27 abril 2007

Padre João Rodrigues



Em muitas pesquisas, procurando por Alcochete, um nome esbarrava constantemente no meu ecran. João Rodrigues, padre e missionário jesuita no Oriente. Esta minha pesquisa alongou-se quando em muita bibliografia, este nome teimava aparecer, juntando-o a Alcochete. Não raros foram os casos, em que autores, em primeiro lugar colocavam Alcochete como local de nascimento e depois suscitavam a dúvida em parêntesis com outra possível localidade, Sernancelhe.

No livro “Portuenses Ilustres” de Sampaio Bruno, escrito em 1906, o autor refere essa duvida, mas coloca Alcochete em primazia. Já em outros livros, como no “Memorias de Literatura Portugueza” da “Academia Real das Sciencias”, publicado 1856 na sua pagina 143 e “Macau e sua Diocese” escrito por Manuel Teixeira e publicado em 1979 na sua página 258, relacionam o Padre João Rodrigues e o seu nascimento com Alcochete. Em toda a minha pesquisa, apenas num livro é referido concretamente uma “confusão com outro missionário do Japão com mesmo nome nascido em 1558” em Alcochete. Este livro, o “Anais” da “Academia Portuguesa de Historia” de 1946 é que tende a desvanecer a questão, mas realmente entre 1558 e 1561 existiram dois jesuítas missionários portugueses com o mesmo nome em terra do Sol Nascente e um deles definitivamente era alcochetano.




No site da Câmara Municipal de Sernancelhe existem largas referências ao Padre João Rodrigues e à sua obra, bem como a informação que foi imortalizado, dando o seu nome a ruas e escolas.
Deixo então a biografia oficial, presente no referido site.


Padre João Rodrigues nasceu em Sernancelhe em 1560 ou 1561. Com apenas 14 anos saiu de Portugal em direcção à Índia. Em 1580 chegou ao Japão por intermédio da Companhia de Jesus. Ao serviço da Companhia dedicou-se ao ensino da gramática e do latim. Alguns anos mais tarde concluía os estudos em Teologia em Nagasaki. Foi a Macau para ser ordenado sacerdote e, tendo regressado ao Japão, tornou-se intérprete, servindo como agente intermediário nas compras feitas às naus estrangeiras. Conhecido como comerciante, diplomata e político, Padre João Rodrigues acabaria expulso do Japão no ano de 1610. Regressado a Macau, iniciou uma série de investigações com vista ao conhecimento das origens das comunidades cristãs ali estabelecidas desde o século XIII. Considerado um clássico para o conhecimento do Japão, Pe. João Rodrigues foi o autor da primeira gramática da língua japonesa e escreveu a “História da Igreja no Japão”. Apontado como um vulto da cultura universal, faleceu em Macau em 1633.


Do Alcochetano Padre João Rodrigues existiu uma sombra de 450 anos, que agora teve um momento de luz.



Fontes: Camara Municipal de Senancelhe e Google Books

Dr. Manuel Simões Arrôs






No blogue "Praia dos Moinhos", tomei conhecimento do falecimento do Dr. Arrôs.
Considerando este homem como um marco na nossa comunidade, presto-lhe também a minha homenagem, transcrevendo o texto elaborado pelo Sr. Fonseca Bastos e colocado no seu blogue.


"Em memória do Dr. Simões Arrôs"

"Só agora tendo tomado conhecimento do falecimento do Dr. Manuel Simões Arrôs, ocorrido no passado dia 9, aos 96 anos, e lamentando, profundamente, que o passamento dessa invulgar personalidade alcochetana seja resumido em 11 linhas no jornal da terra (?), por imperativo de consciência reproduzo aqui, com as necessárias actualizações, o que acerca dele escrevi, em 2003, no defunto «Tágides».

Durante meio século tratou da saúde à maioria dos pais e avós de famílias tradicionais de Alcochete: camponeses, funcionários públicos, salineiros, operários, forcados e marujos.

Só os mais antigos residentes conheciam o Dr. Manuel Simões Arrôs, que desempenhou todos os cargos clínicos do concelho durante cerca de meio século: delegado e subdelegado de saúde, médico camarário, da Misericórdia, da "Caixa", de três secas de bacalhau e, no final da carreira, também em três fábricas.

Levado na onda pelo sogro, ajudou a fundar o Aposento do Barrete Verde, em 1944. Oito anos depois seria até presidente da Direcção.Era uma das memórias vivas de Alcochete, desde 1943, preciosamente refrescada pela da esposa, campeã em datas.


A juventude


A 6 de Dezembro de 1910 nascia o primeiro médico da "Caixa" que houve em Samouco e Alcochete. Veio ao mundo e cresceu entre lutas operárias, em Braço de Prata (Lisboa).
Acaba por se formar na Faculdade de Medicina do Porto, em 17 de Outubro de 1941, obtendo a primeira colocação na vila alentejana de Ourique poucos dias depois.
Chega a Alcochete em 31 de Março de 1943, admitido por concurso público como "médico camarário" para a freguesia de Samouco, onde se desloca, de bicicleta, duas vezes por semana ou sempre que há casos urgentes.

Médico do povo e da Misericórdia

A 2 de Maio de 1944 é nomeado médico da Casa do Povo de Alcochete e, em 1951, o então director e médico residente do Hospital de Alcochete (situado à época na ala esquerda do actual edifício da Santa Casa da Misericórdia) era o Dr. José Grillo Evangelista - muito conceituado na vila e cujo nome seria perpetuado, anos depois, numa artéria da urbanização dos Barris.
Esse clínico desentende-se com a mesa da instituição e resolve sair, sendo substituído nas funções de médico e director pelo jovem Simões Arrôs.
O hospital cresce em importância e, em 1957, virá a ser criado um centro de assistência aos tuberculosos. O médico Simões Arrôs incumbe-se dele, a partir de 1 de Julho desse ano. Tais serviços serão extintos a 31 de Julho de 1978.

Médico dos primeiros operários fabris

Em 1958 é inaugurada a fábrica de pneus Firestone, que angaria localmente a maioria dos quadros médios e dos trabalhadores menos qualificados. O Dr. Simões Arrôs é o primeiro médico dessa empresa, da qual vem a ser afastado, em meados da década de 70, em circunstâncias nebulosas e por influência de um padre. Entretanto, em 1959, chegavam também as fábricas de secagem e de preparação de bacalhau da Terra Nova. Primeiro instala-se a Bacalhau de Portugal, a seguir a Pescal e, por fim, a Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau (SNAB).
O Dr. Simões Arrôs será médico em todas, vindo a ser afastado da Pescal e da SNAB, no princípio da década de 70, quando, numa reunião da União Nacional (partido único do regime), um capataz da empresa diz a amigos que o "chefe do reviralho em Alcochete" é Simões Arrôs. Presente, o "patrão" almirante Henrique Tenreiro manda despedir o clínico.

Ficará só na Bacalhau de Portugal até a empresa se extinguir, porque o seu responsável era também assistido por ele e sempre se recusou a aceitar a exigência de afastamento feita por Tenreiro.Na senda da industrialização, em 1963 e 1965, respectivamente, abrem também as as fábricas de alumínio (Português-Angola, já encerrada) e de latoaria Ormis (hoje a multinacional Crown, Cork & Seal), nas quais o Dr. Simões Arrôs exercerá também funções.
Nesta esteve até ao princípio da década de 90, tendo sido a sua última ocupação profissional.


Médico da Previdência

Em 1961, quando o Dr. Grillo Evangelista se reforma, o colega Simões Arrôs substitui-o como subdelegado de saúde no concelho. A 1 de Julho de 1972 será também nomeado delegado de saúde.Entretanto, a 1 de Julho de 1962 era contratado pela Caixa de Previdência de Setúbal para a Casa do Povo de Alcochete (a primeira existiu no n.º 7 da Rua do Amaral, no edifício onde hoje está a sede social do Grupo Desportivo Alcochetense). A assistência médica torna as instalações acanhadas e a Casa do Povo transitará então para a Rua do Chão do Conde.Em 1963 é inaugurado o posto n.º 16 (Alcochete) da Caixa de Previdência, de que vem a ser o primeiro director, seguindo-se, a 1 de Julho de 1966, o cargo de médico do posto n.º 5 da Previdência (no Montijo). A 1 de Janeiro de 1974 virá a ser também nomeado médico-chefe deste posto.
Em Março de 1968, a mesa da Misericórdia decide que as tarefas de enfermagem ficam a cargo de uma irmandade religiosa, gerando-se um litígio com a enfermeira-chefe da época, o qual levará, em 1 de Abril, à demissão colectiva da equipa médica e da enfermeira (esposa do Dr. Simões Arrôs, com a qual viria a casar, em segundas núpcias, em 1973).
A 6 de Dezembro de 1980 cessa funções como médico municipal e delegado de saúde, por ter atingido o limite de idade (70 anos).
A 1 de Setembro de 1982 sai também da Caixa de Previdência por estar à beira dos 72 anos de idade.


Histórias de "João Semana"

De meados da década de 40 o Dr. Simões Arrôs recordava-se (em 2003) do caso de um doente com tuberculose, que medicou com várias embalagens de estreptomicina, na época uma droga de preço elevado e fora do alcance de gente pobre.
A comparticipação pública na aquisição de medicamentos era então somente concedida a beneficiários, o que não era o caso desse paciente, pelo que os familiares teriam de pagar integralmente as embalagens necessárias.
Como essa família era muito pobre, o clínico Simões Arrôs decide emitir as receitas em nome do beneficiário, de modo a evitar despesas insuportáveis.
Mas Alcochete era uma aldeia, em que toda a gente se conhecia e revia quase diariamente, e, dias depois, o tesoureiro da Casa do Povo pergunta ao clínico qual a razão porque emitira receitas em nome de um paciente gozando de boa saúde, pois estivera com ele. Semanas depois a Casa do Povo queixa-se do Dr. Simões Arrôs aos serviços centrais da Previdência, que enviam um inspector para tirar o caso a limpo.
Este manda chamar todas as pessoas a quem o clínico passara receitas "suspeitas" e elas confirmam terem sido emitidas a seu favor. Logo, o clínico não estava a desviar medicamentos em proveito pessoal, como constaria de uma denúncia que o dava como homem rico.
Não podendo pegar-lhe por aí, o inspector dá ao caso contornos políticos. E avisa o Dr. Simões Arrôs de que, embora nada de reprovável fosse detectado, possivelmente seria demitido por ter fama de ser "comunista" - coisa que, na época e na terra, era comum ser apontado a algumas pessoas influentes.
Em meados da década de 40 tal "acusação" equivalia a ser despedido do Estado. Pior ainda no seu caso porque, anos antes, quando frequentava a faculdade de medicina, batera com as costas nas tarimbas do Aljube, da Penitenciária e da sede da PIDE.
Em 2003 confessava-me que nunca foi comunista, embora lidasse com a miséria do povo e detestasse o Estado Novo. E se alguma influência a propaganda marxista teve nos seus ideais de vida, quando viaja à URSS, em 1972, tudo se desmorona ao descobrir pedintes nas ruas e miséria como a de Alcochete.

A fundação do Aposento do Barrete Verde

A participação do Dr. Simões Arrôs na fundação do Aposento do Barrete Verde, em 1944 - cerca de um ano após assentar arraiais no concelho - faz-se por influência de seu sogro, Virgílio Jorge Saraiva, amante da festa brava e ligado à organização das festas anuais desde o seu início, em 1942.
O Aposento nasce num almoço organizado por António Luís Regatão, farmacêutico e então proprietário da Farmácia Gameiro, repasto para o qual Dr. Simões Arrôs é convidado pelo sogro.
Em 2003, com 91 anos e uma visão desapaixonada da política recente e do desenvolvimento da vila, era ainda indiscutível referência do concelho.
Todos os anos, no seu aniversário natalício, recebia inúmeras homenagens de gratidão.
Em lugar de destaque guardava cerâmicas e salvas dedicadas por forcados, bombeiros, colectividades artísticas e desportivas e pelos Centros de Saúde de Montijo e Alcochete.
Ao longo da vida foi ainda presidente das direcções do Aposento do Barrete Verde (em 1952) e dos Bombeiros Voluntários de Alcochete, bem como presidente da Assembleia Geral da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898. Tratou (e ainda tratava em 2003, esporadicamente) de forcados e jogadores de futebol do Alcochetense, do Vulcanense e do Grupo Desportivo do Passil.


Principais homenagens






Em 14 de Fevereiro de 1981, almoço de homenagem organizado por dois amigos, no qual participaram cerca de 300 pessoas, tendo então recebido a medalha de mérito da Câmara Municipal de Alcochete.
Em Setembro de 1982 foi também homenageado pela vila de Alhos Vedros, onde durante muitos anos presidiu às juntas médicas que determinavam as reformas antecipadas de trabalhadores.
A 25 do mesmo mês, homenagem dos trabalhadores do posto médico do Montijo, que lhe ofereceram um relógio em ouro.
A 10 de Junho de 1991, homenagem do Governador Civil de Setúbal, que lhe entrega a medalha de mérito do distrito.
A 10 de Fevereiro de 2001, almoço de homenagem promovido pelo Aposento do Barrete Verde, que dá o seu nome a uma das salas da sede. Associa-se a Câmara Municipal de Alcochete, cuja edilidade lhe outorga a medalha dourada de mérito (o mais alto galardão do município). O almoço teve tal afluência que as inscrições tiveram de ser encerradas uma semana após o seu anúncio, por se ter esgotado a lotação da sala.
Em 2006 o município de Alcochete concedeu-lhe nova distinção honorífica.

Embora algo tenha escrito sobre o assunto e muito mais debatido com responsáveis autárquicos, nunca consegui que, em vida, o Dr. Manuel Simões Arrôs recebesse a honra que mais ansiava: ter o seu nome perpetuado numa artéria da vila.Continuo a considerar que todas as honrarias e os gestos de gratidão devem exprimir-se durante a vida das pessoas. Infelizmente, continua a ser norma que apenas os defuntos têm direito a emprestar o nome a uma rua. Não conheço lei que a tal obrigue, nem nunca ninguém me deu uma explicação aceitável.Simões Arrôs merecia tê-lo na rua do Centro de Saúde de Alcochete, a que, há anos, deram o nome do capitão Salgueiro Maia."


Transcrito de: "Praia dos Moinhos"
Fotos cedidas por Fonseca Bastos

23 abril 2007

Procissão Fluvial




No passado dia 15 de Abril, recebi o seguinte mail que passo a transcrever:

"CARO SENHOR
VI O CIRIO DOS MARITIMOS DE ALCOCHETE NO SEU BLOG;
DAR-ME-IA GRANDE GOSTO SE PUDESSEMOS ENCONTRAR-NOS NAS MINHAS IDAS À PÁTRIA PARA FALARMOS DA SENHORA DA ATALAIA E ENTREGAR-LHE UM CD ROM COM A HISTÓRIA DE 1887 E ALGUMAS IMAGENS, UMAS ANTIGAS OUTRAS DA PROCISSÃO QUE REINICIÁMOS HÁ DOIS ANOS.
ESPERO, PELO MENOS, ENCONTRÁ-LO COM OS QUE FOREM DE ALCOCHETE NA PROCISSÃO PELO TEJO QUE ESTE ANO SERÁ A SEGUNDA DO SÉCULO XXI DEPOIS DE QUASE UM SÉCULO DE INTERRUPÇÃO; NOS DIAS 2 E 3 DE JUNHO A PARTIR DO CAIS DA MOITA. ESPERAMOS QUE AS EMBARCAÇÕES DE ALCOCHETE ESTEJAM PRESENTES PARA LEVAREM QUEM QUEIRA IR.

OS MELHORES CUMPRIMENTOS

F. CARVALHO RODRIGUES"




Além de passar informação sobre esta procissão, estou grato pela visita ao meu blog e mostro o meu interesse sobre a informação histórica que tem para divulgar. Mediante o meu tempo disponivel, irei por tudo tentar estar presente.

Alcochetano

04 abril 2007

Cirio dos Maritimos

Os círios dos marítimos chamavam-se outrora "círios dos marítimos casados e solteiros de Alcochete", resultando de uma profunda fé em Nossa Senhora da Atalaia, padroeira dos marítimos alcochetanos. A origem do actual círio é desconhecida e pode remontar a épocas bastante recuadas, eventualmente coevas, embora haja documentação que aparenta comprovar a sua existência no ano de 1502. Mas subsistem algumas dúvidas na datação, impossíveis de esclarecer até ao momento.
Note-se que por marítimos não se entendia os pescadores mas gente ligada à produção e condução de barcos, o que incluía calafates, carpinteiros, serventes, marujos e outros tripulantes. Ultimamente, porém, quase só os pescadores assumem a responsabilidade da realização da festa, porque a maioria das tradicionais profissões navais extinguiu-se, tendo desaparecido também os arrais e as embarcações típicas do Tejo. Luís Marques considera também que o círio dos marítimos é uma das mais arcaicas e raras manifestações profanas. Numa obra posterior – intitulada «Círio dos Marítimos de Alcochete» – Mário Balseiro Dias descreve uma lenda, segundo a qual, "em época remota, um barco navegava no rio Tejo e uma tempestade surpreendeu-o. Aflito, um dos barqueiros prometeu a Nossa Senhora da Atalaia que, caso se salvasse com os companheiros, organizaria uma confraria para festejá-la anualmente. Como o tempo amainou e puderam alcançar terra a salvo, desde então os marítimos alcochetanos têm cumprido a promessa". O mesmo autor refere que, segundo um documento de 1512, já então existia a Confraria dos Barqueiros de Alcochete.

O círio realiza-se anualmente, durante quatro dias, sempre na Páscoa, tendo uma cruz do festeiro (do séc. XIX e em prata), um guião de seda lavrada e actualmente cerca de uma centena de bandeiras (de cetim e bordadas, pintadas ou estampadas).Constitui a mais antiga tradição conhecida na vila de Alcochete e é uma espécie de ritual para a população da borda d'água (durante séculos caracterizada por marítimos ligados a actividades dependentes do rio). É da tradição que, no período do círio, os romeiros (hoje cerca de um milhar) almocem e jantem em conjunto, com refeições preparadas e confeccionadas sob a responsabilidade do festeiro. A logística dos repastos não é fácil, bastando referir que, normalmente, consomem-se 5 bovinos, 250 quilos de bacalhau, 500 quilos de peixe e mais de uma tonelada de batatas.

Ser festeiro no círio simboliza poder e riqueza, por lhe caber a organização da dispendiosa festa. Antigamente era festeiro quem invocava ter feito uma promessa, ou apresentasse outra justificação aceitável, obtendo prestígio indirecto através dos filhos. No desfile da tarde de domingo as mulheres montam em burros, sentando-se de lado e sempre com as pernas voltadas para o lado direito, devendo os animais ser alindados com flores campestres e lençóis brancos decorados por rendas. As solteiras envergam fatos novos e seguem à frente, as casadas atrás. A última mulher do desfile é a esposa do festeiro. Ao casal cabe convidar senhoras solteiras e casadas que integrarão o cortejo. É o popularmente conhecido "cortejo dos burros".
As mulheres são, assim, o elemento social em evidência neste rito secular alcochetano. Luís Marques assinala no livro atrás citado que, ao exporem-se e ao passearem-se pela vila, afirmam o seu controlo na sociedade. As casadas representam a autoridade e as solteiras anunciam a continuidade. O homem tem papel secundário, tanto mais respeitado quanto a esposa ou a filha se evidenciem no cortejo, pelo que é posto cuidado especial na indumentária e no arranjo e decoração do burro que as transporta.

Na segunda-feira, por volta das 09h00, junto à Igreja Matriz de Alcochete, inicia-se a romaria a pé à Atalaia. Em 2002 foram cerca de duas centenas as pessoas que percorreram os 6km de distância. À chegada à Atalaia os romeiros dirigem-se à igreja, onde assistem à missa, seguindo-se o almoço e a procissão (à frente da qual vai o filho do festeiro, ladeado pela juíza e o juiz. Incorporam-se o guião do círio e a imagem de Nossa Senhora da Atalaia, escutando-se em fundo o rufar do tambor do "Chininá"). Antes da missa os romeiros entregam ao festeiro as bandeiras arrematadas no ano anterior, pagando o valor da arrematação e recebendo em troca um símbolo (a medalha) que colocam no peito. No período da manhã são também entregues as fogaças a leiloar. As bandeiras novas serão benzidas durante a missa e posteriormente entregues ao festeiro, a fim de integrarem o leilão da tarde. As bandeiras e as medalhas identificam o círio e o seu valor define uma hierarquia no funcionamento da festa. As bandeiras contêm, normalmente, uma representação da Senhora da Atalaia, a identificação da localidade, do ofertante e por vezes também a data e a graça obtida. As medalhas são de três tamanhos (as maiores e mais valiosas apenas exibidas pelo filho do festeiro, juíza e juiz), sendo feitas pela esposa do festeiro com cartão, tecido, papel de alumínio e missangas. Constituem, normalmente, representações de motivos náuticos (barcos sobretudo). De notar que as "fogaças", um bolo típico de Alcochete, são os doces pães desta festa popular. Cada ofertante leva sete fogaças para o leilão realizado à porta da igreja da Atalaia, uma por cada dia da semana e pesando individualmente um quilograma, augurando abundância e afastando infortúnios. As fogaças podem ou não constituir o pagamento de uma promessa.Com esse ritual cumprem-se votos antigos e o arrematante compromete-se a trazer outras tantas fogaças ao leilão do ano seguinte.Comer as fogaças oferecidas ao círio, segundo relatos antigos, torna a pessoa e a colectividade a que pertence indemnes à peste e às pragas. O leilão das bandeiras principia pela mais valiosa, o guião. Os arrematantes ficam na posse das bandeiras durante um ano e o guião é guardado pelo festeiro. No final da tarde de segunda-feira, após o regresso do círio a Alcochete, organiza-se novo desfile do círio no circuito tradicional na zona histórica da vila, montando novamente as senhoras os burros. Os novos arrematantes vão atrás, num ruidoso cortejo automóvel, exibindo as bandeiras que guardarão durante um ano. Os ex-detentores de bandeiras prendem uma medalha ao peito. Na noite desse dia, na Casa do Círio, em Alcochete, realiza-se um beberete oferecido pela juíza, pelo juiz e pelo festeiro do ano seguinte. Na terça-feira há novo almoço na Casa do Círio, seguindo-se, ao final da tarde, o desfile na zona histórica de Alcochete de inúmeros pares de jovens, à frente dos quais seguem o filho do festeiro, a juíza e o juiz, ostentando os seus distintivos. A festa termina com um derradeiro e muito aguardado jantar, novamente na Casa do Círio. Há 35 anos fazia-se a festa com 12 contos, actualmente chega a custar 9.000. O financiamento das despesas resulta apenas da arrematação das bandeiras e das fogaças, à porta da igreja da Atalaia, paga somente no ano seguinte. Assim se preserva a tradição secular do Círio dos Marítimos de Alcochete, que descrevemos apenas sucintamente, cuja continuidade nem sempre tem sido fácil. Respeitar e compreender esta romagem e o seu significado profundo na vida local é o que se pede aos alcochetanos de hoje e do futuro.

19 março 2007

Lendas & Calendas




Lendas & Calendas – Parte II

Na conclusão da história começada no episódio anterior, embrenhamo-nos na tremenda tempestade do mar alto, onde o pai de Conceição não é sorvido por um triz. Salvou-o da morte certa a imagem que a filha Conceição mandara colocar na popa do navio.

Para ouvir clique no link abaixo

Alcochete Parte II


Fonte: TSF

12 março 2007

Lendas & Calendas





No programa da TSF “Lendas & Calendas”, Alcochete foi focado e conta a lenda da Conceição e de seu pai.

”Coisa rara nas lendas, a história deste episódio, dividida em duas partes, vem feita de personagens que devem ter existido mesmo. O centro de acção é de uma jovem casadoira de Alcochete que, por amor ao pai, se recusa a casar... apesar de não lhe faltarem pretendentes.”

Para ouvir, clique no link abaixo


Alcochete Parte 1

Fico à espera da parte segunda, domingo pelas 12h 45m.

Fonte: TSF

05 março 2007

Património VI - Capela de N. Srª. da Conceição dos Matos



Época Construção
Séc. XVI
Cronologia
Séc. XVI - Segundo a tradição, foi dependência do palácio que a família do navegador Tristão da Cunha possuía, que o neto do primeiro dono teria reedificado; mais tarde teria sido vendido e depois demolido.
1568 - Adquirida a posse do chão da ermida.
Séc. XVI, 2ª metade - edificação conjectural, em terrenos aforados pela Confraria São João Baptista de Alcochete.
séc. XVI/ XVII - colocação dos azulejos hispano-árabes;
Séc. XVII - pinturas de brutescos da capela-mor, em 1614 Diogo de Araújo era, então, o ermitão da ermida da Senhora dos Matos.
1650 - assento da sepultura de Tristão da Cunha na ermida, constante do livro-misto da Paróquia de São Brás do Samouco;
Séc. XVII ou XVIII- uma medalha de latão com a imagem da Santa encontrada nas obras de reparação de 1997.
1743 - havia dúvidas se a ermida estaria sob a jurisdição eclesiástica da freguesia de São Brás do Samouco; no entanto, o Padre Gaspar Simões exarou que a ermida era do termo da Freguesia de São João Baptista.
Séc. XIX - entaipamento dos azulejos hispano-árabes. Em 1900 obteve-se a certeza de a ermida pertencer de direito à freguesia de São Brás.
1910 - última realização da festa de Nossa Senhora dos Matos na ermida;
1925 - obras de conservação alteraram parte da fisionomia da ermida;
1997 - acordo entre o Estado Português e a Lusoponte com vista à recuperação da área de 400 hectares com integração paisagística nas Salinas do Samouco contemplando a recuperação da Capela de Nossa Senhora da Conceição dos Matos; descoberta dos azulejos hispano-árabes.
Tipologia
Arquitectura religiosa, maneirista, vernacular. Ermida maneirista de uma nave e capela-mor, antecedida de galilé; prospecto arquitectónico singelo, de raiz vernacular, tendência para a austeridade, clareza de traços, proporção, simplicidade. Espaço unificado, alçados austeros e frios, sobriedade, despojamento decorativo, alçados cegos e exiguidade de vãos, volumes caiados e maciços.

Corografia Portugueza

António Carvalho da Costa (1650-1715) foi um astrónomo português, natural de Lisboa. Foi um sacerdote que dedicou a sua vida ao estudo da astronomia e da geografia, tendo escrito vários livros sobre o tema.

Interessou-se em compilar todas as notícias que pudesse sobre as inúmeras localidades portuguesas. Deu-as à estampa sob o nome de Corografia Portuguesa, que saiu a público entre 1706 e 1712, sendo o primeiro tomo oferecido a “El Rey D. Pedro II”, o segundo ao “Sereníssimo Rey D. Joam V” e o terceiro em que consta as descrições de Alcochete e Montijo à “Sereníssima Senhora D. Mariana de Áustria, Rainha de Portugal”.

Aqui deixo os links da referida obra onde nos capítulos VII e VIII aparecem Alcochete e a antiga “Aldeã Galega”

24 fevereiro 2007

D. João II em Alcochete

"Estando el-rey em Alcouchete yndo hum dia de casa a pee com a raynha e damas e senhores e muitos fidalgos a ver correr touros no terreyro junto da ygreja, acertou que metendo hum touro na cancella fogio do corro, e veo por a rua principal por onde el-rey hia e diante do touro vinha muyta gente fogindo com grande grita. Foy o receo tamanho nos que hiam diante d' el-rey que todos fogiram e se meteram por casas e travessas. E el-rey soo tomou a raynha pola mão e pos-se diante della com a capa no braço e a espada apunhada com muito grande segurança; esperou assi o touro que quis Deos que passou sem entender nelle. De que muytos fidalgos e outros homes ficaram muy envergonhados e elle com muita honrra; e foy sorte que se a el-rey vira fazer a outrem lhe fezera por ysso muita merce segundo estimava as cousas bem feytas. E porque Dom Jorge de Meneses seu page da lança que lhe trazia a espada nam vinha pegado com elle e ficava hum pouco atras com as damas, quando pedio a espada e o nam vio posto que lha deu muito prestes o arrepelou primeiro que a tomase."

Vida e Feitos D' El-Rey Dom João Segundo (Do que el-rey fez yndo com a raynha a ver correr touros em Alcouchete) por Garcia de Resende

29 janeiro 2007

Crónica lindíssima

Em mais uma das minhas divagações na net, encontrei um texto que mais uma vez me fez encher de orgulho. Alcochete ainda sabe receber bem.

Com as suas palmeiras gigantes à beira Tejo, o Miradouro Amália Rodrigues, homenagem da população local à grande musa do Fado, contrasta fortemente com a arquitectura rural deste canto ribeirinho da vila. Nas traseiras da Ermida da Nossa Senhora da Vida, edifício de traça maneirista fundado em 1577, as casinhas de piso térreo, com as suas fachadas caiadas de branco e rodapés pintados em azul marinho, como se vê em muitas casas rurais no Alentejo e no Ribatejo, são o modelo perfeito da arquitectura típica das povoações rurais. Por este cantinho arquitectónico, começa-se a vislumbrar a essência desta vila tão próxima de Lisboa e da grande lezíria ribatejana.
O pontão frontal à Igreja da Misericórdia e ao Museu de Arte Sacra é um local privilegiado para observar Lisboa. A vista é, simplesmente, deslumbrante: vê-se com nitidez a Ponte Vasco da Gama, o Parque das Nações e os contornos físicos da margem ribeirinha da capital. A vista, a tranquilidade, a luminosidade, e a proximidade do rio fazem deste sítio um ponto de encontro inevitável entre locais e turistas. É aqui que os habitantes locais conversam sentados ao sol, enquanto observam o rio e os turistas que contemplam com admiração a vista de Lisboa. A construção da ponte Vasco da Gama foi uma das melhores coisas que podia ter acontecido a Alcochete. Ficando a menos de meia hora da capital, a vila tornou-se um destino de fuga irresistível para os lisboetas ao fim de semana, que aqui vêm deliciar-se com a gastronomia local. Como não podia deixar de ser, a nova ponte sobre o Tejo fomentou também o desenvolvimento urbanístico. E, infelizmente, os malefícios deste crescimento urbano desordenado já são visíveis ao longo da margem ribeirinha.
A importância histórica de Alcochete está bem presente no pelourinho existente no Largo da Misericórdia, do outro lado da estrada que passa frente à Igreja da Misericórdia, agora adaptada a Museu de Arte Sacra. Foi neste edifício apalaçado, transformado em Igreja da Misericórdia no século XVI, que terá nascido o rei D. Manuel I, em 1469. E, por isso mesmo, esta estrada ribeirinha chama-se Av. D. Manuel I e conta com uma estátua deste monarca, um dos reis que mais impulsionaram a expansão dos Descobrimentos portugueses. Com uma localização estratégica entre a charneca e o Tejo, grandes fontes de fornecimento de alimentos para as populações ribeirinhas, Alcochete desempenhou outrora um papel fulcral na ocupação humana da margem sul do rio. Por este território sobranceiro ao Mar da Palha passaram suevos, vândalos, árabes, mas foi no século XV, sob a égide da dinastia de Avis, que a povoação alcançou o seu período de máximo esplendor. Os bons ares e a presença abundante de veados, javalis e lobos na charneca, que permitiam as caçadas tão apreciadas pela nobreza na época, elevaram Alcochete a “estância de repouso” da corte quinhentista. D. João I e D. João II passaram aqui longos períodos de repouso. D. Fernando, duque de Viseu e irmão de D. Afonso V, estabeleceu residência no antigo palácio de D. Brites Pereira, sobrinho de D. Nuno Álvares Pereira, que seria doado à Santa Casa da Misericórdia em 1540 e sofreria sucessivas adaptações até apresentar o aspecto actual. Foi esta presença da corte que impulsionou o desenvolvimento da povoação: entre os finais de quatrocentos e os finais de setecentos, Alcochete desenvolve-se à sombra da protecção régia, com o Foral manuelino de 1515, e do poder da nobreza rural, cujos domínios territoriais extravasavam para fora do termo da vila.
As ruas estreitas abertas em direcção ao rio conduzem a um coração urbano que prima pela surpresa. Por essas ruas, pontuadas de casas de piso térreo, fachadas coloridas, plantas à porta, e roupa, muita roupa, pendurada a secar ao sol, descobre-se uma atmosfera rural autêntica, imune aos efeitos da modernização que têm destruído tantos traços originais das pequenas povoações portuguesas. É impressionante como tão perto da capital ainda exista uma povoação com a sua atmosfera genuína preservada. As pequenas mercearias, os velhos sentados onde quer que haja sol e as brincadeiras das crianças nas ruas são sinais mais emblemáticos de uma aldeia do interior do que de uma vila a poucos minutos de Lisboa. O centro urbano concentra ainda um número apreciável de edifícios antigos, decorados com azulejos e cores fortes, e até pátios interiores, com casas de piso térreo, com fachadas caiadas de branco e rodapés pintados de azul.
Alcochete é uma terra de pescadores, salineiros e campinos. Os barcos garridos, atracados no pequeno porto diante da Igreja da Misericórdia, a estátua monumental do Salineiro, no Largo do Salineiro, e a estátua emblemática do Forcado nos cornos do touro, no Largo João da Horta, evocam um pouco da história desta vila que viveu sempre do rio e da charneca. O sal, fonte do sustento de milhares de famílias nos séculos XVII e XVIII, ainda é extraído nalgumas salinas na região, mas esta actividade está longe da pujança económica que outrora enriqueceu a povoação. Pelo contrário, a festa brava mantém-se viva como sempre: o gado bravo continua a ser criado nas explorações agrícolas da região e as touradas e as pegas de touros continuam a ser uma paixão dos locais.A paisagem entre a vila e a Ponte Vasco da Gama é um espanto. A inesperada imensidão do terreno plano causa uma estranha sensação de infinito. Na margem do rio sobressaem os moinhos antigos, as antigas secas do peixe, implantadas em meados do século XX, a pequena praia do Cerradinho, as antigas salinas do Samouco, e os sapais da Reserva Natural do Estuário do Tejo, a zona húmida mais importante do país. O amanho cuidado da terra mostra como a agricultura ainda sobrevive na margem sul do Tejo, a escassos quilómetros da agitação urbana de Lisboa.
Texto de António Sérgio Azenha em site INATEL

27 dezembro 2006

Igreja da Atalaia

Já fora do concelho de Alcochete, a Atalaia diz-nos muito enquanto alcochetanos, quer por proximidade, quer por devoção reliogiosa. Encontrei na Wikipédia um texto que não foi verificado, mas que por curiosidade o coloco no blog. Se o leitor encontrar algum erro, ou queira deixar a sua opinião, a caixa de Comentários está sempre disponivel. Pode também contribuir para alcochetano@gmail.com

A Atalaia possui dois dos mais emblemáticos monumentos do concelho: a Igreja/Santuário de Nossa Senhora da Atalaia e o Cruzeiro da Atalaia.
A primeira, cuja fundação pensa-se ser responsabilidade dos empregados da Alfândega de Lisboa, aquando de uma Peste, data de 1507. Contudo, os registos mais antigos desta Igreja surgem só por volta de 1525, por ocasião de uma visita da Ordem de Santiago. Edifício maneirista, foi reedificado no século XVIII. Também desse século são os azulejos azuis e brancos, que revestem as paredes interiores e ilustram cenas da vida da Nossa Senhora. Quanto ao cruzeiro, mandado erguer pela Confraria de Lisboa em 1551, é feito de pedra lioz e apresenta um estilo gótico-bizantino. O culto a Nossa Senhora da Atalaia tem origem numa lendária aparição da Virgem, no topo de uma aroeira e junto à fonte que, depois, se tornou santa. Tal prodígio, cedo se tornou ponto de atracção de uma concorrida romaria, construindo-se, então, um primeiro edifício religioso, em cujo altar se colocou uma imagem de Nossa Senhora. Até ao momento, não foi possível identificar a exacta cronologia destes acontecimentos, mas é certo que, nos inícios do século XVI, o culto à Virgem da Atalaia era já bastante importante, a ponto de os oficiais das alfândegas se obrigarem a fazer uma romaria anual logo em 1507 (FONSECA, 1944, p.6). Por outro lado, e tendo em conta algumas informações do século XIX, alguns círios (dos muitos que se desenvolveram em torno da devoção) reclamavam ser anteriores ao reinado de D. Manuel (COSTA, 1887, p.31). Finalmente, temos indicação de que, por 1540, concluía-se a cobertura da fonte santa, a expensas da Câmara de Alcochete. Com base nestas indicações, fácil se torna sugerir que a primeira metade de Quinhentos terá sido um período de forte incremento do culto na Atalaia, eventualmente relacionada com a própria afirmação das vilas de Alcochete e de Aldeia Galega enquanto sedes concelhias, sem esquecer a conjuntura religiosa da época, fértil em novos cultos, marcados pela modernidade, em detrimento das antigas devoções baixo-medievais. A construção do principal cruzeiro no adro do Santuário não escapa a estas condicionantes e a sua cronologia reflecte bem o período de apogeu que, então, o monte da Atalaia viveu. Construído em 1551, conforme dupla inscrição na base da cruz, ficou a dever-se à confraria de Lisboa, certamente uma das mais importantes (senão, mesmo, a mais importante) de quantas chegaram a constituir-se. O monumento compõe-se de duas partes distintas. Ao centro, ergue-se o cruzeiro propriamente dito, com representação escultórica de Nossa Senhora da Piedade, numa das faces, e Cristo na Cruz, noutra, ambas repousando num capitel que, por sua vez, assenta sobre uma coluna monolítica de base rectangular. A envolver o cruzeiro, existe uma estrutura quadrangular alpendrada, suportada por quatro colunas e rematada em cúpula, por sua vez sublinhada por pináculos triangulares nos ângulos. O grupo escultórico é o principal elemento deste monumento, apesar de se encontrar em mau estado de conservação e, em algumas partes, truncado. A Piedade constitui uma das cenas mais representadas em cruzeiros deste género, razão por que aparece em primeiro plano, a todos quantos cheguem à Atalaia; na face voltada ao santuário, retratou-se a Crucificação, completando, desta forma, os dois momentos essenciais da Praixão de Cristo. No conjunto, merece também destaque o capitel que suporta este conjunto escultórico, onde se inseriu um pequeno laço terminando em volutas, composição que, pela técnica fina de execução e pela forma, se integra nitidamente no vocabulário renascentista. Até 1987, o nível do terreno esteve à altura das bases das colunas, tendo-se, nesse ano, desafrontado o monumento e construído a actual caixa de cimento que o protege. Esta foi a solução encontrada para fazer face à constante subida da cota do terreno, particularmente gravosa nas últimas décadas, em consequência do notório abrandamento do culto dos círios no arraial. Do grupo de cruzeiros da Atalaia fazem ainda parte outros dois, colocados lateralmente ao santuário, respectivamente nas estradas para Pegões e Alcochete. São elementos posteriores ao primeiro, provavelmente do século XVII (um deles possui a inscrição de 1669) e testemunham o carinho com que os vários círios - forma de religiosidade colectiva, assente na romaria, que dispensa a intercessão de ministros da igreja (MARQUES, 1996, p.55) - foram enriquecendo a aldeia de referentes religiosos, para lá das suas próprias casas de acolhimento, que rodeiam ainda o arraial.

27 novembro 2006

Património V - Centro Paroquial




Época Construção

Séc.XV (conjectural ) / XVI / XIX

Cronologia

Séc. 15, início - primeiras referências documentais à família dos Pato, sabendo-se que morava então em Alcochete Gonçalo Fernandes Pato que teve dois filhos, Martim Viegas Pato e Brites Gonçalves Pato; Séc. 16 - já existia o edifício, pertença da família Pato, apenas com dois pisos, anexos de cavalariças, pátio do cavalos e armazéns situados na antiga R. das Canas; séc. 19 - o antigo Solar é pertença da família Nepamuceno de Aldeia Galega, sendo então acrescentado um 3º piso e provavelmente o actual terraço e as ferrarias forjadas; a casa já não compreendia os edifícios baixos dos armazéns e o pátio dos cavalos era então um jardim; sec. 19, último quartel - passou para a posse de José Estevão de Oliveira e de Adelina de Carmo Oliveira, filha do Comendador Estevão António de Oliveira Júnior; séc. 20, inícios - adquirido por António Dias Gouveia e sua mulher Maria Eugénia de Oliveira Gouveia (irmã da anterior proprietária então casada com Joaquim Gomes de Carvalho); após a morte do casal a casa passou a Maria dos Prazeres Dias de Gouveia Abrantes que o deixou em herança a seu filho António Gouveia Abrantes; séc. 20, década de 70 - por morte do anterior proprietário passou para a sua viúva Maria Aliete de Gouveia Abrantes.
Tipologia
Arquitectura civil, quinhentista, pombalina, oitocentista. A espessura das paredes bem como as vigas de carvalho sob os arcos da casa dos Carros atestam a sua antiguidade. O tratamento independente dado aos dois primeiros registo do corpo principal e a diferença na espessura dos muros comprovam que, de início, o edifício não possuía o terceiro piso que lhe foi acrescentado já no séc. 19, numa solução de compromisso entre a estética pombalina - as janelas de sacada com gradarias de ferro forjado - e oitocentista com laivos de revivalismo na moldura em arco quebrado das janelas.
Características Particulares
Um dos solares renascentistas ainda existentes em Alcochete, apesar de muito alterado, evidenciando um notável rigor na disposição dos alçados, simétrica e ritmicamente rasgados de sóbrios vãos, animados apenas pelos varandins em ferro forjado.

25 novembro 2006

Património IV - O Pelourinho



Época Construção

Séc. XVI / Idade Moderna

Cronologia

"1450 - período de grande desenvolvimento da vila incrementado pelo Infante D. Fernando, Duque de Viseu, irmão de D. Afonso V, 12º Grão Mestre da Ordem de Santiago e pai de D. Manuel; 1515, 7 de Janeiro - D. Manuel deu-lhe foral; data provável de construção do pelourinho; 1955 - parte da coluna do pelourinho encontrava-se no átrio dos Paços do Concelho; 1969 - a Câmara manifestou interesse em reconstruir o pelourinho, integrando-o no largo onde inicialmente estivera; 1988 - a totalidade do pelourinho perdeu-se existindo apenas um fragmento da parte superior do fuste"


Património III - Sociedade Imparcial



Época Construção

Séc. XV (conjectural) XVI / XVII / XIX

Cronologia

"Séc. 15 - Vasco Gil Moniz, filho de Gil Anes escrivão da puridade do condestável, casa-se com D. Leonor de Lusignan, filha de Febo de Lusignan (filho bastardo de João II, rei de Chipre), dando origem ao ramo dos Monizes Lusignano; D. Leonor de Lusignan viera de Aragão enquanto dama de D. Isabel mulher do Infante D. Pedro; Séc. 15 / 16 - construção do Solar dos Monizes de Lusignano; Séc. 18 - o proprietário do Solar é Nuno Álvares Pereira Pato Moniz (1781 - 1826), poeta e grande amigo de Bocage; Séc. 19 - existiam em Alcochete duas sociedades musicais de que faziam parte elementos das famílias dos Cebola, Nunes e Grilo; 1802 - fundação da primeira "Philarmonia" de Alcochete; Séc. 19, meados - elementos destas famílias constituem o 1º grupo musical da vila chamado "Sociedade de Recreio"; 1895, 25 de Setembro - extinto o Concelho de Alcochete que é anexo ao de Aldeia Galega; 1898, 13 de Janeiro - Decreto de restauração do concelho de Alcochete com as freguesias de Alcochete e Samouco; quinze dias dantes da restauração do Concelho a Sociedade passa a chamar-se "Sociedade de Recreio 15 de Janeiro"; data provavelmente deste tempo a reconstrução do edifício, tendo-se demolido em grande parte o antigo Solar (destruída a escada de pedra que dava ingresso ao amplo salão e entaipadas as colunas da entrada); antes de passar para a posse da Sociedade o último proprietário fora Carlos Augusto Nunes; um dos sócios mais ilustres da Sociedade era o pianista João Baptista Nunes Júnior autor do Hino da Restauração do Concelho; 1913, Janeiro - é confirmada a existência da sociedade musical e baptizada com o nome actual; tinha inscritos então c. de 600 sócios; 1994, 6 de Março - inauguradas as novas instalações da sede musical."

Tipologia

"Arquitectura civil, renascentista, seiscentista, barroca, oitocentista. Edifício de raiz quinhentista, ou mesmo quatrocentista. A espessura das paredes no andar térreo, com c. de 70 c., atestam a antiguidade do imóvel. Do séc. 16 parecem subsistir alguns elementos como as diferentes colunas no interior e o portão que abre para a Rua do Comendador. Possui uma varanda do séc. 18 sobre o portão da fachada S., e um arco de abóbada no interior, da mesma época; a fachada principal adquiriu com a reforma oitocentista uma feição neo-classicizante."

Características Particulares

Um dos maiores edifícios da vila, só encontrando rival no Asilo Barão de Samora Correia e no Antigo Solar dos Soydos testemunhando a importância e grandeza do antigo solar. A sociedade foi no tempo uma escola artística que dominaria a vida cultural da vila durante vários anos. As estátuas em cerâmica da platibanda com paralelos das existentes na Casa dos Bustos



Património II - Ermida de Santo António de Ussa



Época Construção
Séc. XVI (conjectural) / XVIII
Cronologia
"1585 - os terrenos da Barroca, de origem terras da Coroa, encontravam-se na posse de Álvaro Afonso de Almada; 1619 - o fidalgo André Ximenes de Aragão, cavaleiro da Ordem de Cristo (6º filho de Duarte Ximenes de Aragão e de Isabel Rodrigues da Veiga e irmão de Fernão Ximenes de Aragão, rico mercador), institui, em testamento com sua mulher D. Maria Ximenes, um morgadio de 10 mil, cruzados que tinha como sede a Barroca d'Alva e importância de que era credor ao Duque de Bragança; a administração deste vínculo passou depois a um filho de nome Tomás e, por morte deste, a um seu sobrinho, Jerónimo; deste passou a outro sobrinho, Rodrigo Ximenes de Aragão e depois a seu neto Francisco Inácio Ximenes Coutinho de Aragão Barriga e Veiga; foi depois o morgadio herdado por Rodrigo Caetano Pereira Coutinho Barriga e Veiga seu filho bastardo; nesta altura já a maior parte das terras da Barroca tinham revertido para a Coroa; 1747 - Jácome Ratton (1736 -1822) chega a Portugal; 1767 - Ratton obtém da Coroa o arrendamento perpétuo das terras da Barroca e inicia no local uma plantação de amoreiras e criação de bichos-da-seda; procede ao arroteamento dos terrenos incultos, enxugo de pântanos, limpeza de valas, etc.; nos terrenos existia então, segundo o próprio Ratton, apenas uma ermida, dedicada a Santo António (2), com casa anexa em ruínas, que eram pertença da comenda de São Tiago de Alcochete; Ratton teria procedido ao restauro da ermida, mantendo as suas características (3); 1810 - perseguido por suspeita de colaboração com os franceses durante as invasões, Ratton exila-se em Inglaterra; durante a sua ausência será o seu filho Diogo Ratton a assumir a direcção dos negócios; senhor do Prazo da Barroca d'Alva, membro da Comissão de Obras Públicas e membro fundador da Sociedade Promotora da Indústria Nacional, conclui as obras do primitivo solar da Barroca, hoje desaparecido; 1876 - José Maria dos Santos, compra a Barroca e courelas anexas ao Barão de Alcochete, Jacques Léon Daupiás, filho de Bernard Daupiás, 1º Barão e 1º Visconde de Alcochete, casado com Emília Júlia Ratton, sua prima, e herdeira da Barroca por via paterna; 1913 - morre José Maria dos Santos passando a direcção dos seus negócios para o seu sobrinho António Santos Jorge pai do actual proprietário Samuel Lupi Santos Jorge."
Tipologia
"Arquitectura religiosa renascentista, maneirista. Edifício de planta circular, com cobertura em cúpula esférica, com protótipos italianos do alto renascimento, do tipo bramantino. Modelo invulgar no país, a capela enquadra-se na tipologia das cubas alentejanas aqui defendida por dupla cintura de muralhas ameadas. Os vestígios do pórtico de entrada, em frontão semicircular, conduzem sempre aos formulários italianizantes de quinhentos."
Características Particulares
Capela fortaleza sem paralelos conhecidos em Portugal, destaca-se pelo equilíbrio das massas e pela racionalidade geométrica da sua planimetria, constituindo aparentemente um exemplar único de puras formas renascentistas, divinamente enquadrado pela paisagem envolvente.

Património I - Biblioteca

Depois de ler um post no Blog "Praia dos Moinhos" sobre um dos edifícios condenados de Alcochete, vasculhei o site monumentos. pt e achei, novamente, a riqueza da nossa terra.
Não posso deixar de concordar com "Praia do Moinhos", " O património edificado deve ser respeitado." A nossa História não pode acabar desta maneira.
A Biblioteca
Época Construção - Séc. XV / XVI (conjectural)
Arquitecto, Construtor, Autor - Desconhecido
Cronologia
"Séc. 15, 2ª metade - D. João II e a corte por várias vezes estabeleceram residência em Alcochete; o Infante D. Fernando, enquanto Grão-Mestre da Ordem de Santiago a que a vila pertencia, reedificou-a, tendo muitos fidalgos, sob seu incitamento, aí construído os seus palácios, sendo Alcochete solar de muitas famílias nobres; é provável pois que este antigo solar de que se desconhece a data de construção e o nome dos primeiros proprietários, fosse edificado por esta época ou no século seguinte; séc. 18, início - este solar estava na posse de Estevão António de Oliveira, dito Estevão o Velho, pai do Comendador Estevão António de Oliveira Júnior; 1826 - o proprietário restaura o imóvel sobretudo a nível de interiores; por morte do proprietário passou a sua filha Gertrudes de Oliveira Simões que a deixou a um sobrinho conhecido por Estevinho; posteriormente foi vendido em hasta pública e remodelado a nível dos interiores para albergar vários inquilinos; 1971 - instalação no 1º andar da Biblioteca Municipal - Biblioteca fixa da Fundação Calouste Gulbenkian."
Tipologia

"Arquitectura civil, quinhentista, renascentista, maneirista, pombalina, oitocentista. Edifício solarengo de planta composta por casa com varanda alpendrada com colunas toscanas, e pátio murado com portão de fogaréus pombalino; subsistem alguns elementos de traço maneirista como o perfil de algumas portas e o tratamento das vergas de janelas conjugando-se com elementos já pombalinos e vernaculares como a platibanda de cerâmica elemento característico do burgo alcocheteano. Interiores muitos descaracterizados com portadas de finais de Oitocentos."

31 outubro 2006

O Sal - Parte 2

"(...)António Sérgio acentuou a importância da salicultura na economia portuguesa desde o tempo da romanização e durante os primeiros séculos da nacionalidade e Virgínia Rau publicou vários estudos sobre a história do sal português. Luís Cadamosto, navegador e comerciante veneziano, do século XV, ao serviço de Portugal, descreveu como se trocava o sal por ouro entre os nativos nas costas da Guiné. No século XVI há notícias de terem chegado ao Tejo e ao Sado mais de 250 barcos, sobretudo alemães e holandeses, em apenas seis dias, para carregarem sal.

Chamou-se Sal de Santa Maria a um imposto pago pelos proprietários da barcos. D. Sebastião decretou o monopólio da exploração salina para custear a malograda expedição de 1587. Os pescadores do Norte da Europa, onde o clima é desfavorável e a salinidade do mar é fraca (7,2 g/l, no Báltico), abasteciam-se aqui de sal a caminho da pesca do bacalhau na Terra Nova. Restaurado Portugal em 1640, a dívida aos estados que nos ajudaram a expulsar o domínio espanhol foi paga com sal, então considerado o melhor de toda a Europa. Nessa época punia-se com a pena de morte todo o marnoto nacional que ousasse ensinar aos galegos, nossos concorrentes, a arte das salinas.

As nossas salinas proliferaram nas embocaduras dos principais rios, do Lima ao Guadiana (Castro Marim), sendo actualmente ainda importantes as de Aveiro (iniciadas no século X), da Figueira da Foz, do Tejo (em Alcochete), de Setúbal e da Ria Formosa, esta última responsável por 50% da produção nacional de sal, considerado de óptima qualidade. A importância do sal está bem testemunhada no Museu do Sal, em Alcochete, uma lição sobre a salicultura portuguesa e a vida dos salineiros ou marnotos.

Em termos ambientais, o abandono da actividade salineira e a destruição das salinas está a pôr em risco a sobrevivência de muitas aves migratórias que aí fazem escala. Na construção da Ponte Vasco da Gama, no Tejo, a preservação das antigas salinas do Samouco fez-se pela expropriação e recuperação desta área, com vista à preservação da importante fauna que alberga, tendo sido criada, em 28 / 22 / 2000, a “Fundação para a Gestão do Ambiente das Salinas do Samouco”.

No nosso dia-a-dia e na tradição de um saber antigo, salga-se o bacalhau e temperam-se com sal as azeitonas, os queijos e os enchidos. Salsicha e salpicão são, como o nome indica, enchidos temperados com sal. Ainda se prepara, com muito sal, a massa de pimentão, no Alentejo; está-se a perder o atum em salmoura e quase já se perdeu a sardinha de barrica, a carne e o toucinho da salgadeira e os queijinhos guardados no sal. Lá fora, salga-se o arenque, prepara-se a choucroute e conservam-se o caviar e os ovos de galinha (na China), que assim podem durar anos.(...)"

O sal pertence à nossa história e lendo a antiga trova que o Prof. Galopim de Carvalho colocou no meio da sua conferência, não consigo deixar de pensar quem tanto lutou no meio dos talhões para dar comida aos seus filhos.

“Ó ondas do mar salgado,
donde vos vem tanto sal?
Vem das lágrimas choradas
nas praias de Portugal.”

Transcrito de : A. M. Galopim de Carvalho, Museu Nacional de História Natural ,Conferência pronunciada na abertura da Feira dos Minerais, Gemas e Fósseis, de 2003

22 outubro 2006

Paço Real de Alcochete e Álvaro Velho

Antiga vila, cuja origem se perde nas brumas do passado, sobranceira ao rio Tejo, ao seu imenso estuário que quase se assemelha ao mar oceano, Alcochete foi desde sempre uma terra privilegiada em águas, ares e vastos horizontes por onde as suas gentes desde sempre espraiaram os seus sonhos, as suas vidas.

A 31 de Maio de 1469 nascia em Alcochete o rei D. Manuel I, posteriormente cognominado "o venturoso". Da ligação à vila que o viu nascer pouco se sabe, porém, cremos que a mesma não se tenha limitado a um nascimento ocasional, mas antes desse nascimento tivesse surgido uma ligação afectiva mais duradoura, atestada pelo Paço Real que existiu então, ou já existiria antes do nascimento do soberano. Devido à sua situação geográfica, privilegiada pelos arejados espaços da sua malha urbana, e pela relativa proximidade a Lisboa, capital do Império, Alcochete constituía, sem dúvida, uma vila de eleição para residência temporal da Corte, principalmente em períodos de peste, que periodicamente assolavam a capital.

Em 1498, Vasco da Gama chegava à Índia comandando uma frota composta por três navios: S. Gabriel, S. Rafael e Bérrio. A Álvaro Velho caberia a tarefa de escrever o roteiro da viajem, personagem a quem vários historiadores e alguns curiosos atribuem como terra de nascimento, o Barreiro.Este mesmo Álvaro Velho a determinada altura no seu roteiro refere: «Esta vila de Melinde (…) está assentada ao longo de uma praia, a qual vila se quer parecer com Alcochete, e as casa são altas e mui bem caiadas e tem muitas janelas» (1).

Se, tal como é referido por vários historiadores, Álvaro Velho era natural do Barreiro, lógico seria que conhecesse bem Alcochete, pela sua proximidade geográfica à primeira das povoações. Porém, mais lógico será a analogia que o autor refere no seu roteiro caso frequentasse amiudadamente a Corte em Alcochete, dado ser um homem de confiança do rei D. Manuel I e por esse facto querer distinguir o soberano, comparando Melinde a Alcochete.

Num maço de documentos descoberto há pouco pelo autor no Arquivo Distrital de Évora, encontram-se transcritas uma série de cartas datadas de 1508 a 1513, correspondência essa, trocada entre Álvaro Velho e o soberano. Na altura, era Álvaro Velho vedor e recebedor das obras do Mosteiro de S. Francisco na cidade de Évora, e paralelamente, grande proprietário nessa cidade (2), que regista ainda hoje em dia um largo com o seu nome.
Refira-se que as obras do convento de S. Francisco foram iniciadas em Maio de 1508 e concluídas em Maio de 1509 (3). A correspondência enviada pelo rei a Álvaro Velho é proveniente dos paços de Almeirim, dos Paços de Alcochete e dos paços de Lisboa. No entanto, uma única carta se encontra datada de Alcochete como segue: «Nós el-rei vos enviamos muito saudar. Mestre Olival veio a nós nos requerer algumas cousas acerca das obras que for nesse mosteiro. E quanto ao mais dinheiro que nos pediu que lhe mandássemos dar por respeito da mais obra que acrescentou no retávolo (…) com ele assentamos que fizesse cento trinta mil oitenta reis. E por que ele se obrigou a nos dar feita e acabada toda a dita obra, que assim agora com ele concertamos até um ano cumprido que começa a correr da feitura desta carta, avemos por bem que lhe paguem estes cento trinta mil oitenta reis que nele monta aos meses (…) Escrita em Alcouchete aos 28 de Março de 1508, Rey.
Para Álvaro Velho, do despacho de Mestre Olival 4.Embora não seja referido o dia, numa carta datada de 1508, dos paços de Almeirim, Mestre Olival endereça da seguinte forma a carta a Álvaro Velho: «Ao virtuoso senhor Álvaro Velho, vedor e recebedor das obras do Mosteiro de S. Francisco da cidade de Évora, por especial mandado de sua Alteza» (5).

Pela forma com Álvaro Velho é tratado, de que são exemplo as passagens destas duas cartas, conclui-se que seria personagem da estima do soberano. O ser natural do Barreiro, não podemos neste momento afirmar que o não fosse, mas o facto de ser grande proprietário em Évora, Alentejo, região de onde (provavelmente) era natural Vasco da Gama, e com ele ter embarcado para a Índia, suscita-nos dúvidas quanto ao ter nascido no Barreiro, terra, aliás, onde até hoje não foi encontrada referência à sua passagem e muito menos documentos de propriedades suas.


Quanto ao paço real de Alcochete, sabido que o terramoto de 1755 o destruiu certamente, tal como Lisboa e toda a zona ribeirinha do Tejo, talvez não seja difícil de localizar, atendendo aos avanços que a arqueologia urbana tem registado nos últimos anos.

(1) Vasco da Gama e a sua Viagem de Descobrimento, pg.67
(2) Cópia e leitura de Documentos do Cartório da Câmara de Évora (1440-1598)
(3) Papéis pertencentes à Administração dos Pastos. Resumo das Propriedades, rendas e direitos que ao Concelho d'esta cidade de Évora pertencem que estão na Torre do Tombo que foi feito no ano de 1536
(4) Documentos pertencentes à cidade de Évora
(5) Idem, ibidem

Transcrito de “Comunidades.Net”

20 outubro 2006

Retalhos da Vida de Manuel, o primeiro


Acerca de Manuel, nascido em Alcochete, encontrei na Biblioteca Nacional, “Chronica do Sereníssimo Senhor Rei D. Manoel” escrita por Damião de Góis numa edição 1749, que simplesmente não resisto em deixar alguns links, para se ler sobre um do maiores monarcas do Mundo.

Esta crónica de Damião de Góis, dirigida inicialmente ao Cardeal- Infante D. Henrique, filho de Manuel, aparece aqui impressa (conforme original) com data de 1749 de modo a ser oferecida a D. Rodrigo António de Noronha e Menezes por Reinerio Bocache.


Do Nascimento

A sucessão

Falecimento

As feições de Manuel

As feições (continuação)

Esta obra pode ser vista na sua totalidade aqui.

10 outubro 2006

Mais uma curiosidade

Em periodo agitado de trabalho, e resolvidos os problemas com a Internet, deixo mais uma curiosidade de 1512. Uma cópia de alvará municipal que diz o seguinte na sua descrição:

“Cópia do alvará que derrogou aos moradores de Alcochete os privilégios que tinham contra as posturas do concelho, guardando-se somente o do secretário, ao qual isentou de todas as ditas posturas.”

23 de Outubro de 1512

Documento 1

Documento 2

A quem quiser participar neste blog, poderá sempre fazê-lo através de alcochetano@gmail.com


Até breve

25 agosto 2006

Interessante descrição

Neste Site, fui encontrar uma interessante descrição da nossa freguesia. Aqui fica:
"A antiga vila de Alcochete é de povoamento muito antigo, bem anterior à fundação da Nacionalidade. A data da sua primeira ocupação não pode ser determinada, mas o seu topónimo expressa bem a ligação ao mundo árabe e a manutenção do seu uso certifica a continuação do povoamento, desde essa época.
Na toponímia da própria freguesia de Alcochete, além deste vocábulo, há outros dois que corroboram esta antiguidade, são eles Carias e Alva e, Barroca d'Alva. Estes três topónimos representam três momentos da história desta região, mais ou menos sucessivos. Alcochete representa o domínio muçulmano, Carias a ocupação moçárabe e Alva o repovoamento, com gente do norte, desta área, após a reconquista.
A ocupação arábica de Alcochete não surpreende visto estar inserido numa região de domínio muçulmano efectivo e florescente, não longe de Lisboa e no termo do castelo de Palmela, que, com efeito, ia do estuário do Sado ao do Tejo ao mar. Alcochete era um domínio desta notável fortaleza árabe e continuou a sê-lo depois da Reconquista Cristã no ano de 1147. A povoação de Alcochete entrou nos domínios da Ordem de Santiago quando esta recebeu em seu domínio e guarda a península que os dois estuários formam com o mar. É deste período de domínio da milícia espatária que data o repovoamento e a presença dos frades senão professos pelo menos afiliados.
O local manteve-se sem importância de maior significado até ao século XV altura em que o grão-mestre da Ordem de Santiago era D. Fernando, filho do rei D. Duarte, e escolheu Alcochete para sua residência, com fidalgos da sua casa. O infante fez notáveis construções com os seus vassalos, aumentando de tal forma a importância da povoação a ponto de D. João II a elevar à categoria de vila. O rei D. Manuel que, pelo que todos os indícios apontam, aqui nasceu em 31 de Maio de 1469, concedeu-lhe foral, em Lisboa, a 7 de Janeiro de 1515. Alguns autores afirmam, no entanto, que a tradição municipal de Alcochete remonta a épocas anteriores, pelo menos ao século XIV. O dr. Rui de Azevedo afirma que este concelho era constituído por pequenas “pobras” da orla transtagana em poder da Ordem de Santiago, formadas, em grande parte, como medida para proceder à exploração de salinas desde o segundo quartel do século XIII. Estaria então integrado nos denominados “concelhos do Ribatejo” que viria a desaparecer quando dois dos lugares que o integravam, Aldea Galega e Alcochete, se lhe sobrepuseram em importância.
Alcochete teve o seu nome associado à aristocracia portuguesa. Os Barões de Alcochete, de que o primeiro foi Bernardo Daupiás, nascido a 9 de Novembro de 1782 em Lisboa, foi Comendador de Cristo, Cavaleiro da Conceição, oficial da Legião de Honra em França, do Conselho de Sua Majestade, Conselheiro de Legação e Cônsul Geral aposentado. Foi agraciado com o título de Barão em duas vidas por decreto de 26 de Maio de 1836 e, por decreto de 18 de Fevereiro de1852 foi elevado a 1.º Visconde de Alcochete. Bernardo Daupiás era um abastado proprietário da região de Alcochete, onde, entre outros possuía o Prazo de Barroca d'Alva a que pertencia a herdade de Rio Frio. Quando esteve em Paris como encarregado de negócios teve o encargo de cuidar da infanta D. Maria, futura D. Maria II, quando esta permaneceu num convento daquela cidade a completar a sua educação."

02 agosto 2006

O Sal


“Não se sabe ao certo quando é que a actividade salineira terá surgido, neste concelho mas supõe-se que na dominação romana já existisse, pois a indústria de salga do peixe e a preparação do “garum” encontrava-se em franco desenvolvimento em toda a margem sul do rio Tejo.
Os árabes também se ocuparam nesta actividade, tendo deixado testemunhos através dos utensílios de trabalho – diversas pás, as adufas e o bombeiro.
Segundo documentos antigos, os Alcochetanos tinham profissões de escudeiros, marnoteiros, carreiros, mareantes, barqueiros, sapateiros, cavadores e feitores.
A partir do séc. XV, a povoação adquiriu maior importância e tornou-se centro abastecedor de Lisboa. A população local contribuiu bastante para o projecto dos Descobrimentos, tendo o seu sal abastecido as caravelas e naus que partiram para o Oriente, onde foi utilizado como moeda de troca.
O sal foi sempre um produto importante nesta zona e era extraído em grande quantidade. Durante o Séc. XVII, Alcochete assistiu a um grande desenvolvimento da exploração do sal. Após um período de menos actividade, no sec. XVIII Alcochete voltou a atrair a nobreza, pois ai se instalou o comerciante francês Jacome Ratton que, entre muitas inovações nos diversos sectores económicos, introduziu novos mecanismos para movimentar a água das salinas, que se estendiam ao longo das margens da Ribeira das Enguias.
Durante o séc. XIX e a primeira metade do sec. XX, Alcochete voltou a ser considerado um importante centro produtor de sal, desenvolvendo-se economicamente e enraizando as suas tradições.
No entanto, na década de 50 deste século, diversos factores levaram à diminuição da produção de sal no nível nacional, situação que também atingiu Alcochete, tais como: a auto-suficiência de países tradicionalmente consumidores do nosso sal; o enfraquecimento da navegação à vela que o transportava como lastro; o aparecimento de sistemas de refrigeração e o seu emprego nos navios da pesca de bacalhau (os principais consumidores de sal). Assim, passou-se rapidamente de pais exportador para a situação de importador.
Apesar disso, o sal como qualquer actividade económica dominante num determinante lugar, tem concedido, ao longo de gerações, uma identidade cultural à população ribeirinha deste concelho, embora este produto, que pelo seu valor e simbolismo chegou a ser denominado de “ouro branco”, não tenha enriquecido quem lhe dedicou toda a sua vida (os salineiros eram uma classe simples e carenciada economicamente).
Os salineiros habitavam, maioritariamente, no Bairro das Barrocas, juntamente com os Pescadores. São considerados a figura mais importante do concelho, devido à enorme importância que as marinhas de sal tiveram noutros tempos.”

Transcrição do livro “Nos Caminhos do Sal”

20 julho 2006

Ratton



Industrial e negociante da praça de Lisboa; deputado do tribunal supremo da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação; fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da ordem de Cristo. Sendo francês de nascimento, tornou-se português pela sua naturalização.

Nascera na cidade de Monestier de Briançon, na província do Delfinado, mais tarde departamento dos Alpes, em França, a 7 de Julho de 1736. Faleceu em Portugal cerca de 1822. Era filho único de Jacome Ratton e de Francisca Bellon, natural da mesma cidade.
Pouco depois do seu nascimento vieram seus pais para Portugal e aqui se estabeleceram com uma casa de comércio, de sociedade com Jacome Bellon, seu cunhado, o qual já estava estabelecido no Porto. Depois de fixarem definitivamente em Lisboa a sua residência, mandaram vir o filho, que chegou aqui em 7 de Maio de 1747, e completaram em Portugal a sua educação, toda dirigida no sentido do comércio, cuja teoria e prática conhecia perfeitamente quando, em 1758, seus pais o instaram para casar, visto ser filho único. Escolheu então para sua mulher a Ana Isabel Clamouse, filha do cônsul francês no Porto, Bernardo Clamouse. Pouco depois foi encarregado da liquidação da casa comercial de seus pais e tio, que lha tinham cedido, ao retirarem‑se para França. Desde logo manifestou uma grande actividade e uma arrojada iniciativa, nos mais variados assuntos do comércio, indústria e agricultura. A primeira coisa que projectou foi, em 1764, uma fábrica de chitas, que suscitou o estabelecimento de outras, e depois uma de papel. Em Elvas fundou uma fábrica de chapéus finos, e outra em Lisboa. Em 1789, associando-se com outro francês ilustríssimo Timóteo Lecussan Verdier, fundou a fábrica de fiação de algodões de Tomar, que tanta importância deu aquela terra. Promoveu a criação de outras empresas importantes, para as quais encontrava largo auxílio no governo, que então era o do Marquês de Pombal, sempre tão empenhado em desenvolver a indústria, a agricultura e o comércio da nação portuguesa. Foi em 1762, que Jacome Ratton se naturalizou cidadão português.

Em 1767 tratou de explorar umas marinhas de sal importantes na Barroca de Alva, nas proximidades de Alcochete. Para esse fim aforou uma grande extensão de terrenos incultos, conhecidos pelo Sapal de Pancas; depois enxugou pântanos, saneando lugares onde nunca se criara um homem, fez grandes culturas, construiu uma casa magnífica para sua residência, e fundou finalmente um valiosíssimo estabelecimento agrícola e industrial. Muito dedicado à arboricultura, fez aqui, entre outra outras tentativas, um viveiro de amoreiras brancas de que podia dispor de 12.000 pés. De árvores exóticas plantou neste lugar o primeiro eucalipto que houve em Portugal. A primeira araucária, bela árvore que se admira na quinta dos duques de Palmela, no Lumiar, foi também importada por Jacome Ratton.

Em 1788 foi nomeado deputado da Junta do Comércio e depois fidalgo cavaleiro da Casa Real, recebendo ao mesmo tempo o hábito de Cristo. Vivia tranquilo, respeitado, considerado e feliz, rodeado de seus filhos, escrevendo as suas memórias, quando em 1807 veio a invasão francesa de Junot. É provável que, apesar de se achar naturalizado português, ou não desgostasse de ver tremular aqui a bandeira do seu país, ou pelo menos mantivesse relações amigáveis com os seus ex-compatriotas. Tudo isto é natural. Mas ainda que Jacome Ratton se conservasse completamente afastado do governo de Junot, bastavam o seu nome de estrangeiro, a sua ilustração e o seu espírito naturalmente inclinado às ideias do progresso, para o indigitar como jacobino. Assim o trataram, e foi Jacome Ratton uma das vítimas da famosa Setembrizada. Já em Junho de 1810, por informações que a Regência enviara para o Rio de Janeiro, fora demitido do lugar de deputado da Junta do Comércio, em que esteve durante mais de vinte e dois anos, prestando notáveis serviços.
Na noite de 10 para 11 de Setembro do referido ano de 1810, foi preso para a Torre de S. Julião e transportado cinco dias depois para bordo da fragata Amazona, que o devia conduzir, juntamente com outros jacobinos, para a ilha Terceira, onde chegaram a 24 do mesmo mês. À força de súplicas e de empenhos, conseguira Ratton que lhe permitissem exilar-se voluntariamente para Inglaterra. Passou então para bordo da fragata inglesa Lavinia, a qual tinha seguido a Amazona desde o Tejo até à ilha Terceira, comandada por Lord William Stuart. Ratton, como outros companheiros, tinha passaporte do ministro britânico em Lisboa para passar à Inglaterra, mas os governadores do Reino retiveram esses passaportes e Ratton ainda esteve preso no Aljube de Angra e deveu à diligencia de Lord Stuart o passar sem demora para bordo da Lavinia, que o levou a Portsmouth, donde partiu para Londres. Aqui, junto de seu filho José Luís, que havia pouco fora de Portugal para se estabelecer em Inglaterra, escreveu e publicou, em 1813, a obra intitulada: Recordacoens de Jacome Ratton, fidalgo cavalleiro da Caza Real, cavalleiro da ordem de Christo, ex-negociante da praça de Lisboa, e deputado do tribunal supremo da Real Junta do Commercio, Agricultura, Fabricas e Navegação. Sobre occurrencias do seu tempo, em Portugal, durante o lapso de sessenta e tres annos e meio, aliás de maio de 1747 a setembro de 1810, que rezidio em Lisboa: acompanhadas de algumas subsequentes reflexoens suas, para informaçoens de seus proprios filhos. Com documentos no fim. Londres. Impresso por H. Bryer, Bridge Street, Blackfriars, 1813. Esta curiosíssima obra constitui um volume de 969 páginas, com o retrato do autor desenhado por H. L'Eveque e gravado por J. Vendramini, e uma planta das suas propriedades da Barroca de Alva. É de uma grande importância pela vasta cópia de informações e de esclarecimentos que encerra, tudo acompanhado de reflexões, quase sempre judiciosas, e de anedotas interessantes, relativas principalmente ao governo do marquês de Pombal e à reacção que se lhe seguiu. Não pôs à venda exemplar algum, e limitou-se a brindar com eles os seus amigos. Por morte destes vieram alguns exemplares para o mercado, mas em diferentes épocas parece que houve interessados no seu desaparecimento, tornando-se o livro tão raro quão apreciado. Quando em 1815 se fez a paz geral, pôde Jacome Ratton regressar a Lisboa e acabar aqui tranquilamente os seus dias nos fins de 1821 ou princípios de 1822.
Ainda em 1816 publicara no Investigador portuguez um artigo Pensamentos patrioticos. Imperio luso. Seu filho Diogo Ratton foi feito barão de Alcochete e Inocêncio, no seu Dicionário Bibliográfico, declara não saber se são dele se de seu pai os seguintes opúsculos, intitulados: Reflexões sobre o papel-moeda e Reflexões sobre o commercio e fazenda, publicadas em 1822. Pinheiro Chagas, no seu Dicionário Popular, inclina-se que estes escritos sejam de Diogo Ratton. Jacome Ratton foi ascendente directo do conde de Daupias, um esclarecido industrial, falecido em 1900.

por Manuel Amaral, In Arqnet
Por tudo quanto este homem fez por Alcochete trazendo o progresso, acho que o destaque é merecido...

11 julho 2006

Igreja Matriz (Parte 2)

Aqui neste post, tentei mostrar a redução de certas descrições sobre um dos mais importantes marcos históricos do nosso concelho. Assim, tentei também mostrar que as suspeitas de que a Igreja Matriz tenha sido anteriormente uma mesquita, não esteja provado totalmente.

Este texto que abaixo deixo, do IPPAR, é talvez a mais completa descrição (resumo) da nossa Igreja.
"No século XV, em pleno período de afirmação da dinastia de Avis, Alcochete era uma vila ribeirinha próspera. Dispunha de um paço real (muito provavelmente destruído aquando do terramoto de 1755) e era um dos mais importantes centros da Ordem de Santiago, cujos principais nomes, incluindo o seu mestre, aqui tinham casa e aqui residiam durante largas temporadas do ano. A actual igreja Matriz é o mais singular produto dessa favorável conjuntura e data dos meados da centúria, do período de mestrado de D. Fernando (1443-1470), irmão de D. Afonso V e pai de D. Manuel. Sobre o portal principal, as duas cruzes do seu duplo mestrado, de Avis e de Santiago, são uma marca inequívoca deste marco histórico e cronológico, anunciando, no presente como no passado, a tutela do empreendimento.Artisticamente, a igreja é um templo heterogéneo, cuja deliberada busca de monumentalidade não disfarça a vigência de correntes estéticas díspares, tão características do século XV português.O plano arquitectónico geral representa uma forma de arquitectura religiosa gótica tradicional, cuja origem recua aos primeiros exemplos do século XIII, mais precisamente à obra de Santa Maria do Olival, de Tomar, e aos ensaios mendicantes de Santarém e de outras cidades do reino. A opção por um corpo de três naves (neste caso com quatro tramos), separadas por arcarias longitudinais, e tecto de madeira, e por uma fachada principal ad triangulum, com portal inscrito num alfiz e uma rosácea axial a coroar o segundo andar, são características essenciais do Gótico paroquial nacional, tipologia arquitectónica e espacial que, partindo do século XIII, teve grande impacto nos séculos da Baixa Idade Média e foi ainda bastante utilizada nos alvores da modernidade.Mas, se esta é a impressão geral imediata, existe uma segunda tendência estética, menos perceptível, é certo, mas igualmente relevante. Ela testemunha-se, entre outros locais, no portal lateral Sul - a única parte do templo que foi assinada por um enigmático mestre A. (Afonso?). O recurso a capitéis de dois andares e, principalmente, o perfil cairelado do seu arco, são marcas inconfundíveis do tempo tardo-gótico de ascendência batalhina, o que prova como o projecto quatrocentista de Alcochete detinha recursos económicos suficientes para atrair homens formados no maior estaleiro do país - o Mosteiro da Batalha.Ao longo do século XVI, e seguindo uma tendência visível na maior parte do reino, o interior da igreja foi progressivamente enriquecido com capelas devocionais e funerárias. Das várias então construídas, resta a de Pero Lourenço e sua mulher, do lado Norte do tramo oriental do corpo, espaço quadrangular abobadado e com acesso através de um arco quebrado encimado pela cruz da Ordem de Cristo. A da família Mascarenhas, cuja lápide evoca ainda a sua memória, foi completamente destruída pelas reformas posteriores.No século XVII, a história deste templo conheceu um período importante, na sequência da descoberta de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que logo se instituiu como uma das principais referências devocionais da comunidade. O projecto então concebido determinou a substituição da velha capela-mor gótica por um compartimento rectangular profundo, iluminado lateralmente e com espaço suficiente para integrar um retábulo monumental. Um documento prova que, em 1740, o estaleiro era dirigido por Carlos Mardel, mas, até ao momento, não se conhece suficientemente bem a natureza dos trabalhos por si desenvolvidos. Por essa altura, pensamos que as obras de arquitectura há muito estariam terminadas - existe a data de 1678 na parede exterior da capela-mor que poderá datar a sua conclusão - e que o projecto se resumia a dotar o interior das imprescindíveis realizações de talha (retábulo-mor proto-barroco ainda do século XVII) e de azulejo (grandes painéis alusivos à vida de Cristo e de São João Baptista) obras que datam, efectivamente da primeira metade do século XVIII."
Chegou há relativamente pouco tempo vinda de restauro, a primeira das quatro enormes pinturas atribuidas ao pouco conhecido pintor Barradas, que estão expostas na Capela-Mor da Igreja-Matriz. As telas representam quatro episódios da vida de João Baptista e depois da "cara lavada", o brilho da primeira tela chama a atenção ao que durante anos esteve escondido atrás do pó. Como não existe bela sem senão, descobriu-se que as dimensões das telas eram superiores e foram no passado vandalizadas.
Fontes: IPPAR

07 julho 2006

Documentos 1

Em mais uma das minhas epopeias de Internet, descobri que a Torre do Tombo tem mais de 800 documentos referentes a Alcochete. Claro, que a pesquisa foi através da palavra “Alcochete”, palavra qual, o respectivo motor procurou em todas as descrições dos documentos.
Assim temos centenas de documentos que vale a pena descobrir... Com tempo...

Um dos documentos é uma Certidão da Câmara de Alcochete datada do dia 1 de Outubro de 1501.



“Certidão da Câmara de Alcochete do registo de uma ordem do Duque sobre o contrato da Grã da dita vila e termo, de 1 de Outubro de 1501.”

Documento página 1

Documento Página 2

Documento Página 3


Fonte: Torre do Tombo/IANTT