular, rica ou pobre, grande ou pequena, que não iluminasse a sua fachada em sinal de regozijo. – E desta forma começaram as festas da “Restauração”. Eis o seu programa, como outro igual ainda não se realizou em Alcochete: DIA 31 – Alvorada, tocando a filarmónica uma marcha triunfal expressamente escrita pelo maestro Rosa Martins! [segue-se o restante programa desse dia e dos dias 01 e 02 de Fevereiro, passamos para a noite do dia 02] Às 20 ½ HORAS – Grande banquete na sala nobre do Palácio Pereira Coutinho, durante o qual a filarmónica executou vários trechos musicais, e finalmente, como fecho da festa, uma imponentíssima marcha luminosa, apoteose formidável, estranha faixa de luz, melhor, de fogo, alastradora, interminável, por toda a beira-rio, onde dezenas de barricas, alcatroadas, ardiam fantasticamente. E, para tudo haver nessa marcha rubra de calor e frenesi, nem faltaram mãos delicadas de mulheres, sustentando, gentis e orgulhosas, clássicos e portuguesissimos archotes.
- Assim terminaram, exuberantes de alegria e de nobreza, as grandes Festas da Restauração, consoladora recompensa de dois anos de martírio, estupenda manifestação de uma liberdade reconquistada.
No entanto as atribuições de nomes e datas a esta colectividade não são pacíficas, havendo falta de documentação que as confirme efectivamente, temos em mãos apenas alguns documentos e um grande conjunto de conjecturas relativamente às origens da Sociedade.
Uma das evidências escritas, nas quais nos podemos apoiar, é a pequena monografia escrita em 1902 pelo Coronel Avelino Ramos da Costa (5) que nos dá notícia de:
Essa Sociedade possue uma esplendida banda composta por 33 figuras. Habilmente dirigida e ensaiada pelo digno regente o maestro Sr. Esteves Graça que tem o seu nome ligado a varias obras theatraes cuja música é de sua composição.
Já tem sido ouvida na capital por varias vezes, sendo sem favor considerada uma das melhores do Ribatejo.
Com este texto conseguimos apurar várias coisas importantes: primeiro, que, segundo nos diz o autor, a Sociedade data da restauração do Concelho, segundo, que se realizam desde 1898 grandes festas de comemoração da restauração e estamos ainda em 1902, apenas 4 anos depois! De seguida apuramos que a Sociedade tem duas actividades distintas: o teatro e a música, por último, talvez o mais importante, a banda de música era já considerada uma das melhores do Ribatejo!
Também datado de 1902, um artigo da Gazeta Sul do Tejo (6) surge como reforço desta informação: Desde 1898 até 1902, o dia 15 de Janeiro é solemnemente festejado, porém este anno celebraram-se ruidosos festejos que certamente ficarão gravados nos corações de todos os que tiveram a ventura de a elles assistirem.
Na quarta-feira ás 6 horas da manhã, a phylarmónica 15 de Janeiro, que também celebrava o aniverário da sua fundação, tocou a alvorada na séde da sociedade, percorrendo depois as ruas da Villa, partindo ás 9 horas, acompanhada de numerosos populares, para o Rio das Enguias, esperar a phylarmónica de Santo Estevam, que obsequiosamente veio tomar parte nos festejos e compartilhar com a sua vinda da alegria de todos os alcochetenses.
Ás 9 e 45, faziam-se os cumprimentos do estylo e ás 10 percorriam as ruas da Villa, executando os Hymnos da Restauração do Concelho e da Carta, na sua maior fraternidade.
A recepção calorosa e expontanea feita áquella sociedade foi a prova mais evidente da estima e consideração que nos merece esse povo pequeno no número de habitantes, mas grande nas suas nobres qualidades e apreciaveis predicados. (...)
Ás 9 horas da noute, no theatro D. Manuel que tinha uma enchente colossal e deveras selecta, realisou-se um grandioso sarau dramatico-musical. Começou a primeira parte pela execução primorosa do lindo Hymno da Restauração do Concelho pelas duas phylarmónicas Alcochetense 15 de Janeiro e a da Ribeira de Santo Estevam. (...) A orchestra executou primorosamente a symphonia “Toujours Galant, por Esteves Graça (...) A orchestra, composta por eximios professores d’esta Villa, foi habil e distintamente dirigida pelo incansável e apreciado maestro Esteves Graça, regente da banda 15 de Janeiro.
Do ano de 1903 surge o primeiro hino, conhecido, que foi feito à Sociedade pelo referido regente Esteves Graça, na capa da partitura podemos ler a inscrição: Hynno da “Sociedade Phylarmonica Alcochetense” – offerecido – por Esteves Graça – Lisbôa 15 de Maio de 1903 (7).
Num depoimento dado pelo Senhor Francisco Boieiro Nunes Rodrigues (conhecido por Chico Nunes), um dos actuais membros da Direcção da Sociedade, temos outra pista, se bem que sem confirmação efectiva, de que a banda estaria a funcionar em 1904, já com outro regente: “O meu avô Joaquim Boieiro foi regente, naquela altura chamava-se regentes, hoje são mestres ou maestros, foi realmente, não durante muito tempo, penso que não, foi regente da Banda de Alcochete, onde eu cheguei a lêr no tal livro que me desapareceu, os anais de Alcochete ou coisa assim do género, que a inauguração da carreira fluvial Lisboa-Alcochete/Alcochete-Lisboa, foi portanto inaugurada onde esteve presente a Banda de Alcochete, com o regente Joaquim Boieiro, sei que foi em 1904, disso tenho a noção, mas parece-me que foi em Fevereiro ou em Abril.”
Com data provável de 1905 ou 1906, temos uma fotografia da Banda com a regência, á época, do Senhor Joaquim José de Carvalho.
Primeira foto (Acima publicada) conhecida da Banda da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898, cerca de 1905/6. Identificam-se várias pessoas além do Regente: Joaquim José de Carvalho (sentado ao centro sob a bandeira); do lado direito deste: João da Costa Godinho; do lado esquerdo do regente: Cristiano José Sarola; em pé na segunda fila o primeiro do lado direito: José Maria Marreco (pintor); sentado na segunda fila o segundo a contar da direita: Artur Augusto Rodrigues; deitado no chão: Joaquim Tomaz da Costa Godinho.
Num roteiro da Estremadura em 1908 Alberto Pimentel (8) informa que: O actual theatro é modesto e acanhado; mas pensa-se em construír um que satisfaça as justas aspirações da terra.
Ha uma philarmónica, denominada 15 de Janeiro de 1898 (data da restauração do Concelho de Alcochête); é composta de 33 figuras.
Sem outros dados absolutos podemos, baseando-nos apenas nos factos acima referidos, afirmar que havia uma Sociedade com uma Banda filarmónica no activo em 1898, que terá durado pelo menos até 1908. Retiradas essas evidências restam-nos outras questões: que tipo de agremiação, colectividade ou pequeno grupo existiria antes de 1898?
Como surgiu este conjunto dos primeiros músicos que apareceram a tocar na Restauração?
De onde vem o nome de Imparcial?
Voltando ao campo das conjecturas, numa entrevista dada pelo então Presidente da Sociedade António Neto Salgado em 1989 (9)este afirma que no Sec. XIX havia os bailes de roda com uma fogueira no meio, havia as guitarras, os guitarristas de Alcochete, a Tuna que era um Solidó, era um conjunto de guitarras, bandolins e violas e foi desta Tuna que nasceu a Sociedade.
A Sociedade nasceu como eu digo, da Tuna de Alcochete, mas também incluia instrumentos metálicos, concretamente corneta e saxofone, etc., e há quem diga que não, que foi mesmo no dia 15 de Janeiro que a banda nasceu, mas não podia, porque para vir tocar o Hino da Restauração do Concelho, tinha que haver instrumentos e tinha que já se ter ensaiado, logo a Sociedade nasceu antes de 15 de Janeiro de 1898.
No jornal A voz de Alcochete, de Janeiro de 1952, João Lusitano (10) fala da proliferação das sociedades de recreio e filarmónicas nos finais do séc. XIX por todo o País, salientando o facto de Alcochete se ter atrasado nesse campo, chegaram ao final do século passado apenas com um sol-e-dó, ainda que composto de optimos elementos. Mas o entusiasmo da Restauração e a boa vontade de todos em promover o levantamento da terra, já então em grande crise, deu-nos a Sociedade, que tomou o nome de imparcial para que dela pudessem fazer parte todos os alcochetanos , quer fossem progressistas, quer fossem regeneradores, ou doutras cores politicas ou mesmo de nenhuma. Sociedade Imparcial queria dizer que não tinha politica nenhuma. (...) Num ápice de fez tudo. Arrendou-se uma casa apropriada, a antiga casa do Valentim, e nela se montou um palco para representações teatrais, adquiriu-se um instrumental valioso; instruíram-se músicos; apareceram actores; e surgiu a filarmónica que foi famosa.
Fala depois de alguns músicos da época salientando um que mais se destacou: Francisco José: habil cornetim, que chegou a ser mestre da filarmónica e exímio guitarrista, e que em Lisboa marcou posição de relevo no seu tempo. Foi também mestre de uma charanga a bordo de um paquete da carreira de África, e a ele se refere com simpatia o comandante Couvreur de Oliveira num dos seus livros. (...) Cito ainda mais um nome: João Baptista Nunes Júnior, excelente pianista e autor do Hino da Restauração, cuja letra foi escrita pelo Dr. Luís Cebola, nosso ilustre conterrâneo. Creio que não fizeram parte da filarmónica esses notaveis artistas.
Mais dúvidas se acumulam agora depois deste relato e para aumentar a discórdia um artigo de 1989 da autoria de Luíz Santos Nunes intitulado O despertar da música em Alcochete (11), em que o autor defende que por volta de 1855 um grupo de 3 irmãos da familia Nunes junto com um sobrinho e um grupo de amigos formaram a primeira filarmónica a que chamaram Sociedade Recreio Alcochetense, mantendo-se a mesma em actividade até à Restauração do Concelho em 1898. Foi, segundo Luíz Nunes, esta filarmónica que tocou nos festejos da Restauração e dada a euforia que se vivia então e o facto de terem já falecido os mais velhos músicos, que fez com que a filarmónica fosse renovada e adoptasse o nome de Filarmónica 15 de Janeiro Alcochetense.
Para que a confusão se instale de vez, passamos a citar a restante informação fornecida pelo autor: Esta filarmónica teve pouca duração, cerca de três anos, como consequência da saída voluntária do seu maestro em 30 de Maio de 1901, por motivos particulares, segundo a invocação apresentada pelo próprio no ofício de pedido de exoneração enviado à Direcção da Sociedade. E a filarmónica acabou. Depois de um interregno de cerca de 12 anos, em que deixou de existir, na nossa Vila Sociedade do género filarmónica e tendo voltado a calma ao espírito do povo, passados dois anos sobre a implantação da República (5 de Outubro de 1910), agitados ainda pela política dominante na altura, e pela cisão em dois grupos, ou partidos, Quelhas e Escalas, verificada entre os trabalhadores das descargas do carvão no Estuário do Tejo (Belém), que teve preocupantes repercussões, localmente, corre na Vila Alcochetana, pelos fins de 1912 a notícia de que estava em organização uma nova Sociedade Filarmónica (...) Com o passar do tempo, chega-se ao mês de Janeiro de 1913 e é então confirmada a existência da nova colectividade musical, baptizada com o nome “Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898”
Parece-nos pouco provável que a Banda tenha deixado de existir durante uma década, pois a informação acima apresentada contesta esta opinião, pois já vimos evidências da sua existência pelo menos até 1908.
De onde terá então surgido a informação de que a Sociedade deixou de existir? Só porque se demitiu o regente? Já vimos também que os regentes naquela época se sucediam uns aos outros com grande facilidade, e o nome Imparcial, terá a ver com os dois grupos de trabalhadores específicos, ou terá mais a ver com monárquicos e republicanos no geral?
Sem que possamos ter muitos factos palpáveis sobre as suas origens, temos no entanto uma certeza, no Salão Nobre da sua sede, vemos afixado um documento que atesta o seguinte: a partir do dia 22 de Novembro de 1924 a Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 foi efectivamente constituída na 3ª repartição do Governo Civil de Lisboa e autorizada a funcionar.
A partir daqui tudo foi um crescendo, com mais ou menos dificuldades, a Sociedade nunca deixou de funcionar e cedo se transformou na referência cultural do Concelho, com um papel social de relevo na formação de gerações e gerações de músicos ao longo de todo o século XX até aos nossos dias, dando um sentido à vida de centenas de trabalhadores que tinham na música e na Sociedade o seu descanso, as suas férias, a sua força para enfrentar mais um dia de trabalho duro, seguramente mal pago, mas que se sentia um pouco mais leve por causa do amor à música...
10 dezembro 2009
Escola Conde Ferreira

"Convencido de que a instrução pública é um elemento essencial para o bem da Sociedade, quero que os meus testamenteiros mandem construir e mobilar cento e vinte casas para escolas primárias de ambos os sexos nas terras que forem cabeças de concelho sendo todas por uma mesma planta e com acomodação para vivenda do professor, não excedendo o custo de cada casa e mobília a quantia de 1200 reis e pronta que esteja cada casa não mandarão construir mais de duas casas em cada cabeça de concelho e preferirão aquelas terras que bem entenderem".
1. A planta do edifício e do terreno onde houver de ser construído. O terreno não deve ter menos de 600 metros quadrados além da área que for ocupada pelo edifício.
3. Cópia do orçamento geral ou suplementar devidamente aprovado, onde esteja votada uma verba não inferior a 400$000 réis para construção da escola pretendida.
4. Deliberação competentemente aprovada de como se obrigam a executar fielmente a planta no termo de um ano contado desde o dia em que for concedido o subsídio do governo.
Foram muitas as autarquias que concorreram e este foi o primeiro passo para o surgimento, em vários municípios, de norte a sul de Portugal, de edifícios com uma arquitectura simples, funcional e facilmente identificável. Hoje um marco na história da educação em Portugal, as designadas "Escolas Conde de Ferreira" tiveram uma enorme importância para a consolidação do ensino público.
Das 120 escolas previstas no testamento do conde, foram construídas 91, das quais 21 foram, entretanto, demolidas. As restantes 70 continuam a funcionar para os mais diversos fins, desde ensino a serviços municipais, passando por sedes de juntas de freguesias, bibliotecas, museus municipais ou mesmo instalações de forças de segurança.
A escola Conde Ferreira, seguindo um projecto apresentado em 1866, é encimada por um pequeno frontão, que lembra um campanário, apresentando-se como contraponto da igreja, com a qual procura concorrer, sendo um símbolo do positivismo nascente, aliado do progresso e da transformação social. O derramar da lux da instrução aparecia como o instrumento fundamental da erradicação das trevas da ignorância e da superstição, uma forma de moralizar e civilizar o povo. O novo templo dessa crença cívica era a escola.
Em 1866 publicam-se as primeiras condições que deveriam ser observadas na construção das escolas dando-se lugar ao primeiro projecto tipo de uma escola primária em Portugal
Em 1880, a partir do projecto tipo, já existiam 120 escolas, nas várias cabeças de concelho, edificadas com os meios financeiros resultantes do legado do Conde de Ferreira, que à sua morte, ocorrida no Porto, deixara 144 contos para construir e mobilar 120 escolas. Foi então construída no Rossio da vila, da escola de Alcochete, uma das primeiras do país, pois que até aí o ensino era ministrado em salas particulares. A escola destinava-se a 2 aulas do sexo masculino
Em 1911 dá-se passagem para as Câmaras Municipais das competências relativas às instalações escolares, sendo elaboradas as Normas técnicas, higiénicas e pedagógicas a que devem obedecer os novos edifícios escolares, conhecidas como Normas da República e a partir das quais se edificam as Escolas da República.
Em Junho 1997, acontece último ano em que é ministrado na escola de Alcochete as aulas do 1º ciclo.
Igreja da Atalaia - Parte II

Com base nestas indicações, fácil se torna sugerir que a primeira metade de Quinhentos terá sido um período de forte incremento do culto na Atalaia, eventualmente relacionada com a própria afirmação das vilas de Alcochete e de Aldeia Galega enquanto sedes concelhias, sem esquecer a conjuntura religiosa da época, fértil em novos cultos, marcados pela modernidade, em detrimento das antigas devoções baixo-medievais.
A construção do principal cruzeiro no adro do Santuário não escapa a estas condicionantes e a sua cronologia reflecte bem o período de apogeu que, então, o monte da Atalaia viveu. Construído em 1551, conforme dupla inscrição na base da cruz, ficou a dever-se à confraria de Lisboa, certamente uma das mais importantes (senão, mesmo, a mais importante) de quantas chegaram a constituir-se.
O monumento compõe-se de duas partes distintas. Ao centro, ergue-se o cruzeiro propriamente dito, com representação escultórica de Nossa Senhora da Piedade, numa das faces, e Cristo na Cruz, noutra, ambas repousando num capitel que, por sua vez, assenta sobre uma coluna monolítica de base rectangular. A envolver o cruzeiro, existe uma estrutura quadrangular alpendrada, suportada por quatro colunas e rematada em cúpula, por sua vez sublinhada por pináculos triangulares nos ângulos.
O grupo escultórico é o principal elemento deste monumento, apesar de se encontrar em mau estado de conservação e, em algumas partes, truncado. A Piedade constitui uma das cenas mais representadas em cruzeiros deste género, razão por que aparece em primeiro plano, a todos quantos cheguem à Atalaia; na face voltada ao santuário, retratou-se a Crucificação, completando, desta forma, os dois momentos essenciais da Paixão de Cristo. No conjunto, merece também destaque o capitel que suporta este conjunto escultórico, onde se inseriu um pequeno laço terminando em volutas, composição que, pela técnica fina de execução e pela forma, se integra nitidamente no vocabulário renascentista.
Até 1987, o nível do terreno esteve à altura das bases das colunas, tendo-se, nesse ano, desafrontado o monumento e construído a actual caixa de cimento que o protege. Esta foi a solução encontrada para fazer face à constante subida da cota do terreno, particularmente gravosa nas últimas décadas, em consequência do notório abrandamento do culto dos círios no arraial.
Do grupo de cruzeiros da Atalaia fazem ainda parte outros dois, colocados lateralmente ao santuário, respectivamente nas estradas para Pegões e Alcochete. São elementos posteriores ao primeiro, provavelmente do século XVII (um deles possui a inscrição de 1669) e testemunham o carinho com que os vários círios - forma de religiosidade colectiva, assente na romaria, que dispensa a intercessão de ministros da igreja (MARQUES, 1996, p.55) - foram enriquecendo a aldeia de referentes religiosos, para lá das suas próprias casas de acolhimento, que rodeiam ainda o arraial.
30 abril 2009
Pausa no Coisas de Alcochete
Nesta altura, quase não existe tempo para o prazer e somos obrigados a fazer mais um ou outro sacrifício para a nossa própria estabilidade.
Com tamanha falta de tempo, o Coisas de Alcochete, não vai acabar, mas sim, fazer uma pausa prolongada até que o tempo surja de novo.
A todos os leitores do Coisas de Alcochete, o meu obrigado.
Contudo, a caixa de Correio Electrónico e caixa de comentários, estarão activas e sempre que queiram indicar um novo dado, podem-no fazer através destes meios.
Em jeito de resumo, abaixo ficam os links para todos os posts colocados no Coisas de Alcochete, até à presente data.
O mais poderoso Alcochetano
3º Barão de Samora Correia
Beato Manuel
Padre Cruz
Ciprião de Figueiredo
Ser Alcochetano
Igreja Matriz – Parte 1
Um Pórtico em decadência
Samouco
Perda e Restauração do Concelho Parte 1
Perda e Restauração do Concelho Parte 2.
Perda de Restauração do Concelho Parte 3
Grupo Desportivo Alcochetense
Perda e Restauração do Concelho Parte 4
Perda e Restauração do Concelho Parte 5
Perda e Restauração do Concelho Conclusão
Nossa Senhora da Vida
Alcochete e o Santo Oficio
Alcochete como Roma
Documentos
Igreja Matriz Parte-2
Ratton
O Sal
Interessante descrição
Mais uma curiosidade
Retalhos da vida de Manuel, o Primeiro
Paço Real de Alcochete e Alvaro Velho
O Sal Parte-2
Património I- Biblioteca
Património II- Ermida de Santo António de Ussa
Património III – Sociedade Imparcial
Património IV – O Pelourinho
Património V- Centro Paroquial
Igreja da Atalaia
Crónica
D. João II em Alcochete
Corografia Portugueza
Património VI – Capela de Nossa Senhora da Conceição
Lendas e Calendas
Lendas e Calendas
Círio dos Marítimos
Dr. Arrôs
Padre João Rodrigues
Padre João Rodrigues II
O nosso dialecto
A ultima marinha
Festas do Barrete Verde
As faces da Igreja Matriz
Património – VI Núcleo Antigo Alcochete
Alcochete Arqueológico
GDA na Taça de Portugal
Agiologio Lusitano
Peste Negra
Barrigana
Um testemunho
Alcaxete
Local de descanso
Augusto Emílio Zaluar
Memorias Paroquiais
Futebolistas
Padre João Rodrigues III
Transcrição da Lenda de Alcochete
Alcochete Estratégica
Mais um pedaço de História
Imparcial Futebol Clube de Alcochete
Bispo de Ceuta e Tânger
19 janeiro 2009
Perda e Restauração do Concelho - 111 Anos
http://coisasdealcochete.blogspot.com/2006/06/perda-e-restaurao-do-concelho-concluso.html
http://coisasdealcochete.blogspot.com/2006/06/perda-e-restaurao-do-concelho-parte-5.html
http://coisasdealcochete.blogspot.com/2006/05/perda-e-restaurao-do-concelho-parte-4.html
http://coisasdealcochete.blogspot.com/2006/05/perda-e-restaurao-do-concelho-parte-3.html
http://coisasdealcochete.blogspot.com/2006/05/perda-e-restaurao-do-concelho-parte-2.html
http://coisasdealcochete.blogspot.com/2006/05/perda-e-restaurao-do-concelho-parte-1.html
09 janeiro 2009
Bispo de Ceuta e Tânger
A cidade foi reconhecida como possessão portuguesa pelo Tratado de Alcáçovas (1479) e pelo Tratado de Tordesilhas (1494).
No contexto da Dinastia Filipina, Ceuta manteve a administração portuguesa, tal como Tânger e Mazagão. Todavia, quando da Restauração Portuguesa em 1640 não aclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, ficando sob domínio espanhol. A situação foi oficializada em 1668 com o Tratado de Lisboa, assinado entre os dois países e que pôs fim à guerra da Restauração, no entanto, a cidade decidiu manter a sua bandeira que é composta por gomos brancos e pretos, à semelhança da cidade de Lisboa, ostentando ao centro o escudo real da época.
Ceuta foi diocese em 1417 por bula do Papa Martinho V. A partir de 1645 a diocese de Ceuta deixa de pertencer a Portugal, e passa a ser cidade espanhola.

Obrigado
Se quiser participar neste Blogue com algum facto histórico sobre Alcochete, poderá utilizar o mail alcochetano@gmail.com.
30 outubro 2008
Imparcial Futebol Clube Alcochete

Imparcial Futebol Clube Alcochete
1923-1995
Associação desportiva com equipa futebol, andebol, ténis de mesa, halterofilismo.Actualmente, os clubes desportivos são definidos por força de lei como pessoas colectivas de direito privado, que se reúnem sob a forma de associação com fins não lucrativos, tendo como objectivo o fomento e a prática de actividades desportivas. Afirmam-se como associação de direito privado e de utilidade pública, uma vez que servem os interesses dos seus associados e simultaneamente propõem um fim de interesse geral da comunidade onde estão inseridos.Os clubes ou associações desportivas locais são desde sempre entidades muito relevantes no panorama desportivo português, constituíram-se como uma espécie de centros de acolhimento propiciadores da possibilidade da prática desportiva. Os seus objectivos centram-se no fomento, orientação e apoio da prática das actividades desportivas que albergam (que apesar de constituírem por vezes um leque diversificado, não conseguem competir com o "apelo" do futebol, que é de facto o desporto que mais cativa associados e população em geral).O Imparcial Futebol Clube Alcochete foi fundado a 22 de Abril de 1923, com sede e campo de jogos em Alcochete. Inicialmente denominava-se Imparcial Foot-Ball Club Alcochete, o que denota a influência britânica e a importância maior da prática futebolística no clube. O futebol, importado de Inglaterra, adquiria neste período um cada vez maior número de adeptos.
A Direcção do IFCA era formada por nove elementos: o Presidente, o Vice-presidente, o Secretário, o Vice-secretário, o Tesoureiro e quatro Vogais. À Direcção cabiam as seguintes atribuições: dirigir o clube ao nível interno e externo; elaborar os regulamentos internos e levá-los à apreciação e votação da Assembleia Geral; aplicar sanções a eventuais irregularidades, resultantes do incumprimento do regulamento interno por parte dos associados; solicitar a reunião extraordinária da Assembleia Geral; apresentar em reunião da Assembleia Geral o relatório da conta de gerência; disponibilizar aos sócios as contas, documentos e os livros de escrituração nos oito dias antecessores à reunião da Assembleia Geral; no fim do mandato, apresentar à Assembleia Geral uma lista de sócios que pudesse suceder-lhe na Direcção; realizar as propostas para sócios "honorários"; resolver as situações não mencionadas nos estatutos ou regulamento interno; "…chamar a atenção do Conselho Técnico quando não concorda com as suas deliberações"; Resolver todos os casos omissos nos estatutos e regulamento interno.
O Conselho Fiscal ou Técnico era composto pelo Presidente, pelo Secretário e por um Vogal. Ao Conselho Fiscal deveria organizar as equipas desportivas do IFCA; debater e resolver assuntos técnicos (julgamos que seriam os relacionados com a prática desportiva ou regras); avaliar os equipamentos, a aptidão física e técnica dos atletas e substituindo-os quando necessário; as suas deliberações tinham que ser obrigatoriamente validadas pela Direcção.
28 outubro 2008
Mais um pedaço de História
Para seguir com atenção durante as próximas semanas.
15 outubro 2008
Alcochete estratégica

Wellington interveio com êxito em diversos combates e acontecimentos importantes, todos relacionados com a defesa da posição do seu país na ordem política internacional do seu tempo. Assim, participou na luta da Grã-Bretanha contra o bloqueio continental, combatendo as tropas francesas em Portugal e na Espanha na Convenção de Sintra, na vitória do Buçaco e na Batalha de Salamanca. Combateu as tropas francesas em Portugal e na Espanha, e, em 1814, travou com Soult a batalha de Toulouse.
Enviado a Portugal em 1808, derrotou as tropas invasoras de Napoleão e, no ano seguinte, expulsou os franceses do país e recebeu o título de visconde. A casa onde habitou, na aldeia da Freineda, enquanto ajudava à defesa da fortaleza vizinha de Almeida, que fora invadida pelos franceses, foi cuidadosamente preservada e é a melhor testemunha da passagem do Duque de Wellington por Portugal.
Obteve o triunfo final na península ibérica em Vitória, Espanha, em 1814, o que lhe valeu o título de primeiro duque de Wellington.
A História de Portugal desde o início do reinado de D. Maria I em 1777 até ao fim das Guerras Liberais em 1834 engloba um período histórico complexo no qual inúmeros acontecimentos políticos e militares levaram ao fim do regime absolutista vigente em Portugal e a instauração de uma monarquia constitucional no país.
Em 1807, Napoleão Bonaparte ordenou a invasão de Portugal, e subsequentemente a Família Real procurou refúgio no Brasil. Esta seria, aliás, uma das causas da declaração da independência do Brasil pelo Infante D. Pedro em 1822, depois de uma revolução liberal em Portugal.
No acordar do século XIX, Portugal tentava manter-se num equilíbrio entre as potências da Grã-Bretanha (o mais antigo aliado de Portugal) e a França, optando por uma política de neutralidade, continuando no entanto a beneficiar do comércio com os dois. Contudo, a França estava ansiosa por quebrar a Aliança Luso-Britânica por forma a fechar os portos portugueses a comerciantes britânicos. Consequentemente os franceses, através de uma série de tratados diplomáticos (Santo Ildefonso, Fontainebleau) acordou uma invasão de Portugal com a Espanha (que estava também ansiosa por recuperar o território perdido em 1640 com a restauração da independência de Portugal com o fim da união ibérica). Em Janeiro de 1801 um ultimato com cinco pontos foi enviado para Lisboa pedindo que Portugal:
Abandonasse a sua aliança tradicional com a Grã-Bretanha, fechando-lhe os seus portos;
Abrisse os seus portos a Espanha e França;
Oferecesse um quarto de Portugal continental como garantia da devolução de ilhas espanholas nas mãos dos britânicos (Trindade, Minorca e Malta);
Pagasse uma indemnização de guerra a Espanha e França;
Revisse os seus limites fronteiriços com a Espanha.
Se Portugal não cumprisse estes cinco pontos, seria invadido por Espanha, ajudada por 15.000 soldados franceses. Portugal, obviamente, recusou cumprir o ultimato, e a guerra foi declarada.
Sob o comando de Jean-Andoche Junot, as tropas francesas entraram em Espanha a 18 de Outubro de 1807, atravessando a Península e chegando à fronteira portuguesa a 20 de Novembro. Sem encontrarem qualquer tipo de resistência, chegaram a Abrantes no dia 24, a Santarém a 28, e finalmente a Lisboa no dia 30. No dia anterior a família real e a corte haviam fugido para o Brasil, transportados em navios britânicos. Portugal havia sido deixado a uma Junta de Regência provisória com ordens para não resistir.
Um ano depois, uma força britânica comandada por Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) desembarca em Portugal, avançado sobre Lisboa. Um exército anglo-português consegue derrotar os franceses nas batalhas de Roliça e Vimeiro, forçando a Convenção de Sintra. Os franceses foram autorizados a retirar-se do país levando consigo todo o produto dos seus saques feitos em Portugal. A Convenção beneficiava, assim, os dois lados, já que os francesas haviam perdido a sua capacidade de comunicação com Paris e os britânicos e portugueses ganhavam o controlo sobre Lisboa. Com o armistício, França ganhou algum tempo e haveria de invadir Portugal uma segunda vez.
Em muitas missivas Wellington esgrimia as soluções de guerra e estratégia. Na imagem abaixo, Alcochete era um ponto estratégico em Outubro de 1810. (Clique para ampliar)

The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. During His Various Campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France: From 1799 to 1818
Por Arthur Wellesley Wellington
Compilado por John Gurwood
Publicado por J. Murray, 1834
Wikipédia
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14 outubro 2008
Lenda de Alcochete - Transcrição

Apesar de jovem e rica, Conceição não quisera casar. Estimava profundamente seu pai, capitão da marinha mercante, e desde que ele enviuvara a sua dedicação por ele redobrara de intensidade. Porém, o velho marinheiro não compreendia, ou antes, não achava bem aceitar o que ele pensava ser um sacrifício. E certo dia falou a Conceição.
Era a hora do crepúsculo. O velho marinheiro achou propício o momento.
— Filha, repara neste fim de dia!
Ela sorriu.
— É maravilhoso! O Sol está fazendo a sua despedida. Dentro em pouco virá a noite.É isso mesmo: o Sol desaparecerá. E a noite é a morte!
Não falemos em morte! A noite é apenas a ausência da luz.
O marinheiro suspirou. Olhava o horizonte, meio confundido com a sombra.
— Filha! Também eu estou caminhando para o ocaso. A morte espreita-me. E não desejaria que ela te deixasse sozinha.
Conceição entristeceu.
— Meu pai, por favor, não fale assim! Sabe quanto o estimo!
— Sei. E sei também que por minha causa não te queres casar.
Ela protestou:
— Não é por sua causa! Sinto-me bem assim.
— Mas eu tenho de olhar pelo teu futuro. Seria horrível, ficares só no mundo até fazeres a derradeira viagem!
Ela tentou gracejar.
— Que ideia a sua! Fez-lhe mal este fim de tarde!
— Dizes bem. Fez-me mal, porque também é um fim... e lembra-me o meu...
— Pai! Temos ainda muito tempo à nossa frente!
— Bem sabes que não.
— Ora!... Além disso... não vejo pretendentes que me interessem.
O marinheiro encarou a filha.
— Conceição, não digas tal!... Então o Rebelo... o Vasco... o Lopes da Maia... o Gastão...
A jovem interrompeu o pai:
— Por amor de Deus, não me fale no Gastão! Cada vez está mais herege! Chega a entristecer-me.
O velho marinheiro olhou um ponto vago. E sentenciou:
— Gastão é o meu melhor ajudante. Sem ele já não poderia fazer nada do que faço.
— Mas porque troça ele da Misericórdia de Deus?
— Julga-se superior por isso...
— E a imagem de Nossa Senhora que pedi para colocar no seu navio?
— Bem... Ele não concordou... Mas como quem manda sou eu, já está colocada na popa do barco.
Conceição abraçou o pai num gesto quase gaiato.
— Quanto me alegra essa notícia! Agora já ficarei mais tranquila quando o pai sair para o mar. Nossa Senhora há-de protegê-lo sempre!
— Deus te oiça!
E rindo:
— Se visses a cara do Gastão! Ficou furioso. Mas quem manda sou eu. Ele é o meu imediato, teve de obedecer-me!
Conceição abanou a cabeça.
— Faço ideia! Fartou-se de blasfemar!
Suspirou fundo e concluiu:
— Que Deus lhe perdoe e o esclareça!
Algum tempo passou. Veio o dia do comandante se fazer de novo ao mar. A atmosfera estava carregada, ameaçadora. Dizia-se que o navio não se libertaria do temporal anunciado pelas previsões dos mais antigos.
Conceição despediu-se do pai escondendo a sua preocupação. Foi com ele até ao cais. Avistou Gastão, que veio falar-lhe.
— É preciso partir para ter a dita de ver o rosto mais belo que até hoje me foi dado contemplar.
Ela sorriu, retorquindo:
— Leva consigo outro rosto ainda mais belo!
Curioso, ele perguntou:
— Qual poderá ser?
— O de Nossa Senhora, que meu pai mandou colocar à popa do navio.
Gastão deixou de sorrir. Franziu as sobrancelhas. E exclamou:
— Que pena a Conceição ser tão beata!
— Porque o lamenta?
— Porque, se o não fosse, faria de si a minha esposa.
Conceição atalhou, muito séria:
— Não penso casar-me. Por isso não lamente o que me dá tanta felicidade.
Gastão tentou gracejar:
— Não é felicidade, o que leio nos seus olhos: é preocupação.
Ela concordou:
— Na verdade, o estado do tempo preocupa-me.
— Por causa de seu pai?
— Por todos. Mas principalmente por ele.
— Deixe-o comigo! Prometo fazer tudo para que nada lhe aconteça. Ela estendeu-lhe a mão.
— Confio em si. Vou ficar em casa presa às notícias que me chegarem. O vento começava a levantar-se. Ao largo, uma barra de cor cinzento escura pressagiava tempestade. Conceição beijou o pai, recomendou-lhe cuidado, e voltou para casa.
No mar alto, as vagas cresciam como montanhas. O vento sacudia o navio. Quase toda a tripulação e os passageiros tinham recolhido. Os mais conscientes começaram a aperceber-se do perigo. O navio, já cansado de tanto sulcar os mares, parecia agonizante, enfraquecido ante a gigantesca procela. As ondas varriam o convés. Os poucos tripulantes que se conservavam na luta contra os elementos caíam, por vezes, desequilibrados pelo vento e pelo balanço do navio. Sentindo a gravidade do momento, o comandante arrastou-se até à popa para orar à imagem da Virgem. Vendo-o, Gastão enfureceu-se.
— Comandante, não é com palavras que nos salvamos! É preciso fazer alguma coisa!
Elevando a voz sobre a tormenta, o velho comandante replicou:
— Pois salvem-se! Eu morrerei no meu posto!
Gastão proferiu uma praga, exclamando:
— Não vê que não o deixarei morrer? Hei-de salvá-lo, custe o que custar!
Olhou a imagem colocada na popa e declarou:
— O peso dessa santa está a desequilibrar o navio. Vou deitá-la ao mar!
O comandante gritou:
— Proibo-te que o faças!
Gastão parecia o demónio gritando no temporal, o rosto encharcado pelos salpicos das vagas:
— Eh, rapazes, agora quem manda sou eu! Agarrem o velho! Não o deixem mexer-se! E tu, Inácio, encarrega-te de deitar a santa ao mar! Talvez com menos peso à ré, o barco endireite a proa.
O rapaz interpelado olhou o comandante, que esbracejava agarrado por outro marinheiro. Hesitou. Mas o imediato gritou-lhe colérico:
— Vamos! Porque esperas? É uma ordem!
Inácio avançou para a imagem de Nossa Senhora. Gritando, já rouco, o velho comandante sentenciou:
— O castigo do Céu cairá sobre todos vós, desgraçados!
Gastão vociferou:
— Velho beato! Pois não vês que é para teu e nosso bem?
E voltando-se para o marinheiro:
— Então? Quando acabas com isso?
— Vai já, pronto! Vou dar aos peixes a santinha! Que lhes faça bom proveito!
Nesse momento exacto, algo se passou de pavoroso. Ao atirar a imagem pela borda fora, Inácio desequilibrou-se, envolvido por uma vaga maior, e desapareceu no redemoinho das ondas com o seu precioso fardo. Mas logo outra onda ainda maior varreu o convés, fazendo inclinar o barco tão violentamente, que este em breve metia água. A tripulação que estava no convés sumira-se nas vagas. Dir-se-ia o fim do mundo, no choque tremendo dos elementos em fúria.
A essa mesma hora, em casa e defronte de uma imagem da Senhora da Conceição, a jovem filha do comandante, que pressentira o tremendo temporal, implorava, chorando:
— Senhora da Conceição, minha madrinha e protectora! Salvai o meu pai! Por tudo Vos peço! Se necessário for, ofereço-Vos a minha vida em troca da vida de meu pai e da salvação do Gastão, para que ele se arrependa, e creia em Vós e em Deus! Ele é bom! Apenas não foi criado no ensinamento de Deus! Salvai-os, Senhora, mesmo em troca da minha vida!
No mar continuava a tragédia. De súbito, porém, pela Vontade Divina, surgiu à superfície das ondas, agora menos revoltas, a imagem de Nossa Senhora da Conceição. E essa imagem arrastava consigo dois corpos desfalecidos: o do velho comandante e o do seu imediato. Vogava ao sabor das ondas, de segundo a segundo mais calmas. E a tempestade amainou. E a imagem de Nossa Senhora, arrastando os dois corpos desfalecidos, foi dar às Matas, entre Samora Correia e Alcochete.
Quando o povo teve conhecimento de tamanho prodígio, logo ali acorreu. Já reanimados, o comandante e o imediato do navio naufragado olhavam em volta, perplexos. Por fim, o velho homem do mar exclamou:
— Só nós dois nos salvámos! E foi graças a Nossa Senhora! Operou-se um milagre! Gastão, acreditas agora?
Perturbado, mal crendo na realidade, Gastão apontou a imagem:
— Olhe, meu comandante! Olhe bem para o rosto da santa!... Tem as feições da jovem Conceição!
O comandante olhou a imagem da Virgem Santíssima. Os seus olhos abriram-se num espanto. Era verdade. As feições de sua filha estavam marcadas no rosto da Mãe de Deus!
A nova correu célere. Procuraram a jovem em casa. Mas encontraram-na morta, sorrindo como quem parte, contente, para uma grande viagem! De facto, Conceição partira, porque oferecera a sua vida em troca da salvação do pai e daquele por quem o seu coração batia em segredo.
Os populares transmitiam de boca em boca o que acabara de acontecer. Levaram em procissão a imagem da Virgem, a quem já chamavam Nossa Senhora da Conceição da Popa, para a igreja matriz de S. João Baptista, em Alcochete.
No meio dessa multidão de fiéis que se juntavam de todos os pontos das imediações, caminhava um homem absorto, como sonâmbulo. Era Gastão, convertido, amargurado, desejando apenas penitenciar-se. Quem o via julgá-lo-ía orando. Mas quem mais se aproximasse ouvi-lo-ia exclamar.
— O rosto de Nossa Senhora é o rosto da Conceição! O rosto da Conceição! Acredito! Acredito no milagre! O rosto de Nossa Senhora é o rosto da Conceição!...
Padre João Rodrigues III
(GIRAM, GIRAO, GIRON, ROIZ).
Missionary and author, b. at Alcochete in the Diocese of Lisbon in 1558; d. in Japan in 1633. He entered the Society of Jesus on 16 December, 1576, and in 1583 began his missionary labours in Japan. His work was facilitated by his winning the esteem of the Emperor Taicosama. He studied the Japanese language ardently, and is particularly known for his efforts to make it accessible to the Western nations. His Japanese grammar ranks among the important linguistic productions of the Jesuit missionaries. Published at Nagasaki in 1604 under the title "Arte da lingoa de Japam", it appeared in 1624 in an abridged form at Macao: "Arte breve da lingoa japoa"; from the manuscript of this abridgement preserved in the National Library in Paris, the Asiatic Society prepared a French edition of the work: "Elements de la grammaire japonaise par le P. Rodriguez" (Paris, 1825). Rodriguez compiled also a Japanese-Portuguese dictionary (Nagasaki, 1603), later adapted to the French by Pagès (Paris, 1862).
RÉMUSAT, in Nouv. Melanges asiat., I (Paris, 1829), 354-57; GANSEN, in Buchberger=1Cs Handlexikon, s. v.
N.A. WEBER Transcribed by Thomas M. Barrett
13 maio 2008
Futebolistas
Iniciou-se no Alcochetense, e na 1ª divisão jogou em 73/74 no Belenenses, em 74/75 e 75/76 no U. Tomar, em 79/80 no Leiria, de 80/81 a 83/84 no Guimarães, e 84/85 e 85/86 no Vitória de Setubal.
(no Montijo)
Jogou em muitos clubes onde se incluem Juventude de Evora, Montijo, União de Tomar, tendo rumado ao Canadá onde terá acabado a carreira.
Alcançou uma internacionalização. Fez o seu único jogo pela selecção nacional a 8 de Junho de 1967, contra a Noruega, em Oslo (vitória por 2-1).








