09 janeiro 2009

Bispo de Ceuta e Tânger









Ceuta foi ocupada sucessivamente por Fenícios, Cartagineses, Romanos, Vândalos, Bizantinos e muçulmanos, a sua conquista por Portugal (1415) assinala o início da expansão marítima deste país.


A cidade foi reconhecida como possessão portuguesa pelo Tratado de Alcáçovas (1479) e pelo Tratado de Tordesilhas (1494).

No contexto da Dinastia Filipina, Ceuta manteve a administração portuguesa, tal como Tânger e Mazagão. Todavia, quando da Restauração Portuguesa em 1640 não aclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, ficando sob domínio espanhol. A situação foi oficializada em 1668 com o Tratado de Lisboa, assinado entre os dois países e que pôs fim à guerra da Restauração, no entanto, a cidade decidiu manter a sua bandeira que é composta por gomos brancos e pretos, à semelhança da cidade de Lisboa, ostentando ao centro o escudo real da época.


Ceuta foi diocese em 1417 por bula do Papa Martinho V. A partir de 1645 a diocese de Ceuta deixa de pertencer a Portugal, e passa a ser cidade espanhola.


No "Memoria Historica sobre sobres os bispados de Ceuta e Tanger" de Levy Maria Jordão, aparece D. Heitor de Valladares Sottomayor, natural de Alcochete.


Julgo, se não me falha a memória, que no Museu de Arte Sacra, existe uma gravura de D. Heitor.












Obrigado

Obrigado a todos os leitores pelas quase 11000 visitas no "Coisas de Alcochete".

Se quiser participar neste Blogue com algum facto histórico sobre Alcochete, poderá utilizar o mail alcochetano@gmail.com.

30 outubro 2008

Imparcial Futebol Clube Alcochete







Tenho por vezes, visitado o site da Torre do Tombo em busca de mais novidades relativas a Alcochete. Pois bem, existem algumas mais. Numa das sub-secções de uma das minhas pesquisas, encontrava-se uma Pasta na Torre do Tombo sobre Imparcial FC Alcochete que abaixo deixo alguns dados contidos no âmbito dos documentos.

Imparcial Futebol Clube Alcochete

1923-1995

Associação desportiva com equipa futebol, andebol, ténis de mesa, halterofilismo.Actualmente, os clubes desportivos são definidos por força de lei como pessoas colectivas de direito privado, que se reúnem sob a forma de associação com fins não lucrativos, tendo como objectivo o fomento e a prática de actividades desportivas. Afirmam-se como associação de direito privado e de utilidade pública, uma vez que servem os interesses dos seus associados e simultaneamente propõem um fim de interesse geral da comunidade onde estão inseridos.Os clubes ou associações desportivas locais são desde sempre entidades muito relevantes no panorama desportivo português, constituíram-se como uma espécie de centros de acolhimento propiciadores da possibilidade da prática desportiva. Os seus objectivos centram-se no fomento, orientação e apoio da prática das actividades desportivas que albergam (que apesar de constituírem por vezes um leque diversificado, não conseguem competir com o "apelo" do futebol, que é de facto o desporto que mais cativa associados e população em geral).O Imparcial Futebol Clube Alcochete foi fundado a 22 de Abril de 1923, com sede e campo de jogos em Alcochete. Inicialmente denominava-se Imparcial Foot-Ball Club Alcochete, o que denota a influência britânica e a importância maior da prática futebolística no clube. O futebol, importado de Inglaterra, adquiria neste período um cada vez maior número de adeptos.

A Direcção do IFCA era formada por nove elementos: o Presidente, o Vice-presidente, o Secretário, o Vice-secretário, o Tesoureiro e quatro Vogais. À Direcção cabiam as seguintes atribuições: dirigir o clube ao nível interno e externo; elaborar os regulamentos internos e levá-los à apreciação e votação da Assembleia Geral; aplicar sanções a eventuais irregularidades, resultantes do incumprimento do regulamento interno por parte dos associados; solicitar a reunião extraordinária da Assembleia Geral; apresentar em reunião da Assembleia Geral o relatório da conta de gerência; disponibilizar aos sócios as contas, documentos e os livros de escrituração nos oito dias antecessores à reunião da Assembleia Geral; no fim do mandato, apresentar à Assembleia Geral uma lista de sócios que pudesse suceder-lhe na Direcção; realizar as propostas para sócios "honorários"; resolver as situações não mencionadas nos estatutos ou regulamento interno; "…chamar a atenção do Conselho Técnico quando não concorda com as suas deliberações"; Resolver todos os casos omissos nos estatutos e regulamento interno.

O Conselho Fiscal ou Técnico era composto pelo Presidente, pelo Secretário e por um Vogal. Ao Conselho Fiscal deveria organizar as equipas desportivas do IFCA; debater e resolver assuntos técnicos (julgamos que seriam os relacionados com a prática desportiva ou regras); avaliar os equipamentos, a aptidão física e técnica dos atletas e substituindo-os quando necessário; as suas deliberações tinham que ser obrigatoriamente validadas pela Direcção.

28 outubro 2008

Mais um pedaço de História

O blogue “Praia dos Moinhos” alude, através de um dos seus autores, à História Alcochetana. Num excelente post, fruto de uma investigação nos arquivos municipais, Fonseca Bastos em Municipalismo de outrora, tenta seguir as pisadas dos “pormenores da nossa história contemporânea”.

Para seguir com atenção durante as próximas semanas.

15 outubro 2008

Alcochete estratégica







Arthur Wellesley (Duque of Wellington) foi o quarto filho do marquês de Mornington e de Ann Hill, a filha mais velha do visconde de Dungannon. Foi educado em Eton e na Academia Militar em Angers, na França. Iniciou a sua carreira militar nos aquartelamentos do Regimento 73 na Inglaterra. O seu Regimento estava então deslocado na Índia e, em abril de 1790, tomou assento no Parlamento Irlandês, vindo a atingir o posto de tenente-coronel em 1793. Em Junho do ano seguinte, participou na mal sucedida invasão dos Países Baixos, sob o comando do duque de York.

Wellington interveio com êxito em diversos combates e acontecimentos importantes, todos relacionados com a defesa da posição do seu país na ordem política internacional do seu tempo. Assim, participou na luta da Grã-Bretanha contra o bloqueio continental, combatendo as tropas francesas em Portugal e na Espanha na Convenção de Sintra, na vitória do Buçaco e na Batalha de Salamanca. Combateu as tropas francesas em Portugal e na Espanha, e, em 1814, travou com Soult a batalha de Toulouse.



Enviado a Portugal em 1808, derrotou as tropas invasoras de Napoleão e, no ano seguinte, expulsou os franceses do país e recebeu o título de visconde. A casa onde habitou, na aldeia da Freineda, enquanto ajudava à defesa da fortaleza vizinha de Almeida, que fora invadida pelos franceses, foi cuidadosamente preservada e é a melhor testemunha da passagem do Duque de Wellington por Portugal.
Obteve o triunfo final na península ibérica em Vitória, Espanha, em 1814, o que lhe valeu o título de primeiro duque de Wellington.



A História de Portugal desde o início do reinado de D. Maria I em 1777 até ao fim das Guerras Liberais em 1834 engloba um período histórico complexo no qual inúmeros acontecimentos políticos e militares levaram ao fim do regime absolutista vigente em Portugal e a instauração de uma monarquia constitucional no país.



Em 1807, Napoleão Bonaparte ordenou a invasão de Portugal, e subsequentemente a Família Real procurou refúgio no Brasil. Esta seria, aliás, uma das causas da declaração da independência do Brasil pelo Infante D. Pedro em 1822, depois de uma revolução liberal em Portugal.
No acordar do século XIX, Portugal tentava manter-se num equilíbrio entre as potências da Grã-Bretanha (o mais antigo aliado de Portugal) e a França, optando por uma política de neutralidade, continuando no entanto a beneficiar do comércio com os dois. Contudo, a França estava ansiosa por quebrar a Aliança Luso-Britânica por forma a fechar os portos portugueses a comerciantes britânicos. Consequentemente os franceses, através de uma série de tratados diplomáticos (Santo Ildefonso, Fontainebleau) acordou uma invasão de Portugal com a Espanha (que estava também ansiosa por recuperar o território perdido em 1640 com a restauração da independência de Portugal com o fim da união ibérica). Em Janeiro de 1801 um ultimato com cinco pontos foi enviado para Lisboa pedindo que Portugal:


Abandonasse a sua aliança tradicional com a Grã-Bretanha, fechando-lhe os seus portos;



Abrisse os seus portos a Espanha e França;



Oferecesse um quarto de Portugal continental como garantia da devolução de ilhas espanholas nas mãos dos britânicos (Trindade, Minorca e Malta);



Pagasse uma indemnização de guerra a Espanha e França;



Revisse os seus limites fronteiriços com a Espanha.




Se Portugal não cumprisse estes cinco pontos, seria invadido por Espanha, ajudada por 15.000 soldados franceses. Portugal, obviamente, recusou cumprir o ultimato, e a guerra foi declarada.

Sob o comando de Jean-Andoche Junot, as tropas francesas entraram em Espanha a 18 de Outubro de 1807, atravessando a Península e chegando à fronteira portuguesa a 20 de Novembro. Sem encontrarem qualquer tipo de resistência, chegaram a Abrantes no dia 24, a Santarém a 28, e finalmente a Lisboa no dia 30. No dia anterior a família real e a corte haviam fugido para o Brasil, transportados em navios britânicos. Portugal havia sido deixado a uma Junta de Regência provisória com ordens para não resistir.




Um ano depois, uma força britânica comandada por Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) desembarca em Portugal, avançado sobre Lisboa. Um exército anglo-português consegue derrotar os franceses nas batalhas de Roliça e Vimeiro, forçando a Convenção de Sintra. Os franceses foram autorizados a retirar-se do país levando consigo todo o produto dos seus saques feitos em Portugal. A Convenção beneficiava, assim, os dois lados, já que os francesas haviam perdido a sua capacidade de comunicação com Paris e os britânicos e portugueses ganhavam o controlo sobre Lisboa. Com o armistício, França ganhou algum tempo e haveria de invadir Portugal uma segunda vez.




Em muitas missivas Wellington esgrimia as soluções de guerra e estratégia. Na imagem abaixo, Alcochete era um ponto estratégico em Outubro de 1810. (Clique para ampliar)




The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington, K. G. During His Various Campaigns in India, Denmark, Portugal, Spain, the Low Countries, and France: From 1799 to 1818
Por Arthur Wellesley Wellington
Compilado por John Gurwood
Publicado por J. Murray, 1834


Wikipédia


Google Books

14 outubro 2008

Lenda de Alcochete - Transcrição





Pelos meados do século XVIII, vivia em Alcochete uma jovem muito piedosa chamada Conceição. Todos os pobres das redondezas a conheciam e estimavam. Ela era a sua benfeitora. A que se interessava pelos seus problemas. A que tentava minorar-lhes os sofrimentos e suprir-lhes as faltas.


Apesar de jovem e rica, Conceição não quisera casar. Estimava profundamente seu pai, capitão da marinha mercante, e desde que ele enviuvara a sua dedicação por ele redobrara de intensidade. Porém, o velho marinheiro não compreendia, ou antes, não achava bem aceitar o que ele pensava ser um sacrifício. E certo dia falou a Conceição.
Era a hora do crepúsculo. O velho marinheiro achou propício o momento.
— Filha, repara neste fim de dia!
Ela sorriu.
— É maravilhoso! O Sol está fazendo a sua despedida. Dentro em pouco virá a noite.É isso mesmo: o Sol desaparecerá. E a noite é a morte!
Não falemos em morte! A noite é apenas a ausência da luz.
O marinheiro suspirou. Olhava o horizonte, meio confundido com a sombra.
— Filha! Também eu estou caminhando para o ocaso. A morte espreita-me. E não desejaria que ela te deixasse sozinha.
Conceição entristeceu.
— Meu pai, por favor, não fale assim! Sabe quanto o estimo!
— Sei. E sei também que por minha causa não te queres casar.
Ela protestou:
— Não é por sua causa! Sinto-me bem assim.
— Mas eu tenho de olhar pelo teu futuro. Seria horrível, ficares só no mundo até fazeres a derradeira viagem!
Ela tentou gracejar.
— Que ideia a sua! Fez-lhe mal este fim de tarde!
— Dizes bem. Fez-me mal, porque também é um fim... e lembra-me o meu...
— Pai! Temos ainda muito tempo à nossa frente!
— Bem sabes que não.
— Ora!... Além disso... não vejo pretendentes que me interessem.
O marinheiro encarou a filha.
— Conceição, não digas tal!... Então o Rebelo... o Vasco... o Lopes da Maia... o Gastão...
A jovem interrompeu o pai:
— Por amor de Deus, não me fale no Gastão! Cada vez está mais herege! Chega a entristecer-me.
O velho marinheiro olhou um ponto vago. E sentenciou:
— Gastão é o meu melhor ajudante. Sem ele já não poderia fazer nada do que faço.
— Mas porque troça ele da Misericórdia de Deus?
— Julga-se superior por isso...
— E a imagem de Nossa Senhora que pedi para colocar no seu navio?
— Bem... Ele não concordou... Mas como quem manda sou eu, já está colocada na popa do barco.
Conceição abraçou o pai num gesto quase gaiato.
— Quanto me alegra essa notícia! Agora já ficarei mais tranquila quando o pai sair para o mar. Nossa Senhora há-de protegê-lo sempre!
— Deus te oiça!
E rindo:
— Se visses a cara do Gastão! Ficou furioso. Mas quem manda sou eu. Ele é o meu imediato, teve de obedecer-me!
Conceição abanou a cabeça.
— Faço ideia! Fartou-se de blasfemar!
Suspirou fundo e concluiu:
— Que Deus lhe perdoe e o esclareça!
Algum tempo passou. Veio o dia do comandante se fazer de novo ao mar. A atmosfera estava carregada, ameaçadora. Dizia-se que o navio não se libertaria do temporal anunciado pelas previsões dos mais antigos.
Conceição despediu-se do pai escondendo a sua preocupação. Foi com ele até ao cais. Avistou Gastão, que veio falar-lhe.
— É preciso partir para ter a dita de ver o rosto mais belo que até hoje me foi dado contemplar.
Ela sorriu, retorquindo:
— Leva consigo outro rosto ainda mais belo!
Curioso, ele perguntou:
— Qual poderá ser?
— O de Nossa Senhora, que meu pai mandou colocar à popa do navio.
Gastão deixou de sorrir. Franziu as sobrancelhas. E exclamou:
— Que pena a Conceição ser tão beata!
— Porque o lamenta?
— Porque, se o não fosse, faria de si a minha esposa.
Conceição atalhou, muito séria:
— Não penso casar-me. Por isso não lamente o que me dá tanta felicidade.
Gastão tentou gracejar:
— Não é felicidade, o que leio nos seus olhos: é preocupação.
Ela concordou:
— Na verdade, o estado do tempo preocupa-me.
— Por causa de seu pai?
— Por todos. Mas principalmente por ele.
— Deixe-o comigo! Prometo fazer tudo para que nada lhe aconteça. Ela estendeu-lhe a mão.
— Confio em si. Vou ficar em casa presa às notícias que me chegarem. O vento começava a levantar-se. Ao largo, uma barra de cor cinzento escura pressagiava tempestade. Conceição beijou o pai, recomendou-lhe cuidado, e voltou para casa.
No mar alto, as vagas cresciam como montanhas. O vento sacudia o navio. Quase toda a tripulação e os passageiros tinham recolhido. Os mais conscientes começaram a aperceber-se do perigo. O navio, já cansado de tanto sulcar os mares, parecia agonizante, enfraquecido ante a gigantesca procela. As ondas varriam o convés. Os poucos tripulantes que se conservavam na luta contra os elementos caíam, por vezes, desequilibrados pelo vento e pelo balanço do navio. Sentindo a gravidade do momento, o comandante arrastou-se até à popa para orar à imagem da Virgem. Vendo-o, Gastão enfureceu-se.
— Comandante, não é com palavras que nos salvamos! É preciso fazer alguma coisa!
Elevando a voz sobre a tormenta, o velho comandante replicou:
— Pois salvem-se! Eu morrerei no meu posto!
Gastão proferiu uma praga, exclamando:
— Não vê que não o deixarei morrer? Hei-de salvá-lo, custe o que custar!
Olhou a imagem colocada na popa e declarou:
— O peso dessa santa está a desequilibrar o navio. Vou deitá-la ao mar!
O comandante gritou:
— Proibo-te que o faças!
Gastão parecia o demónio gritando no temporal, o rosto encharcado pelos salpicos das vagas:
— Eh, rapazes, agora quem manda sou eu! Agarrem o velho! Não o deixem mexer-se! E tu, Inácio, encarrega-te de deitar a santa ao mar! Talvez com menos peso à ré, o barco endireite a proa.
O rapaz interpelado olhou o comandante, que esbracejava agarrado por outro marinheiro. Hesitou. Mas o imediato gritou-lhe colérico:
— Vamos! Porque esperas? É uma ordem!
Inácio avançou para a imagem de Nossa Senhora. Gritando, já rouco, o velho comandante sentenciou:
— O castigo do Céu cairá sobre todos vós, desgraçados!
Gastão vociferou:
— Velho beato! Pois não vês que é para teu e nosso bem?
E voltando-se para o marinheiro:
— Então? Quando acabas com isso?
— Vai já, pronto! Vou dar aos peixes a santinha! Que lhes faça bom proveito!
Nesse momento exacto, algo se passou de pavoroso. Ao atirar a imagem pela borda fora, Inácio desequilibrou-se, envolvido por uma vaga maior, e desapareceu no redemoinho das ondas com o seu precioso fardo. Mas logo outra onda ainda maior varreu o convés, fazendo inclinar o barco tão violentamente, que este em breve metia água. A tripulação que estava no convés sumira-se nas vagas. Dir-se-ia o fim do mundo, no choque tremendo dos elementos em fúria.
A essa mesma hora, em casa e defronte de uma imagem da Senhora da Conceição, a jovem filha do comandante, que pressentira o tremendo temporal, implorava, chorando:
— Senhora da Conceição, minha madrinha e protectora! Salvai o meu pai! Por tudo Vos peço! Se necessário for, ofereço-Vos a minha vida em troca da vida de meu pai e da salvação do Gastão, para que ele se arrependa, e creia em Vós e em Deus! Ele é bom! Apenas não foi criado no ensinamento de Deus! Salvai-os, Senhora, mesmo em troca da minha vida!
No mar continuava a tragédia. De súbito, porém, pela Vontade Divina, surgiu à superfície das ondas, agora menos revoltas, a imagem de Nossa Senhora da Conceição. E essa imagem arrastava consigo dois corpos desfalecidos: o do velho comandante e o do seu imediato. Vogava ao sabor das ondas, de segundo a segundo mais calmas. E a tempestade amainou. E a imagem de Nossa Senhora, arrastando os dois corpos desfalecidos, foi dar às Matas, entre Samora Correia e Alcochete.
Quando o povo teve conhecimento de tamanho prodígio, logo ali acorreu. Já reanimados, o comandante e o imediato do navio naufragado olhavam em volta, perplexos. Por fim, o velho homem do mar exclamou:
— Só nós dois nos salvámos! E foi graças a Nossa Senhora! Operou-se um milagre! Gastão, acreditas agora?
Perturbado, mal crendo na realidade, Gastão apontou a imagem:
— Olhe, meu comandante! Olhe bem para o rosto da santa!... Tem as feições da jovem Conceição!
O comandante olhou a imagem da Virgem Santíssima. Os seus olhos abriram-se num espanto. Era verdade. As feições de sua filha estavam marcadas no rosto da Mãe de Deus!
A nova correu célere. Procuraram a jovem em casa. Mas encontraram-na morta, sorrindo como quem parte, contente, para uma grande viagem! De facto, Conceição partira, porque oferecera a sua vida em troca da salvação do pai e daquele por quem o seu coração batia em segredo.
Os populares transmitiam de boca em boca o que acabara de acontecer. Levaram em procissão a imagem da Virgem, a quem já chamavam Nossa Senhora da Conceição da Popa, para a igreja matriz de S. João Baptista, em Alcochete.
No meio dessa multidão de fiéis que se juntavam de todos os pontos das imediações, caminhava um homem absorto, como sonâmbulo. Era Gastão, convertido, amargurado, desejando apenas penitenciar-se. Quem o via julgá-lo-ía orando. Mas quem mais se aproximasse ouvi-lo-ia exclamar.
— O rosto de Nossa Senhora é o rosto da Conceição! O rosto da Conceição! Acredito! Acredito no milagre! O rosto de Nossa Senhora é o rosto da Conceição!...

Padre João Rodrigues III

Joao Rodriguez

(GIRAM, GIRAO, GIRON, ROIZ).

Missionary and author, b. at Alcochete in the Diocese of Lisbon in 1558; d. in Japan in 1633. He entered the Society of Jesus on 16 December, 1576, and in 1583 began his missionary labours in Japan. His work was facilitated by his winning the esteem of the Emperor Taicosama. He studied the Japanese language ardently, and is particularly known for his efforts to make it accessible to the Western nations. His Japanese grammar ranks among the important linguistic productions of the Jesuit missionaries. Published at Nagasaki in 1604 under the title "Arte da lingoa de Japam", it appeared in 1624 in an abridged form at Macao: "Arte breve da lingoa japoa"; from the manuscript of this abridgement preserved in the National Library in Paris, the Asiatic Society prepared a French edition of the work: "Elements de la grammaire japonaise par le P. Rodriguez" (Paris, 1825). Rodriguez compiled also a Japanese-Portuguese dictionary (Nagasaki, 1603), later adapted to the French by Pagès (Paris, 1862).


RÉMUSAT, in Nouv. Melanges asiat., I (Paris, 1829), 354-57; GANSEN, in Buchberger=1Cs Handlexikon, s. v.

N.A. WEBER Transcribed by Thomas M. Barrett

13 maio 2008

Futebolistas

Algumas memorias e fotos de futebolistas alcochetanos.
Crisanto
(ao serviço do Felgueiras)
Era defesa e jogou em clubes como Felgueiras, Académica, Montijo e Vitória de Setubal. Representou as Selecções Jovens
Barrinha
(no Guimarães)
Iniciou-se no Alcochetense, e na 1ª divisão jogou em 73/74 no Belenenses, em 74/75 e 75/76 no U. Tomar, em 79/80 no Leiria, de 80/81 a 83/84 no Guimarães, e 84/85 e 85/86 no Vitória de Setubal.

Bolota

(no Montijo)

Jogou em muitos clubes onde se incluem Juventude de Evora, Montijo, União de Tomar, tendo rumado ao Canadá onde terá acabado a carreira.

Ernesto Barrigana
(no Espinho)
Sobrinho do famoso Barrigana do FC Porto, jogou no Boavista, Leixões, Espinho.
Estevão Mansidão
(no Sporting Braga)
Representou o Belenenses e o Sporting de Braga. Conquistou uma Taça de Portugal.
Alcançou uma internacionalização. Fez o seu único jogo pela selecção nacional a 8 de Junho de 1967, contra a Noruega, em Oslo (vitória por 2-1).
João Manuel
(no Barreirense)
Iniciou-se no clube da terra em 1973-74 com 16 anos,aí permanecendo até se transferir para o vizinho Montijo. Em 1981-82 e 82-83 é a vez do Barreirense,para regressar ao Montijo para mais dois anos,83-84 e 84-85. Em seguida ruma para o Algarve para representar o Farense em 85-86 e 86-87. Novo regresso ao Barreirense para mais duas épocas ,as de 87-8 e 88-89. Em 89-90,novo regresso desta vez para o Montijo, acabando a carreira no Alcochetense.
Loia
(no Barreirense)
Depois do Alcochetense,transferiu-se em 1977-78 com 23 anos para o Barreirense,onde se manteve um par de épocas.Em 1979-80 e ano seguinte,Montijo.Continuando com os pares,regresso ao Barreirense para mais duas épocas,1981-82 e seguinte.Aos 29 anos,o regresso ao Montijo onde se manteve sté 1988-89 com 34 anos. É actualmente o treinador principal do GD Alcochetense.
Para ajudar a completar esta lista, basta enviar um mail (ou utilizando a caixa de comentários)

03 dezembro 2007

Memorias Paroquiais

Alcochete, 2 de Julho de 1758

Memorias Paroquiais da Freguesia de S. João Baptista.

Diccionario Geographico de Portugal, Vol. 2






Pag. 53 (Terceiro paragrafo)

(…) Tem esta Villa de Alcochete hum Convento Franciscano Recoletto sugeyto a Província dos Algarues, o qual está hum quarto de legoa distante desta Villa o seu Padroeyro he o Excelentícimo Conde de Sam Vicente; he tradiçam que antigamente fora neste Convento Freguezia Com o titollo de Nossa Senhora de Sebonha e hoje Nossa Senhora do Socorro, e Como os moradores desta Villa padeciam jncomodo pella Freguezia lhe ficar distante para a frequencia dos Sacramentos fizeram Petiçam a Sua Magestade para que lhe ouvece nesta villa de mandar fazer Freguezia, ao qual Requerimento Sua Magestade deferio,






Pág. 54


Cuja Petissam se vio no Cartório da Camara desta Villa, esta freguezia de Nossa Senhora de Sebonha he tambem Freguezia da Villa de Aldegalega que entam seria pequena povoaÇam mas hoje se tem feyto grande por ser aquelle porto do mar Carreyra para toda s Provincia do Alentejo e Reynos estrageyros, mostrace que as Coymas que entam se deytavam naquelle lugar ou villa se aplicavam para a fabrica desta jgreja de Alcochete e o Senhor Rey Dom Manuel no foral que deu a esta Villa as fez separar, e que nam viecem mais as Coymas da Villa de Aldegalega para esta igreja de Alcochete, mas sem que as Coymas daquella Villa focem para a sua mesma Freguezia; dizem que fora dada esta Igreja de Nossa Senhora de Sebonha pella Raynha Dona Leonor Molher do Senhor Dom Joam o Segundo ao Religiosos Recoletos para seu Convento, e neste Se acha hum grande santuario de areliquias de santos as quais deu a mesma Reynha; e entre todas a mais jnestimavel Joya he hum Santo Lenho que na grandeza bem mostra ser dadiva de hum atam grande Raynha, que toda

Pag. 55

Se empenhou a enriquecer aquelle Convento de Alfayas tam preciosas; que eternas se perpetuaram nam so na Lembraça daquella Religiam serafica, mas tambem a todas as pessoas que vam aquelle Convemto olhando para o Santuario Com aquella profunda veneraçam com que a nossa fé as fas Respeitar; neste Convento se acha ahinda hoje a pia Batismal de quando foy freguesia.
Tem esta Villa hum hospetal o qual he administrado pella Santa Caza da Mizericordia, mas he hum hospital sem renda alguma e nam he Crivel que o seu primeiro instituidor fizece este hospital e lhe nam detriminace rendas para a cura dos pobres enfermos, e asim hoje so serue para Alvergue de pobres andantes.
Tem esta Villa de Alcochete Caza de Mizericordia mas nam se sabe quem foy jinstuydor, o que sey he que senhor Rey Dom Manoel a jnRiqueceo de Regalias suposto que estes previlegios todos





Pag. 56


Estam reduzidos a cinzas, nam sey se por negligencia dos que a governavam porque estando todos estes privilegios em hum almario na mesma Santa Caza da Mizericordia neste lhe choveo de sorte que a muita agoa lhe fes apodrecer todos os papeis que naquelle almario estavam que se tiraram em cisco, sem que o zello dos que entam governavam os obrigace a tirar papeis de tanta jmportancia, os quais heram testemunhas autenticas de tantas jzençoins e Regalias,e credito daquella Santa Caza. Tera de Renda duzentos e sincoenta mil reis pouco mais ou menos, e ja teve quatrosentos mas foy em tempo em que o sal tinha mayór valor, há esta jgreja huma jmagem de nosso senhor Jezus christo muito milagrosa, esta jgreja está cituada a borda do mar, he serto que os antigos lhe faltou o zello por deycharem perder papeis de tantas Regalias e talves escrituras da mesma Santa Caza e que por falta de clarezas andem muitos bens daquella santa Caza alienados della e nam menos culpa encorrem os que de prezente seruem


Pag. 57


Pois deycham hir o mar apoderando-ce desta Jgreja, e faltaram so Ja so duas vasas de terra aLem da mesma muralha que athe ahi estava feyta, está Ja bastatemente aRuynada do Combate das hondas, e Comendo o mesmo mar esta pequena distancea de terra entrara com os aLicerces e paredes da mesma Jgreja, que Com poucas tormentas a mesma Igreja se verá inteyramente aRuynada, e despois virá este templo a ser despojo das ondas, o que athe aly hera de caza de comtemplaçam sendo cauza deste Lamentavel damno os Procuradores e todos os mais que governam esta Santa Caza, quando tem a obrigaçam de mandar continuar a muralha por diante ao Mestre que tomou esta obra de empreytada e quando este desprezace os avizos por nam haver dinheiro na Santa Caza para continuar a obra, darem parte a Sua Magestade para que acudice com a sua grandeza em lhe concinar por outros tantos annos a mesma renda que antecedentemente para a mesma obra Ja lhe tinha concinado, antes que se vice esta Jgreja posta por terra.



Pag. 58 (Fim do primeiro paragrafo)

Com o Regurozo Combate das ondas, e primitira Deos que estas verdades que aqui estou narando fizecem tal eco nos ouvidos da magestade, que por seruiço de Deos mandace logo continuar esta obra, que so sendo asim he que este templo se vera livre do perigo procimo em que esta de ser aRazada.
Fontes: Torre do Tombo

16 novembro 2007

Augusto Emilio Zaluar

Nasceu em Lisboa a 14 de Fevereiro de 1826, faleceu no Rio de Janeiro em Abril de 1882.
Era filho do José Dias de Oliveira Zaluar, major graduado, que servira de comissário pagador da divisão dos Voluntários Reais de El-Rei, na campanha do Rio da Prata, antes da independência do Brasil. Augusto Zaluar, achando-se habilitado com todos os preparativos necessários para os cursos de instrução superior, matriculou-se no 1.º ano da Escola Médico-cirúrgica de Lisboa, disposto a seguir esses estudos, mas o seu talento era especialmente literário, e as ciências pouco o atraíam. Depois de se ter deixado arrastar pela paixão revolucionaria, e de se ter alistado nas tropas populares que fizeram a revolução de 1844, sob as ordens da Junta do Porto, resolveu se a abandonar o estudo da medicina e dedicar-se exclusivamente ás letras. Colaborou em diversos jornais de Lisboa, o na Epocha, Jardim das damas, Revista popular e outras publicações daquele tempo, se encontram poesias suas. Em 1816 publicou um folheto intitulado Poesias, primeira parte. Vendo que nas letras não encontrava os meios de subsistência que esperava, decidiu ir para o Brasil, e para ali partiu em 1849, chegando ao Rio de Janeiro a 3 de Janeiro de 1850. Tratou então do viver dos seus trabalhos literários e jornalísticos, conseguindo alcançar grande popularidade, sendo a sua colaboração muito requestada por todos os jornais. Fez parte algum tempo da redacção do Correio Mercantil e do Diario do Rio de Janeiro; em Petrópolis foi redactor principal de Parahiba, e em Santos da Civilisação. Compôs e traduziu várias peças dramáticas para os teatros, mas 6 anos depois, em 1856, naturalizou-se cidadão brasileiro. Nunca mais voltou a Portugal. Publicou alguns dos seus trabalhos, sobre questões económicas e administrativas do Brasil, e outras literárias.


O poema que vos deixo abaixo, tem uma particularidade... Foi escrito em Alcochete em 1846.
Fontes. Google Books; Arqnet

14 novembro 2007

Local de descanso







Alcochete era local de descanso de reis. Os seus “bons ares” eram muitas vezes a razão principal para o restabelecimento da saúde do soberano.



Na “Historia de Geral de Portugal e suas conquistas” de Damião António de Lemos Faria e Castro, podemos verificar que também a D. João I foi sugerido um descanso em Alcochete.
Esta obra data de 1787.


Clique para ampliar
Fontes: Google Books

Alcaxete







Parece ser do conhecimento comum que Alcochete deriva do Árabe "Alcaxete" que significa fornos, e cuja origem se pensa dever a grandes fornos para cozer barro que aqui existiram.

Frei João de Sousa publicou em 1789 “Vestigios da lingua arabica em Portugal ou Lexicon ethymologico de palavras e nomes portuguezes que teem origem arabica, composto por ordem da Academia Real de Lisboa”. Esta obra saiu muito mais tarde, em 2.ª edição, no ano de 1830, com adições e correcções de um grande artista português Frei João de Santo António Moura. Esta obra deu-lhe uma reputação europeia e ao mesmo tempo copiava na Torre do Tombo os documentos arábicos que existem ali, e publicava 58 com a tradução ao lado do texto original escrito em caracteres arábicos.




Na página 107 desta obra podemos então encontrar o seguinte:




Clique na imagem para a visualizar

Fontes: Arqnet ; Google Books; BN Digital

05 novembro 2007

Um testemunho





LEMBRO-ME MUITO MAL DA AVÓ ANA
por Maria do Rosário de Fátima de Almeida Lima Quintella

"Tinha dois anos quando ela morreu.
O Pai e a Mãe transmitiram-me uma imagem de alguém que congregava as pessoas à sua volta. Aparece-me como um ponto centrifugador, com certeza que pela atenção e amor que dispensava
aos outros! Em todos os retratos, que o meu Pai (Joaquim Pedro d'Orey Quintella) lhe tirou, a Avó tem uma atitude activa: tem um bebé ao colo, ou mostra livros aos netos ou faz tricot, também para algum concerteza! Devia ser uma boa companheira, porque muitas sobrinhas a adoravam, assim como os irmãos, e muitas vezes passava épocas em casa deles. Os meus pais, que se casaram no mesmo dia que a tia Helena (Maria Helena Oom de Almeida Lima) e o tio Manuel (Manuel Eduardo d'Orey Quintella), dois irmãos com duas irmãs, viveram os primeiros anos de casados na Quinta do Carmo. Fixaram-se depois em Alcochete. Tinha sido formada a S.A.E.S.- Sociedade Agrícola Exploradora de Sal, SARL, hoje SA e o Pai ficara seu administrador. Em Alcochete, a 1ª casa para onde foram morar foi para a casa da marinha dos Pinheirinhos, uma casa muito gira mas completamente sozinha, no meio dos muitos lagos que constituem uma marinha, e cujo único ruído era o piar das aves aquáticas. Hoje os Pinheirinhos fazem parte do Museu do Sal, avistam-se da ponte Vasco da Gama, ainda com a barra azul como outras casinhas de marinha, era a característica da"casa"(1) pela sua tendência monárquica. Na sua época áurea, a S.A.E.S compunha-se de 17 marinhas, cobriam uma área bastante grande que me é difícil calcular. A maior, com uma grande diferença das outras, tinha 400 ha. Cada marinha tinha um marnoteiro e dois criados de marinha, mais os empregados e caseiros das quintas e os feitores seriam uns 57 empregados efectivos. O trabalho nas marinhas era sazonal, começava em Maio e acabava em Outubro, se não chovesse antes. Além da limpeza da marinha, o seu trabalho consistia na rapação do sal, que empregaria uns 150 assalariados à semana e no carrego do sal, que era à jorna, e que consistia em carregar o sal numa canastra à cabeça para os muros das marinhas ou para as fragatas, pois era por este meio que se fazia o seu transporte. O Pai, com muito jeito para a fotografia, encarregou-se de fotografar alguns aspectos desta actividade, os quais apresento alguns exemplares. Foram depois viver para a casa da Vila, hoje casa do Aposento e do Café Barrete Verde. Depois viveram em Vale Figueira. Foi aí que eu apareci! Fui muito renitente em vir a este mundo! Durante sete anos os meus pais marcharam para Fátima no dia 13de Maio! No oitavo ano não conseguiram ir no dia 13. Foram no dia 14! Nasci a 14 de Fevereiro! A avó Ana, já doente, estava atenta aos problemas dos filhos. Nesse 13 de Maio, estando a ouvir, com a minha Mãe a transmissão de Fátima, virou-se para a Mãe e disse:
- Já rezei por vocês e pelo vosso assunto. Com muita convicção e por todas as suas vidas, me consideraram uma graça de Nossa Senhora, daí o nome que tenho. Nasceram depois três manos, o Reguim (Joaquim Pedro de Almeida Lima Quintella), a Mariazinha (Maria Clotilde de Almeida Lima Quintella) e o Paulo (José Paulo de Almeida Lima Quintella). A viver em Alcochete, sem filhos, a Mãe dedicou-se profundamente à Igreja. Reorganizou a catequese, que não havia desde a implantação da República. Daí o Padre Cruz lhe ter ficado imensamente grato. Ainda guardamos os papelinhos que Ele escrevia à Mãe a preparar primeiras comunhões ea agradecer. Também o Pai lhe servia de “chaufeur” para visitar as prisões, preocupação PRIMEIRA deste Senhor. Depois de nascer o meu irmão Reguim já fomos viver para Vale de Mouros, propriedade que ainda temos. Simultaneamente, o tio Xavico (Francisco Xavier d'Orey Quintella), que também tinha vindo para Alcochete, instalava-se em Valbom. Era o pós guerra, as nossas deslocações eram sempre em carros de cavalos. Nessa quinta havia um picadeiro. A "casa" tinha uma criação de cavalos e muitos de nós montávamos.
Para cá chegar era uma viagem comprida e às vezes complicada com marezadas, daí as nossa visitas, nesse tempos, virem para ficar.. Passavam connosco, dias e às vezes meses. Lembro-me que a tia Luisa Quitella, desde Vale Figueira, vinha passar um verão muito prolongado connosco. Os seus últimos 7 anos foram passados em nossa casa e cá morreu. Amigas da Mãe passavam cá semanas!
Os últimos anos de solteira da Isabelinha (prima do lado Quintella) cá foram passados.
Estou a escrever em Alcochete, para onde venho bastante com o meu irmão Reguim. A minha irmã Mariazinha, que Deus já chamou a si, VIVIA imenso esta vida de Alcochete. Adorava festejar os anos com caldeiradas, feitas pelo João Abílio, e vinha muita gente!
Normalmente era domingo e a festa começava com a missa das 11 e meia. Era muito animado.
Sempre que venho para Alcochete, no caminho, sinto-me a voltar à casa mãe! "

(1)"casa" designação que os Alcochetanos
usavam em relação a tudo que era da

Fonte: Revista D´Orey

Foto: CLoia In http://www.olhares.com/CLoia


S.A.E.S

11 outubro 2007

Barrigana




"De há quarenta anos para cá, com entusiasmo, fervor e admiração, vi jogar quase todos os grandes guarda-redes portugueses, do inesquecível Azevedo, "Hércules do Barreiro", a José Pereira, o "Pássaro Azul". Vi o gigantesco Ernesto, do Atlético, o terror dos extremos, vi Abraão, do Olhanense, vi Cesário, do Sporting de Braga, na tarde de glória, no pelado do Benfica, em que defendeu todos os remates de Palmeiro, Arsénio, Águas e Rogério, vi Capela, da Académica, e Sebastião, o loiro Nero do Estoril Praia, célebres pelos seus voos acrobáticos, vi o fantástico Aníbal, de poupa trabalhada a brilhantina, vi o caprichoso Carlos Gomes pontapear fotógrafos antes de se transferir para Espanha e de ameaçar o presidente do clube, quando não lhe pagavam, com a irónica frase 'no hay dinero no hay portero', acompanhei o Vital, do Lusitano de Évora, que sulcava a relva com o calcanhar pensativo da bota, para marcar o centro da baliza. E todavia, para meu desgosto e frustração, nunca assistiu a nenhum jogo do meu ídolo Frederico Barrigana, o 'Mãos de Ferro', keeper do FC Porto. No intuito de compensar tal desdita, recortava, embevecido, do jornal, os instantâneos que o mostravam a saltar com um avançado, apertando-lhe contra as partes o joelho dissuasor (porquê partes se não inteiras?), a fim de esfriar os ímpetos assassinos do adversário; admirava-lhe a calvície e o boné que a cobria numa exactidão de cápsula; coleccionava-lhe as entrevistas e escutava, boquiaberto, na telefonia do meu pai, de dedos em concha na orelha, os relatos de Artur Agostinho, que, aos domingos, às 3 da tarde, narrava em tom épico, as proezas do grande Frederico Barrigana num estádio a rebentar de público. Aos 12 anos, se eu não desejasse, com tanta paixão, tornar-me escritor, quereria ter sido o "Mãos de Ferro". Mas, claro, possuía o sentido das limitações suficiente para compreender que não se pode querer ser o grande Frederico Barrigana: é-se, por dom divino, perfeito como ele só, desde o início."

António Lobo Antunes




Frederico Barrigana fez-se jogador de futebol no Unidos do Montijo, perto da terra que o viu nascer, Alcochete. No início de 1943 o Sporting avançou para a sua contratação, mas a baliza leonina, nessa altura, era propriedade exclusiva de João Azevedo, um ‘monstro sagrado’ das redes. Por isso, nunca chegou a debutar de leão ao peito.Ainda nesse ano, um acontecimento de cariz político, com remoques cinematográficos, marcou a vida de Barrigana. Conta-se assim: O guarda-redes do FC Porto, Bela Andrasik, húngaro de nascimento, desapareceu misteriosamente. Veio a saber-se depois que era um espião antinazi e que fugira do país com medo que tal se descobrisse pela polícia secreta no país de Salazar. Com a baliza vazia, os dirigentes do FC Porto pediram encarecidamente ajuda ao Sporting, que emprestou Barrigana. Chegado ao Porto, o guarda-redes pode finalmente provar o seu valor. Pegou de estaca e já não regressou ao Sporting.
Durante 12 anos mostrou qualidades invulgares na baliza portista (também na Selecção), com destaque para a segurança com que saía de entre os postes.
PERFIL
Frederico Barrigana nasceu em Alcochete em 28 de Abril de 1922. Começou a jogar no Unidos do Montijo, ingressou no Sporting aos 21 anos e uma época mais tarde mudou-se para o FC Porto, onde defendeu a baliza dos dragões durante 12 épocas, sem contudo ter ganho campeonatos. Na parte final da carreira, após sair do FC Porto, jogou três anos no Salgueiros. Foi internacional em 12 ocasiões, com estreia num Espanha-Portugal.

Faleceu em 29 de Setembro de 2007.
Fontes: Correio da Manhã, Zero Zero, O Record

28 setembro 2007

Olho Azul

Na primeira metade do sec. XX, a região de Alcochete foi assolada por um homem que até aos dias de hoje é falado pelos mais velhos e que apenas dão o nome de “Olho Azul”. Este nome estava associado aos mais diversos crimes e era temido pela comunidade. Contudo, nada de escrito existe e apenas sobrevive a lenda. Quem era “Olho Azul”?

Aqui espero ajuda de quem conhece esta lenda.

25 setembro 2007

Peste Negra




"Peste negra é a designação por que ficou conhecida, durante a Idade Média, a peste bubónica, pandemia que assolou a Europa durante o século XIV e dizimou em torno de 25 a 75 milhões de pessoas, pois alguns pesquisadores acreditam que o número mais próximo da realidade é de 75 milhões de pessoas, um terço da população da época. A doença é causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao ser humano através das pulgas dos ratos-pretos (Rattus rattus) ou outros roedores.
Em Portugal a peste entrou no Outono de 1348. Matou entre um terço e metade da população, segundo as estimativas mais credíveis, e entretanto reduziu a nação ao caos. Foram inclusivamente convocadas as Cortes em 1352 para restaurar a ordem.
Um dos efeitos indirectos da peste em Portugal seria a revolução após o reinado de D. Fernando (Crise de 1383-1385). Este interregno, mais que uma guerra civil pela escolha de novo rei, terá antes sido a luta da nova classe de pequena nobreza e burguesia que subira a escada social aproveitando as oportunidades após os desequilíbrios sociais provocados pela peste, contra o "antigo regime" desacreditado, a enfraquecida e esclerótica alta nobreza que presidira à catástrofe e cujos titulares, nascidos e criados nos anos da doença, não terão adquirido as capacidades necessárias à governação eficaz. De facto esta elite da alta nobreza, clero e Casa Real, terá respondido à substancial perda de rendimentos e aumento de custos de mão de obra devido à peste com maior autoritarismo e tirania. Assim se explica a tendência desta frágil alta nobreza de se aliar com a sua também atacada congénere castelhana.
A peste, que nunca antes existira na Península Ibérica, voltou a Portugal várias vezes até ao fim do século XVII, ou seja sempre que nasciam suficientes novos hóspedes não imunes. Nenhuma foi nem remotamente tão devastadora como a primeira, mas a Grande Peste de Lisboa em 1569 terá matado 600 pessoas por dia, ao todo 60 000 habitantes da cidade terão sucumbido. A última grande epidemia foi em 1650. No entanto, no seguimento da Terceira Pandemia a peste foi importada para o Porto em 1899 do Oriente (provavelmente de Macau onde grassou desde 1895 até ao fim do século). A epidemia do Porto foi estudada por Ricardo Jorge, que instituiu as medidas de Saúde Pública necessárias, e que a conseguiram limitar."

Quando em 1527 mais uma epidemia assolava a capital e novo surto despontou em Castela em 1533, D.João III ordenou a colocação de um guarda em Alcochete. A este disposto régio, a vereação da Câmara Municipal decidiu nomear um guarda-mor de modo a proteger a povoação e a 21 de Julho de 1569, decidiu proibir que todos os barqueiros que viessem de Lisboa que aportassem ou entrassem na vila sem que antes tivesse decorrido dez dias e de serem examinados por um médico.






"acordo sobre as barcas que vão a llisboa que não
venham ao porto desta villa senão a pomta da estada

E lloguo na dita vereacão pellos ditos oficiaes e mais pesoas da guouernamca da villa que forão chamadas per campa tãogida de perguão dado pello porteyro do comcelho que todo o barqueyro que llevar llenha e toio a cidade de llisboa que não venha desembarcar ao porto desta villa nem amarem as barcas ao porto desta villa e se uão desembarcar a pomta da estrada e lla amarem as ditas barcas ao pinheyro que seia da quintam e marynha de Jam de bryto pera alem E quamto as da pomta da estada sera da pomta da estada pera demtro pello assim declara amtonio fernamdez barqueyro que ally se podiam estar mjlhor E quamto aos barqueyros que nas ditas barcas andarem assim aRazes como parseiros que não entrem nesta villa senão amdamdo dez dias sem Jrem a llisboa E sem embargo diso não emtrarão sem llisemsa do senhor garda moor E sem parecer do Lisemceado E fizico desta villa E jsto compena de dous mjll rees E vimte dias da cadea a metade pera quem o acuzar E a outra metade pera as guardas E allcaide desta villa E declarão que sem embargo do aRiba dito que todo o barqueyro que a llisboa ouuer de Jr quer com barca caregada quer vazia não va sem llisemsa E escryto do dito guarda mor quall sera visto per Jam bernalldez a emtrada E quamdo o senhor guarda moor não estiuer na tera será de Jam bernalldez E o dia achegar a cada hum destes portos estarão em degredo seis dias E Jmdo nestes ditos seis dias cada hum delles a llisboa tornarão a tirar outro escryto e Jso sob as mesmas penas asima ditas E quamto a barca de careyra semdo caso que seia nesesaryo Jr (…) llisboa (…) om va sem se fazerem os Jizames nesesaryos E se forem com o dito Jzame sera quimta feyra E Jsto sob a mesma pena E assim declarão mais aos ditos aRazes que toda a barca que vier com trygo do taroall venha ao porto desta villa sob as mesmas penas asima declaradas E eu manoell pereyra que espreuy E amtrelinhey a llisboa o que fiz por verdade."

Fontes: Wikipedia, "Monografia do Concelho de Alcochete"

20 setembro 2007

Agiologio Lusitano



Seguindo a recomendação do Padre Carlos Russo, fui em busca do “Agiologio Lusitano” de Jorge Cardoso, perseguindo pistas de modo a revelar a vida de alcochetanos ao longo da História. Apesar de ser um extensa obra, composta por cinco volumes com aproximadamente oitocentas páginas cada, aqui e ali aparecem pedaços de vidas de homens e mulheres que dedicaram a sua existência em prol da Igreja e alguns nascidos em Alcochete.


O Agiologio Lusitano de Jorge Cardoso é um dos grandes monumentos da cultura portuguesa do século XVII. Elaborado com o intuito confessado de inventariar todas as “vidas” de santos, beatos, veneráveis, “varões” e mulheres “ilustres em virtude” de “Portugal e suas conquistas” que o tempo ia deixando “sepultadas no esquecimento”, este Agiologio apresentou-se também como uma obra que pretendia elogiar os “santos da Pátria” para que os portugueses tivessem a quem imitar e os “Pátria de Santos”, ou seja para que os portugueses tivessem a quem imitar e os “estrangeiros” vissem – em que datas muito significativas... – que Portugal era uma “Pátria de santos”, ou seja para que a “santidade” fosse também um signo identificador da “Pátria”. Apesar de esta obra ter ficado incompleta – só foi parcialmente continuada no século XVIII por D. António Caetano de Sousa – do imenso trabalho do seu autor resultou, com se pretende mostrar neste estudo, uma obra de consulta imprescindível para o estudo não só do fenómeno da santidade em Portugal até ao século XVII, mas também múltiplas outras facetas da vida religiosa, social e até política desses tempos.



Maria de Lurdes Correia Fernandes, História, santidade e identidade. O Agiologio Lusitano de Jorge Cardoso e o seu contexto.pág. 25


Aqui fica um exemplo do que podemos encontrar nesta obra:






Para aumentar clique na imagem

03 setembro 2007

GDA na Taça





Após o ultimo jogo disputado pelo GDA na Taça de Portugal, resolvi efectuar uma busca sobre o historial do clube pela Net. Numa tabela acumulada até à época de 2002 – 2003 o GDA ocupava 160ª posição (entre 625 clubes) com 35 jogos realizados, 11 vitórias, 4 empates e 20 derrotas.
Esta lista foi retirada de vários sites da Internet e por falta de informação anterior a 1974 optei por apenas colocar os jogos realizados entre 1974 até 2008 e as respectivas fases de apuramento.
Se por algum motivo quiser rectificar algum erro, ou completar esta lista, a caixa de comentários está disponível.

Taça de Portugal 1974-75
Fase: 1/128
GD Alcochetense - SL Olivais 1-2


Taça de Portugal 1975-76
Fase: 1/128
GD Alcochetense - Vasco Gama AC 1-1 / 2-3 (Jogo de Desempate)

Taça de Portugal 1976-77
Fase: 1/128
CD Nacional Madeira - GD Alcochetense 1-0

Taça de Portugal 1977-78
Fase: 1/128
GD Alcochetense - CD Montijo 0-3

Taça de Portugal 1978-79
Fase: 1/128
SL Olivais - GD Alcochetense 0-1
Fase: 1/64
GD Alcochetense - Sporting CP 0-2

Taça de Portugal 1979-80
Fase: 1/128
GD Alcochetense - SC Farense 0-5
Taça de Portugal 1980-81
Fase: 1/128
GD Alcochetense - CF União Madeira 1-4

Taça de Portugal 1988-89
Fase: 1/128
SG Sacavenense - GD Alcochetense 2-1

Taça de Portugal 1993-94
Fase: 1/256
CA Aldenovense - GD Alcochetense 2-5
Fase: 1/128
GD Alcochetense - CA Macedo Cavaleiros 1-0

Fase: 1/64
GD Alcochetense - AD Ovarense 0-4

Taça de Portugal 1997-98
Fase: 1/256
GD Alcochetense - CD Ribeira Brava 5-3

Fase: 1/128
GD Alcochetense - GUS Montemor 0-1

Taça de Portugal 1998-99
Fase: 1/256
GD Alcochetense - GD Samora Correia 3-2

Fase: 1/128
Seixal FC - GD Alcochetense 6-1

Taça de Portugal 2000-01
Fase: 1/256
GD Alcochetense - Vasco Gama AC 1-1 / 1-2 ( Jogo de desempate)

Taça de Portugal 2001-02
Fase: 1/256
CD Portossantense - GD Alcochetense 2-1
Taça de Portugal 2002-03
Fase: 1/256
GD Alcochetense - SG Sacavenense 3-1

Fase: 1/128
GD Alcochetense - BC Ribeirinha 3-1
Fase: 1/64
GD Alcochetense - USC Paredes 1-2

Taça de Portugal 2005/06
Fase 1/256
GD Alcochetense – Amora 3-1

Fase 1/128
GD Alcochetense – U. Micaelense 1-2

Taça de Portugal 2006/07
Fase 1/256
Oeiras - GD Alcochetense 2-0

Taça de Portugal 2007/08
Fase 1/256
GD Alcochetense – Ferreiras 2-1


27 julho 2007

Património VI - Nucleo Antigo Alcochete



Descrição

Núcleo de origem medieval organizado em torno da Praça Pública (actual Largo da República), local onde se localizavam os Paços do Concelho e o Pelourinho. Do largo de planta quadrangular partem artérias no sentido NO, E., SE. e SO. A expansão quinhentista e seiscentista da vila encontra-se associada ao traçado da Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) e a alguns solares na envolvente do núcleo antigo, cujas cercas vão marcar o traçado das ruas. A Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) ocupava a frente ribeirinha NO., unindo o Largo da Misericórdia ao Largo Miguel Bombarda (actual Largo António dos Santos Jorge) e ligando-se à Praça Pública (actual Largo da República) através da Rua do Paço e da Rua do Talho. A expansão oitocentista realizou-se para NO., na zona denominada Barrocas do Mar, onde, após o aterro da área entre os dois promontórios, foi construído o Bairro das Barrocas, com traçado regular composto por sequência de quarteirões estreitos e paralelos, perpendiculares à frente ribeirinha e à Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira). A expansão realizou-se também, paralelamente ao rio, no sentido SO., pela Rua João Gonçalves, Rua e Largo do Troino, ao longo do Rossio (actual Largo Barão de Samora Correia) e da Rua da Praia (actual Avenida D. Manuel I), e prolongando a área edificada até ao Largo Marquês de Soydos onde se localiza o Solar da Quinta da Praia das Fontes . A fase de expansão novecentista caracterizou-se pela justaposição de uma área com traçado ortogonal para N. e E.-NE. do Largo de S. João e da envolvente da Igreja Matriz limitada pelo Largo da Feira. O traçado do núcleo antigo estruturou-se em torno da Praça Pública (actual Largo da República) a partir da qual saem os eixos de ligação: ao Terreiro de S. João (actual largo de S. João) e à Igreja Matriz para E.; à Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) para N.; e ao Rossio (actual Largo Barão de Samora Correia) para SO. Envolvia o núcleo antigo, no sentido SO.-NE., um eixo que partia do Largo Coronel Ramos da Costa, pela Rua João de Deus, Largo D. Luís Pereira Coutinho (actual Largo da Revolução), até ao Terreiro de S. João, (actual Largo de S. João). A partir do séc. 19, estruturou-se um novo eixo de circulação, a partir do Largo da Misericórdia rodeando o Bairro das Barrocas, passando pela R. do Norte, Largo da Cova da Moura e Largo Moysém (actual Av. dos Combatentes da Grande Guerra). Os largos, elementos polarizadores da malha urbana da vila de Alcochete, encontram-se associados à presença de solares. Como espaço fundacional, a Praça Pública (actual Largo da República), de forma quadrangular, constituía o centro do núcleo, onde se localizavam os Paços do Concelho e o Pelourinho e onde actualmente existe um solar setecentista, cujo proprietário original é desconhecido. Afastados do centro, o Terreiro de S. João (actual Largo de S. João) e o Largo da Misericórdia, marcam os limites quinhentistas. O Largo de S. João, de forma trapezoidal, ocupa o espaço fronteiro à Igreja Matriz ; aqui se localizavam o antigo Solar dos Pereiras (actual edifício dos Paços do Concelho) e o desaparecido Solar dos Condes de Unhão Teles de Menezes. Na frente ribeirinha, o Largo da Misericórdia, de forma poligonal, é delimitado pela Igreja da Misericórdia de Alcochete e pelo Solar dos Netos. O Largo Miguel Bombarda (actual Largo António dos Santos Jorge), de forma poligonal, resulta da intercepção da Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) com o solar quinhentista dos Monizes Lusignano (actual edifício da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898) e o Bairro das Barrocas, construído no aterro realizado durante o século 19 entre os dois promontórios, afastando a frente ribeirinha que definia o lado N. da Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira). O Largo do Troino, de forma triangular, resulta da expansão do centro urbano para SO. - limitada a SE. pelo solar provavelmente quinhentista onde se encontra instalada a Biblioteca Municipal - no sentido do Largo Barão de Samora Correia, o antigo Rossio, onde, no séc 19, a construção do solar de João Ferreira Prego, 1º Barão de Samora Correia (actualmente Asilo Barão de Samora Correia), iniciou a ocupação deste espaço como frente urbana. O actual Largo Marquês de Soydos, de forma triangular, resultou da doação do terreno fronteiro à Quinta da Praia das Fontes que o 5º marquês de Soydos fez ao município, com a condição de aí ser criado um passeio público. Os largos João da Horta, de forma poligonal, e Coronel Ramos da Costa, de forma triangular, constituem uma unidade espacial, limitada a SE., no seguimento da Rua João de Deus o no sentido do eixo do núcleo antigo que conduzia a Aldeia Galega (actual Montijo). Aqui se localizam o solar da família Ramos da Costa e da família António da Cruz. O Largo D. Miguel Pereira Coutinho (actual Largo da Revolução), de forma triangular, resulta da confluência da Rua João de Deus, onde se localiza o solar da família Dias da Cruz, com a Rua António Maria Cardoso e o Terreiro de S. João (actual Largo de S. João). Os largos Almirante Gago Coutinho, onde se encontra a Igreja Matriz ; da Feira, no limite E.; e o Largo da Cova da Moura, no Bairro das Barrocas, resultam da expansão urbana novecentista, não estando associados à preexistência de solares. O tecido parcelar é predominantemente composto por lotes de configuração irregular, nas áreas de origem medieval, quinhentista e seiscentista, e por lotes de forma quadrangular nos períodos de expansão oitocentista e novecentista. O Bairro das Barrocas é caracterizado por lotes quadrangulares, alguns dos quais actualmente emparcelados. Os quarteirões a E./NE. da Igreja Matriz apresentam forma quadrangular, integrando nos seus logradouros pátios. O espaço edificado é envolvido pela presença polarizadora da arquitectura religiosa: a Igreja Matriz a E.; Igreja da Misericórdia a NO; e a Capela de Nossa Senhora da Vida a N. A arquitectura é na sua maioria residencial, com adaptações comerciais e de serviços. A volumetria varia entre um e quatro pisos, predominando as casas com um e dois pisos. Nas áreas de expansão oitocentista e novecentista (Bairro das Barrocas, Rua do Rato, actual Av. 5 de Outubro, Rua João Gonçalves, Rua Beato Manuel Rodrigues, Rua do Norte), assinalam-se lotes habitacionais de casas térreas em banda. O armazém constitui outro tipo com alguma representatividade, definido por construção térrea, de planta predominantemente rectangular, com telhado de duas águas e empena na fachada voltada para a rua. Destaca-se a presença de casas que apresentam a empena na fachada principal. Os tipos dominantes referem-se à casa térrea e à casa com dois pisos. De entre estas, salienta-se o revestimento azulejar de algumas fachadas, a decoração das platibandas, com balaustradas e peças cerâmicas (estátuas, jarrões, pinhas) e a guarnição das janelas de sacada com varandins, em ferro forjado e fundido, também aplicado nas bandeiras e postigos das portas: Casa dos Bustos ; Casa Moysém; Vivenda Matilde . As casas com dois ou mais pisos conjugam frequentemente a utilização comercial do piso térreo com a habitacional dos pisos superiores. O solar constitui um tipo caracterizado pela conjugação da casa com dois pisos e o pátio, armazém e estábulo, destacando-se pela sua volumetria, implantação, ritmo e decoração dos vãos: Casa no Largo do Troino (Biblioteca Municipal), antigo Solar dos Patos (actual Centro Paroquial Padre Cruz) , antigo Solar dos Netos , Solar dos Monizes Lusignano (actual edifício da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898), Antigo Solar dos Pereiras (actual edifício dos Paços do Concelho), Solar dos Soydos (actual Quinta da Praia das Fontes). O conjunto integra duas áreas verdes públicas: o antigo Passeio Público, constituído pelo Rossio (actual Largo Barão de Samora Correia) e uma área de 14500m2, doada ao município em 1875 por D. António Luís Pereira Coutinho, para construção de um passeio público (actual Largo Marquês de Soydos); e outra, no Largo Almirante Gago Coutinho, do lado N. da Igreja Matriz (1956).

Descrição Complementar


A estatuária está representada de forma significativa: busto do Padre Cruz, erigido em 1953, localizado no Largo de S. João, actualmente no Centro Paroquial de Alcochete, de autor desconhecido; estátua do Padre Cruz, no Largo de S. João, inaugurada em 1969, da autoria de Luís Valdêz Castelo Branco; estátua do rei D. Manuel I, no largo Marquês de Soydos, inaugurada em 1970, da autoria de Vasco Pereira da Conceição; busto de Carlos Ferreira Prego, 3º Barão de Samora Correia, no largo com o mesmo nome, erigido em 1957, de autor desconhecido; escultura de homenagem ao Forcado, no Largo João da Horta, erigida em 1989, da autoria de Sérgio Stichini; estátua do Salineiro, na Praça da República, implantada em 1985, da autoria de Francisco Simões. Quanto ao mobiliário urbano, destaca-se o Coreto integrado no jardim lateral à Igreja matriz, inaugurado em 1956.


Época Construção
Séc. 13 / 15 / 16 / 19 / 20


Cronologia


1224 - D. Sancho II doou a póvoa de Alcochete à Ordem de Santiago;
1249 - criação, no termo de Alhos Vedros, da paróquia de Nossa Senhora da Sabonha, que incluía as póvoas de Aldeia Galega e Alcochete;
séculos 14 / 15- Vasco Gil Moniz mandou edificar o solar dos Monizes de Lusignano, actual edifício da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898; D. João I tinha um paço real em Alcochete. O infante D. João, mestre da Ordem de Santiago, concedu a Alcochete o estatuto de sede da Ordem. D. João II estabeleceu residência em Alcochete, elevando-a a vila. O infante D. Fernando estabeleceu-se em Alcochete. Construção da Igreja Matriz; 1469 - nascimento em Alcochete do futuro rei D. Manuel I; século 16 - 1515- D. Manuel I atribuiu carta de foral a Alcochete - A nobreza instala-se em Alcochete construindo aqui os seus solares; desta época datam o Solar dos Netos, reconstruído sobre fundações do século 15, o antigo Solar dos Patos (actual Centro Paroquial de Alcochete), o Solar dos Pereiras (actual edifício dos Paços do Concelho), o desaparecido Solar dos Condes de Unhão Teles de Menezes, o solar onde se encontra instalada a Biblioteca Municipal; 1547 - D. Sebastião concede aos oficiais que trabalhavam nos estaleiros de construção naval em Alcochete direitos iguais aos que trabalhavam na Ribeira das Naus; 1563 - edificação da Igreja da Misericórdia; 1577 - Afonso Figueiredo mandou edificar a Ermida do Espírito Santo; século 17- realizou-se a primeira grande campanha de obras na Igreja Matriz. Fernão Patto Correia mandou construir a Casa dos Pattos (Solar dos Soydos); século 18 - Jacôme Ratton estabeleceu-se na Barroca D'Alva, promovendo o desenvolvimento económico da região; século 19 - construção, em madeira, de ponte-cais de apoio ao transporte fluvial de bens e pessoas entre Alcochete e Lisboa; construção do Bairro Novo, no aterro da zona denominada Barrocas do Mar; - construção do Bairro Moisém 1875; - D. António Luís Pereira Coutinho doou à Câmara Municipal uma área de 14000m2, destinada a Passeio Público; 1837 - João Ferreira Prego, 1º Barão de Samora Correia, mandou construir um solar, em terrenos adquiridos à Câmara Municipal; 1866 - inauguração da Escola Primária Conde de Ferreira; 1895 - o concelho de Alcochete é anexado ao de Aldeia Galega (Montijo), por decreto de 26 de Setembro; 1898 - restauração do município, por decreto de 15 de Janeiro; século 20 - construção da ponte-cais em betão



Tipologia

Núcleo urbano ribeirinho, organizado a partir de póvoa régia medieval, definido por sequência de quarteirões mais ou menos irregulares em torno da Praça Pública e afastado da Igreja Matriz, localizada a E., no Terreiro de S. João. Expansão paralela à margem do rio, em parte já derivada da implantação, nos séculos 15 / 16, da Ermida do Espírito Santo e da Igreja Misericórdia. O traçado da Rua Direita, tangencial ao núcleo fundacional, com orientação O.-E., liga o Largo da Misericórdia ao Terreiro de S. João. Enquanto elementos polarizadores, os solares encontram-se associados a largos e definem o traçado de eixos secundários. A expansão urbana da vila, que ocorre durante o século 19, ultrapassa os antigos limites no sentido NE.-SO., ao longo da Rua da Praia, com construção de armazéns, e do Rossio, com habitações. Para N., a expansão fez-se com a construção do Bairro das Barrocas, constituído por uma estrutura de arruamentos, paralelos entre si e perpendiculares à frente ribeirinha. Nesta época, a transferência dos Paços do Concelho da Praça Pública para o Terreiro de S. João criou um novo centro da vila, a partir do qual se desenvolveu a expansão do século 20. O crescimento urbano verificado a partir da primeira década do século 20, obedecendo a uma estrutura viária ortogonal, desenvolve-se a N. do Terreiro de S. João e na envolvente da Igreja Matriz, caracterizada por casas de dois pisos, nas quais se destaca a profusa decoração novecentista de algumas fachadas e casas térreas. Fortes afinidades tipológicas com outros núcleos antigos da margem S. do estuário do Tejo, tais como o Seixal e o Barreiro.


Dados Técnicos

Paredes autoportantes, em adobe, alvenaria de pedra, alvenaria mista, alvenaria de tijolo; reboco de cal e areia, reboco de cimento; pontual revestimento azulejar das fachadas; janelas de duas folhas; pavimentos calcetado com pedra calcária e empedrado

Materiais


Pedra: calcário conquífero. Terra. Cerâmica: tijolo, telha de meia cana, de aba e canudo, telha marselha. Ferro forjado, ferro fundido.

Observações


A delimitação proposta nesta ficha para o Núcleo Antigo de Alcochete inclui a delimitação de núcleo antigo definida no Plano Director Municipal (PDM), acrescentando todos os quarteirões a E. e NE. da Igreja Matriz, completando também a frente da Av. 5 de Outubro. A delimitação do PDM data dos anos 90 do séc. 20, e materializa uma proposta de centro histórico elaborada nos anos 80, no Plano Geral de Urbanização da vila, que não chegou a ser aprovado. Não obstante, a população de Alcochete, apesar de conhecer bem os limites da "vila antiga" e da "vila moderna", associa a expressão "centro histórico" não à delimitação actual, mas à zona das igrejas Matriz e da Misericórdia e ao Bairro das Barrocas, chegando, muitas vezes, a afirmar ser este bairro oitocentista a zona mais antiga da vila, mostrando uma representação espacial claramente distinta dos limites elaborados pelos técnicos. A origem árabe do topónimo "Alcoxete" parece comprovada, sendo o plural da palavra "Alcocha", que significa "forno" e que é atestada pela referência à existência na região de fornos de cerâmica e de cal, em virtude da abundância de combustível lenhoso. No entanto, a tradição oral e escrita da fundação árabe do povoado, carece de dados que a comprovem. Festividades locais: o Círio dos Marítimos ao santuário de Nossa Senhora da Atalaia realiza-se na Páscoa; esta celebração, com origem conjectural no século 16, está associada às classes profissionais ligadas à construção naval, pesca e transporte fluvial, actividades com tradição histórica em Alcochete. Procissão da Nossa Senhora da Vida em Agosto: festa dedicada a Nossa Senhora da Vida, que tem a sua origem no século 17, por iniciativa da irmandade de Nossa Senhora da Vida, reorganizada por Nuno Álvares Pereira Velho de Morais, tendo como centro a Capela de Nossa Senhora da Vida, antiga Ermida do Espírito Santo. Na procissão, que tem lugar em Agosto, durante as festas do Barrete Verde e das Salinas, a imagem de Nossa Senhora da Vida chega pelo rio, transportada numa embarcação tradicional. Festas do Barrete Verde e das Salinas, realizadas desde 1944, ocorrem durante a segunda semana do mês de Agosto: festa de carácter regionalista, invoca as figuras do forcado, do campino e do salineiro, através de decorações alusivas, que enfeitam as ruas da vila. As largadas de toiros nas ruas da vila são a principal atracção. Feriado municipal: 24 de Junho, dedicado a S. João Baptista; em Alcochete, região marcadamente rural, as festividades prolongavam-se por três dias, durante os quais, a par da componente cristã, aconteciam manifestações populares de origem pagã, como, por exemplo, o acender de fogueiras nos largos da vila, nas noites de arraial.

Autor e Data
Filipa Ramalhete / Francisco Silva 2003