11 outubro 2007

Barrigana




"De há quarenta anos para cá, com entusiasmo, fervor e admiração, vi jogar quase todos os grandes guarda-redes portugueses, do inesquecível Azevedo, "Hércules do Barreiro", a José Pereira, o "Pássaro Azul". Vi o gigantesco Ernesto, do Atlético, o terror dos extremos, vi Abraão, do Olhanense, vi Cesário, do Sporting de Braga, na tarde de glória, no pelado do Benfica, em que defendeu todos os remates de Palmeiro, Arsénio, Águas e Rogério, vi Capela, da Académica, e Sebastião, o loiro Nero do Estoril Praia, célebres pelos seus voos acrobáticos, vi o fantástico Aníbal, de poupa trabalhada a brilhantina, vi o caprichoso Carlos Gomes pontapear fotógrafos antes de se transferir para Espanha e de ameaçar o presidente do clube, quando não lhe pagavam, com a irónica frase 'no hay dinero no hay portero', acompanhei o Vital, do Lusitano de Évora, que sulcava a relva com o calcanhar pensativo da bota, para marcar o centro da baliza. E todavia, para meu desgosto e frustração, nunca assistiu a nenhum jogo do meu ídolo Frederico Barrigana, o 'Mãos de Ferro', keeper do FC Porto. No intuito de compensar tal desdita, recortava, embevecido, do jornal, os instantâneos que o mostravam a saltar com um avançado, apertando-lhe contra as partes o joelho dissuasor (porquê partes se não inteiras?), a fim de esfriar os ímpetos assassinos do adversário; admirava-lhe a calvície e o boné que a cobria numa exactidão de cápsula; coleccionava-lhe as entrevistas e escutava, boquiaberto, na telefonia do meu pai, de dedos em concha na orelha, os relatos de Artur Agostinho, que, aos domingos, às 3 da tarde, narrava em tom épico, as proezas do grande Frederico Barrigana num estádio a rebentar de público. Aos 12 anos, se eu não desejasse, com tanta paixão, tornar-me escritor, quereria ter sido o "Mãos de Ferro". Mas, claro, possuía o sentido das limitações suficiente para compreender que não se pode querer ser o grande Frederico Barrigana: é-se, por dom divino, perfeito como ele só, desde o início."

António Lobo Antunes




Frederico Barrigana fez-se jogador de futebol no Unidos do Montijo, perto da terra que o viu nascer, Alcochete. No início de 1943 o Sporting avançou para a sua contratação, mas a baliza leonina, nessa altura, era propriedade exclusiva de João Azevedo, um ‘monstro sagrado’ das redes. Por isso, nunca chegou a debutar de leão ao peito.Ainda nesse ano, um acontecimento de cariz político, com remoques cinematográficos, marcou a vida de Barrigana. Conta-se assim: O guarda-redes do FC Porto, Bela Andrasik, húngaro de nascimento, desapareceu misteriosamente. Veio a saber-se depois que era um espião antinazi e que fugira do país com medo que tal se descobrisse pela polícia secreta no país de Salazar. Com a baliza vazia, os dirigentes do FC Porto pediram encarecidamente ajuda ao Sporting, que emprestou Barrigana. Chegado ao Porto, o guarda-redes pode finalmente provar o seu valor. Pegou de estaca e já não regressou ao Sporting.
Durante 12 anos mostrou qualidades invulgares na baliza portista (também na Selecção), com destaque para a segurança com que saía de entre os postes.
PERFIL
Frederico Barrigana nasceu em Alcochete em 28 de Abril de 1922. Começou a jogar no Unidos do Montijo, ingressou no Sporting aos 21 anos e uma época mais tarde mudou-se para o FC Porto, onde defendeu a baliza dos dragões durante 12 épocas, sem contudo ter ganho campeonatos. Na parte final da carreira, após sair do FC Porto, jogou três anos no Salgueiros. Foi internacional em 12 ocasiões, com estreia num Espanha-Portugal.

Faleceu em 29 de Setembro de 2007.
Fontes: Correio da Manhã, Zero Zero, O Record

28 setembro 2007

Olho Azul

Na primeira metade do sec. XX, a região de Alcochete foi assolada por um homem que até aos dias de hoje é falado pelos mais velhos e que apenas dão o nome de “Olho Azul”. Este nome estava associado aos mais diversos crimes e era temido pela comunidade. Contudo, nada de escrito existe e apenas sobrevive a lenda. Quem era “Olho Azul”?

Aqui espero ajuda de quem conhece esta lenda.

25 setembro 2007

Peste Negra




"Peste negra é a designação por que ficou conhecida, durante a Idade Média, a peste bubónica, pandemia que assolou a Europa durante o século XIV e dizimou em torno de 25 a 75 milhões de pessoas, pois alguns pesquisadores acreditam que o número mais próximo da realidade é de 75 milhões de pessoas, um terço da população da época. A doença é causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida ao ser humano através das pulgas dos ratos-pretos (Rattus rattus) ou outros roedores.
Em Portugal a peste entrou no Outono de 1348. Matou entre um terço e metade da população, segundo as estimativas mais credíveis, e entretanto reduziu a nação ao caos. Foram inclusivamente convocadas as Cortes em 1352 para restaurar a ordem.
Um dos efeitos indirectos da peste em Portugal seria a revolução após o reinado de D. Fernando (Crise de 1383-1385). Este interregno, mais que uma guerra civil pela escolha de novo rei, terá antes sido a luta da nova classe de pequena nobreza e burguesia que subira a escada social aproveitando as oportunidades após os desequilíbrios sociais provocados pela peste, contra o "antigo regime" desacreditado, a enfraquecida e esclerótica alta nobreza que presidira à catástrofe e cujos titulares, nascidos e criados nos anos da doença, não terão adquirido as capacidades necessárias à governação eficaz. De facto esta elite da alta nobreza, clero e Casa Real, terá respondido à substancial perda de rendimentos e aumento de custos de mão de obra devido à peste com maior autoritarismo e tirania. Assim se explica a tendência desta frágil alta nobreza de se aliar com a sua também atacada congénere castelhana.
A peste, que nunca antes existira na Península Ibérica, voltou a Portugal várias vezes até ao fim do século XVII, ou seja sempre que nasciam suficientes novos hóspedes não imunes. Nenhuma foi nem remotamente tão devastadora como a primeira, mas a Grande Peste de Lisboa em 1569 terá matado 600 pessoas por dia, ao todo 60 000 habitantes da cidade terão sucumbido. A última grande epidemia foi em 1650. No entanto, no seguimento da Terceira Pandemia a peste foi importada para o Porto em 1899 do Oriente (provavelmente de Macau onde grassou desde 1895 até ao fim do século). A epidemia do Porto foi estudada por Ricardo Jorge, que instituiu as medidas de Saúde Pública necessárias, e que a conseguiram limitar."

Quando em 1527 mais uma epidemia assolava a capital e novo surto despontou em Castela em 1533, D.João III ordenou a colocação de um guarda em Alcochete. A este disposto régio, a vereação da Câmara Municipal decidiu nomear um guarda-mor de modo a proteger a povoação e a 21 de Julho de 1569, decidiu proibir que todos os barqueiros que viessem de Lisboa que aportassem ou entrassem na vila sem que antes tivesse decorrido dez dias e de serem examinados por um médico.






"acordo sobre as barcas que vão a llisboa que não
venham ao porto desta villa senão a pomta da estada

E lloguo na dita vereacão pellos ditos oficiaes e mais pesoas da guouernamca da villa que forão chamadas per campa tãogida de perguão dado pello porteyro do comcelho que todo o barqueyro que llevar llenha e toio a cidade de llisboa que não venha desembarcar ao porto desta villa nem amarem as barcas ao porto desta villa e se uão desembarcar a pomta da estrada e lla amarem as ditas barcas ao pinheyro que seia da quintam e marynha de Jam de bryto pera alem E quamto as da pomta da estada sera da pomta da estada pera demtro pello assim declara amtonio fernamdez barqueyro que ally se podiam estar mjlhor E quamto aos barqueyros que nas ditas barcas andarem assim aRazes como parseiros que não entrem nesta villa senão amdamdo dez dias sem Jrem a llisboa E sem embargo diso não emtrarão sem llisemsa do senhor garda moor E sem parecer do Lisemceado E fizico desta villa E jsto compena de dous mjll rees E vimte dias da cadea a metade pera quem o acuzar E a outra metade pera as guardas E allcaide desta villa E declarão que sem embargo do aRiba dito que todo o barqueyro que a llisboa ouuer de Jr quer com barca caregada quer vazia não va sem llisemsa E escryto do dito guarda mor quall sera visto per Jam bernalldez a emtrada E quamdo o senhor guarda moor não estiuer na tera será de Jam bernalldez E o dia achegar a cada hum destes portos estarão em degredo seis dias E Jmdo nestes ditos seis dias cada hum delles a llisboa tornarão a tirar outro escryto e Jso sob as mesmas penas asima ditas E quamto a barca de careyra semdo caso que seia nesesaryo Jr (…) llisboa (…) om va sem se fazerem os Jizames nesesaryos E se forem com o dito Jzame sera quimta feyra E Jsto sob a mesma pena E assim declarão mais aos ditos aRazes que toda a barca que vier com trygo do taroall venha ao porto desta villa sob as mesmas penas asima declaradas E eu manoell pereyra que espreuy E amtrelinhey a llisboa o que fiz por verdade."

Fontes: Wikipedia, "Monografia do Concelho de Alcochete"

20 setembro 2007

Agiologio Lusitano



Seguindo a recomendação do Padre Carlos Russo, fui em busca do “Agiologio Lusitano” de Jorge Cardoso, perseguindo pistas de modo a revelar a vida de alcochetanos ao longo da História. Apesar de ser um extensa obra, composta por cinco volumes com aproximadamente oitocentas páginas cada, aqui e ali aparecem pedaços de vidas de homens e mulheres que dedicaram a sua existência em prol da Igreja e alguns nascidos em Alcochete.


O Agiologio Lusitano de Jorge Cardoso é um dos grandes monumentos da cultura portuguesa do século XVII. Elaborado com o intuito confessado de inventariar todas as “vidas” de santos, beatos, veneráveis, “varões” e mulheres “ilustres em virtude” de “Portugal e suas conquistas” que o tempo ia deixando “sepultadas no esquecimento”, este Agiologio apresentou-se também como uma obra que pretendia elogiar os “santos da Pátria” para que os portugueses tivessem a quem imitar e os “Pátria de Santos”, ou seja para que os portugueses tivessem a quem imitar e os “estrangeiros” vissem – em que datas muito significativas... – que Portugal era uma “Pátria de santos”, ou seja para que a “santidade” fosse também um signo identificador da “Pátria”. Apesar de esta obra ter ficado incompleta – só foi parcialmente continuada no século XVIII por D. António Caetano de Sousa – do imenso trabalho do seu autor resultou, com se pretende mostrar neste estudo, uma obra de consulta imprescindível para o estudo não só do fenómeno da santidade em Portugal até ao século XVII, mas também múltiplas outras facetas da vida religiosa, social e até política desses tempos.



Maria de Lurdes Correia Fernandes, História, santidade e identidade. O Agiologio Lusitano de Jorge Cardoso e o seu contexto.pág. 25


Aqui fica um exemplo do que podemos encontrar nesta obra:






Para aumentar clique na imagem

03 setembro 2007

GDA na Taça





Após o ultimo jogo disputado pelo GDA na Taça de Portugal, resolvi efectuar uma busca sobre o historial do clube pela Net. Numa tabela acumulada até à época de 2002 – 2003 o GDA ocupava 160ª posição (entre 625 clubes) com 35 jogos realizados, 11 vitórias, 4 empates e 20 derrotas.
Esta lista foi retirada de vários sites da Internet e por falta de informação anterior a 1974 optei por apenas colocar os jogos realizados entre 1974 até 2008 e as respectivas fases de apuramento.
Se por algum motivo quiser rectificar algum erro, ou completar esta lista, a caixa de comentários está disponível.

Taça de Portugal 1974-75
Fase: 1/128
GD Alcochetense - SL Olivais 1-2


Taça de Portugal 1975-76
Fase: 1/128
GD Alcochetense - Vasco Gama AC 1-1 / 2-3 (Jogo de Desempate)

Taça de Portugal 1976-77
Fase: 1/128
CD Nacional Madeira - GD Alcochetense 1-0

Taça de Portugal 1977-78
Fase: 1/128
GD Alcochetense - CD Montijo 0-3

Taça de Portugal 1978-79
Fase: 1/128
SL Olivais - GD Alcochetense 0-1
Fase: 1/64
GD Alcochetense - Sporting CP 0-2

Taça de Portugal 1979-80
Fase: 1/128
GD Alcochetense - SC Farense 0-5
Taça de Portugal 1980-81
Fase: 1/128
GD Alcochetense - CF União Madeira 1-4

Taça de Portugal 1988-89
Fase: 1/128
SG Sacavenense - GD Alcochetense 2-1

Taça de Portugal 1993-94
Fase: 1/256
CA Aldenovense - GD Alcochetense 2-5
Fase: 1/128
GD Alcochetense - CA Macedo Cavaleiros 1-0

Fase: 1/64
GD Alcochetense - AD Ovarense 0-4

Taça de Portugal 1997-98
Fase: 1/256
GD Alcochetense - CD Ribeira Brava 5-3

Fase: 1/128
GD Alcochetense - GUS Montemor 0-1

Taça de Portugal 1998-99
Fase: 1/256
GD Alcochetense - GD Samora Correia 3-2

Fase: 1/128
Seixal FC - GD Alcochetense 6-1

Taça de Portugal 2000-01
Fase: 1/256
GD Alcochetense - Vasco Gama AC 1-1 / 1-2 ( Jogo de desempate)

Taça de Portugal 2001-02
Fase: 1/256
CD Portossantense - GD Alcochetense 2-1
Taça de Portugal 2002-03
Fase: 1/256
GD Alcochetense - SG Sacavenense 3-1

Fase: 1/128
GD Alcochetense - BC Ribeirinha 3-1
Fase: 1/64
GD Alcochetense - USC Paredes 1-2

Taça de Portugal 2005/06
Fase 1/256
GD Alcochetense – Amora 3-1

Fase 1/128
GD Alcochetense – U. Micaelense 1-2

Taça de Portugal 2006/07
Fase 1/256
Oeiras - GD Alcochetense 2-0

Taça de Portugal 2007/08
Fase 1/256
GD Alcochetense – Ferreiras 2-1


27 julho 2007

Património VI - Nucleo Antigo Alcochete



Descrição

Núcleo de origem medieval organizado em torno da Praça Pública (actual Largo da República), local onde se localizavam os Paços do Concelho e o Pelourinho. Do largo de planta quadrangular partem artérias no sentido NO, E., SE. e SO. A expansão quinhentista e seiscentista da vila encontra-se associada ao traçado da Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) e a alguns solares na envolvente do núcleo antigo, cujas cercas vão marcar o traçado das ruas. A Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) ocupava a frente ribeirinha NO., unindo o Largo da Misericórdia ao Largo Miguel Bombarda (actual Largo António dos Santos Jorge) e ligando-se à Praça Pública (actual Largo da República) através da Rua do Paço e da Rua do Talho. A expansão oitocentista realizou-se para NO., na zona denominada Barrocas do Mar, onde, após o aterro da área entre os dois promontórios, foi construído o Bairro das Barrocas, com traçado regular composto por sequência de quarteirões estreitos e paralelos, perpendiculares à frente ribeirinha e à Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira). A expansão realizou-se também, paralelamente ao rio, no sentido SO., pela Rua João Gonçalves, Rua e Largo do Troino, ao longo do Rossio (actual Largo Barão de Samora Correia) e da Rua da Praia (actual Avenida D. Manuel I), e prolongando a área edificada até ao Largo Marquês de Soydos onde se localiza o Solar da Quinta da Praia das Fontes . A fase de expansão novecentista caracterizou-se pela justaposição de uma área com traçado ortogonal para N. e E.-NE. do Largo de S. João e da envolvente da Igreja Matriz limitada pelo Largo da Feira. O traçado do núcleo antigo estruturou-se em torno da Praça Pública (actual Largo da República) a partir da qual saem os eixos de ligação: ao Terreiro de S. João (actual largo de S. João) e à Igreja Matriz para E.; à Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) para N.; e ao Rossio (actual Largo Barão de Samora Correia) para SO. Envolvia o núcleo antigo, no sentido SO.-NE., um eixo que partia do Largo Coronel Ramos da Costa, pela Rua João de Deus, Largo D. Luís Pereira Coutinho (actual Largo da Revolução), até ao Terreiro de S. João, (actual Largo de S. João). A partir do séc. 19, estruturou-se um novo eixo de circulação, a partir do Largo da Misericórdia rodeando o Bairro das Barrocas, passando pela R. do Norte, Largo da Cova da Moura e Largo Moysém (actual Av. dos Combatentes da Grande Guerra). Os largos, elementos polarizadores da malha urbana da vila de Alcochete, encontram-se associados à presença de solares. Como espaço fundacional, a Praça Pública (actual Largo da República), de forma quadrangular, constituía o centro do núcleo, onde se localizavam os Paços do Concelho e o Pelourinho e onde actualmente existe um solar setecentista, cujo proprietário original é desconhecido. Afastados do centro, o Terreiro de S. João (actual Largo de S. João) e o Largo da Misericórdia, marcam os limites quinhentistas. O Largo de S. João, de forma trapezoidal, ocupa o espaço fronteiro à Igreja Matriz ; aqui se localizavam o antigo Solar dos Pereiras (actual edifício dos Paços do Concelho) e o desaparecido Solar dos Condes de Unhão Teles de Menezes. Na frente ribeirinha, o Largo da Misericórdia, de forma poligonal, é delimitado pela Igreja da Misericórdia de Alcochete e pelo Solar dos Netos. O Largo Miguel Bombarda (actual Largo António dos Santos Jorge), de forma poligonal, resulta da intercepção da Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira) com o solar quinhentista dos Monizes Lusignano (actual edifício da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898) e o Bairro das Barrocas, construído no aterro realizado durante o século 19 entre os dois promontórios, afastando a frente ribeirinha que definia o lado N. da Rua Direita (actual Rua Comendador Estevão de Oliveira). O Largo do Troino, de forma triangular, resulta da expansão do centro urbano para SO. - limitada a SE. pelo solar provavelmente quinhentista onde se encontra instalada a Biblioteca Municipal - no sentido do Largo Barão de Samora Correia, o antigo Rossio, onde, no séc 19, a construção do solar de João Ferreira Prego, 1º Barão de Samora Correia (actualmente Asilo Barão de Samora Correia), iniciou a ocupação deste espaço como frente urbana. O actual Largo Marquês de Soydos, de forma triangular, resultou da doação do terreno fronteiro à Quinta da Praia das Fontes que o 5º marquês de Soydos fez ao município, com a condição de aí ser criado um passeio público. Os largos João da Horta, de forma poligonal, e Coronel Ramos da Costa, de forma triangular, constituem uma unidade espacial, limitada a SE., no seguimento da Rua João de Deus o no sentido do eixo do núcleo antigo que conduzia a Aldeia Galega (actual Montijo). Aqui se localizam o solar da família Ramos da Costa e da família António da Cruz. O Largo D. Miguel Pereira Coutinho (actual Largo da Revolução), de forma triangular, resulta da confluência da Rua João de Deus, onde se localiza o solar da família Dias da Cruz, com a Rua António Maria Cardoso e o Terreiro de S. João (actual Largo de S. João). Os largos Almirante Gago Coutinho, onde se encontra a Igreja Matriz ; da Feira, no limite E.; e o Largo da Cova da Moura, no Bairro das Barrocas, resultam da expansão urbana novecentista, não estando associados à preexistência de solares. O tecido parcelar é predominantemente composto por lotes de configuração irregular, nas áreas de origem medieval, quinhentista e seiscentista, e por lotes de forma quadrangular nos períodos de expansão oitocentista e novecentista. O Bairro das Barrocas é caracterizado por lotes quadrangulares, alguns dos quais actualmente emparcelados. Os quarteirões a E./NE. da Igreja Matriz apresentam forma quadrangular, integrando nos seus logradouros pátios. O espaço edificado é envolvido pela presença polarizadora da arquitectura religiosa: a Igreja Matriz a E.; Igreja da Misericórdia a NO; e a Capela de Nossa Senhora da Vida a N. A arquitectura é na sua maioria residencial, com adaptações comerciais e de serviços. A volumetria varia entre um e quatro pisos, predominando as casas com um e dois pisos. Nas áreas de expansão oitocentista e novecentista (Bairro das Barrocas, Rua do Rato, actual Av. 5 de Outubro, Rua João Gonçalves, Rua Beato Manuel Rodrigues, Rua do Norte), assinalam-se lotes habitacionais de casas térreas em banda. O armazém constitui outro tipo com alguma representatividade, definido por construção térrea, de planta predominantemente rectangular, com telhado de duas águas e empena na fachada voltada para a rua. Destaca-se a presença de casas que apresentam a empena na fachada principal. Os tipos dominantes referem-se à casa térrea e à casa com dois pisos. De entre estas, salienta-se o revestimento azulejar de algumas fachadas, a decoração das platibandas, com balaustradas e peças cerâmicas (estátuas, jarrões, pinhas) e a guarnição das janelas de sacada com varandins, em ferro forjado e fundido, também aplicado nas bandeiras e postigos das portas: Casa dos Bustos ; Casa Moysém; Vivenda Matilde . As casas com dois ou mais pisos conjugam frequentemente a utilização comercial do piso térreo com a habitacional dos pisos superiores. O solar constitui um tipo caracterizado pela conjugação da casa com dois pisos e o pátio, armazém e estábulo, destacando-se pela sua volumetria, implantação, ritmo e decoração dos vãos: Casa no Largo do Troino (Biblioteca Municipal), antigo Solar dos Patos (actual Centro Paroquial Padre Cruz) , antigo Solar dos Netos , Solar dos Monizes Lusignano (actual edifício da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898), Antigo Solar dos Pereiras (actual edifício dos Paços do Concelho), Solar dos Soydos (actual Quinta da Praia das Fontes). O conjunto integra duas áreas verdes públicas: o antigo Passeio Público, constituído pelo Rossio (actual Largo Barão de Samora Correia) e uma área de 14500m2, doada ao município em 1875 por D. António Luís Pereira Coutinho, para construção de um passeio público (actual Largo Marquês de Soydos); e outra, no Largo Almirante Gago Coutinho, do lado N. da Igreja Matriz (1956).

Descrição Complementar


A estatuária está representada de forma significativa: busto do Padre Cruz, erigido em 1953, localizado no Largo de S. João, actualmente no Centro Paroquial de Alcochete, de autor desconhecido; estátua do Padre Cruz, no Largo de S. João, inaugurada em 1969, da autoria de Luís Valdêz Castelo Branco; estátua do rei D. Manuel I, no largo Marquês de Soydos, inaugurada em 1970, da autoria de Vasco Pereira da Conceição; busto de Carlos Ferreira Prego, 3º Barão de Samora Correia, no largo com o mesmo nome, erigido em 1957, de autor desconhecido; escultura de homenagem ao Forcado, no Largo João da Horta, erigida em 1989, da autoria de Sérgio Stichini; estátua do Salineiro, na Praça da República, implantada em 1985, da autoria de Francisco Simões. Quanto ao mobiliário urbano, destaca-se o Coreto integrado no jardim lateral à Igreja matriz, inaugurado em 1956.


Época Construção
Séc. 13 / 15 / 16 / 19 / 20


Cronologia


1224 - D. Sancho II doou a póvoa de Alcochete à Ordem de Santiago;
1249 - criação, no termo de Alhos Vedros, da paróquia de Nossa Senhora da Sabonha, que incluía as póvoas de Aldeia Galega e Alcochete;
séculos 14 / 15- Vasco Gil Moniz mandou edificar o solar dos Monizes de Lusignano, actual edifício da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898; D. João I tinha um paço real em Alcochete. O infante D. João, mestre da Ordem de Santiago, concedu a Alcochete o estatuto de sede da Ordem. D. João II estabeleceu residência em Alcochete, elevando-a a vila. O infante D. Fernando estabeleceu-se em Alcochete. Construção da Igreja Matriz; 1469 - nascimento em Alcochete do futuro rei D. Manuel I; século 16 - 1515- D. Manuel I atribuiu carta de foral a Alcochete - A nobreza instala-se em Alcochete construindo aqui os seus solares; desta época datam o Solar dos Netos, reconstruído sobre fundações do século 15, o antigo Solar dos Patos (actual Centro Paroquial de Alcochete), o Solar dos Pereiras (actual edifício dos Paços do Concelho), o desaparecido Solar dos Condes de Unhão Teles de Menezes, o solar onde se encontra instalada a Biblioteca Municipal; 1547 - D. Sebastião concede aos oficiais que trabalhavam nos estaleiros de construção naval em Alcochete direitos iguais aos que trabalhavam na Ribeira das Naus; 1563 - edificação da Igreja da Misericórdia; 1577 - Afonso Figueiredo mandou edificar a Ermida do Espírito Santo; século 17- realizou-se a primeira grande campanha de obras na Igreja Matriz. Fernão Patto Correia mandou construir a Casa dos Pattos (Solar dos Soydos); século 18 - Jacôme Ratton estabeleceu-se na Barroca D'Alva, promovendo o desenvolvimento económico da região; século 19 - construção, em madeira, de ponte-cais de apoio ao transporte fluvial de bens e pessoas entre Alcochete e Lisboa; construção do Bairro Novo, no aterro da zona denominada Barrocas do Mar; - construção do Bairro Moisém 1875; - D. António Luís Pereira Coutinho doou à Câmara Municipal uma área de 14000m2, destinada a Passeio Público; 1837 - João Ferreira Prego, 1º Barão de Samora Correia, mandou construir um solar, em terrenos adquiridos à Câmara Municipal; 1866 - inauguração da Escola Primária Conde de Ferreira; 1895 - o concelho de Alcochete é anexado ao de Aldeia Galega (Montijo), por decreto de 26 de Setembro; 1898 - restauração do município, por decreto de 15 de Janeiro; século 20 - construção da ponte-cais em betão



Tipologia

Núcleo urbano ribeirinho, organizado a partir de póvoa régia medieval, definido por sequência de quarteirões mais ou menos irregulares em torno da Praça Pública e afastado da Igreja Matriz, localizada a E., no Terreiro de S. João. Expansão paralela à margem do rio, em parte já derivada da implantação, nos séculos 15 / 16, da Ermida do Espírito Santo e da Igreja Misericórdia. O traçado da Rua Direita, tangencial ao núcleo fundacional, com orientação O.-E., liga o Largo da Misericórdia ao Terreiro de S. João. Enquanto elementos polarizadores, os solares encontram-se associados a largos e definem o traçado de eixos secundários. A expansão urbana da vila, que ocorre durante o século 19, ultrapassa os antigos limites no sentido NE.-SO., ao longo da Rua da Praia, com construção de armazéns, e do Rossio, com habitações. Para N., a expansão fez-se com a construção do Bairro das Barrocas, constituído por uma estrutura de arruamentos, paralelos entre si e perpendiculares à frente ribeirinha. Nesta época, a transferência dos Paços do Concelho da Praça Pública para o Terreiro de S. João criou um novo centro da vila, a partir do qual se desenvolveu a expansão do século 20. O crescimento urbano verificado a partir da primeira década do século 20, obedecendo a uma estrutura viária ortogonal, desenvolve-se a N. do Terreiro de S. João e na envolvente da Igreja Matriz, caracterizada por casas de dois pisos, nas quais se destaca a profusa decoração novecentista de algumas fachadas e casas térreas. Fortes afinidades tipológicas com outros núcleos antigos da margem S. do estuário do Tejo, tais como o Seixal e o Barreiro.


Dados Técnicos

Paredes autoportantes, em adobe, alvenaria de pedra, alvenaria mista, alvenaria de tijolo; reboco de cal e areia, reboco de cimento; pontual revestimento azulejar das fachadas; janelas de duas folhas; pavimentos calcetado com pedra calcária e empedrado

Materiais


Pedra: calcário conquífero. Terra. Cerâmica: tijolo, telha de meia cana, de aba e canudo, telha marselha. Ferro forjado, ferro fundido.

Observações


A delimitação proposta nesta ficha para o Núcleo Antigo de Alcochete inclui a delimitação de núcleo antigo definida no Plano Director Municipal (PDM), acrescentando todos os quarteirões a E. e NE. da Igreja Matriz, completando também a frente da Av. 5 de Outubro. A delimitação do PDM data dos anos 90 do séc. 20, e materializa uma proposta de centro histórico elaborada nos anos 80, no Plano Geral de Urbanização da vila, que não chegou a ser aprovado. Não obstante, a população de Alcochete, apesar de conhecer bem os limites da "vila antiga" e da "vila moderna", associa a expressão "centro histórico" não à delimitação actual, mas à zona das igrejas Matriz e da Misericórdia e ao Bairro das Barrocas, chegando, muitas vezes, a afirmar ser este bairro oitocentista a zona mais antiga da vila, mostrando uma representação espacial claramente distinta dos limites elaborados pelos técnicos. A origem árabe do topónimo "Alcoxete" parece comprovada, sendo o plural da palavra "Alcocha", que significa "forno" e que é atestada pela referência à existência na região de fornos de cerâmica e de cal, em virtude da abundância de combustível lenhoso. No entanto, a tradição oral e escrita da fundação árabe do povoado, carece de dados que a comprovem. Festividades locais: o Círio dos Marítimos ao santuário de Nossa Senhora da Atalaia realiza-se na Páscoa; esta celebração, com origem conjectural no século 16, está associada às classes profissionais ligadas à construção naval, pesca e transporte fluvial, actividades com tradição histórica em Alcochete. Procissão da Nossa Senhora da Vida em Agosto: festa dedicada a Nossa Senhora da Vida, que tem a sua origem no século 17, por iniciativa da irmandade de Nossa Senhora da Vida, reorganizada por Nuno Álvares Pereira Velho de Morais, tendo como centro a Capela de Nossa Senhora da Vida, antiga Ermida do Espírito Santo. Na procissão, que tem lugar em Agosto, durante as festas do Barrete Verde e das Salinas, a imagem de Nossa Senhora da Vida chega pelo rio, transportada numa embarcação tradicional. Festas do Barrete Verde e das Salinas, realizadas desde 1944, ocorrem durante a segunda semana do mês de Agosto: festa de carácter regionalista, invoca as figuras do forcado, do campino e do salineiro, através de decorações alusivas, que enfeitam as ruas da vila. As largadas de toiros nas ruas da vila são a principal atracção. Feriado municipal: 24 de Junho, dedicado a S. João Baptista; em Alcochete, região marcadamente rural, as festividades prolongavam-se por três dias, durante os quais, a par da componente cristã, aconteciam manifestações populares de origem pagã, como, por exemplo, o acender de fogueiras nos largos da vila, nas noites de arraial.

Autor e Data
Filipa Ramalhete / Francisco Silva 2003

04 julho 2007

As Festas do Barrete Verde






São celebradas em homenagem ao forcado, ao salineiro e ao campino. São realizadas todos os anos durante quatro dias, não faltando as festividades taurinas com particular destaque para as largadas de touros. Um dos momentos esperados da festa é o de sábado à noite com a tradicional sardinhada em que, pelas ruas típicas da vila são oferecidas sardinhas assadas, pão e vinho. Na vertente religiosa, o ponto alto da festa é o da procissão por terra e mar com a imagem de Nossa Senhora da Vida que chega à vila a bordo de uma embarcação típica do Tejo.


O brilhantismo da cultura alcochetana


As Festas do Barrete Verde e das Salinas de Alcochete iniciam-se, habitualmente, dois dias antes do segundo Domingo do mês de Agosto e reflectem o mais nobre sentimento da tradição ímpar de uma vila ribeirinha, desde sempre fiel, orgulhosa e merecedora dos seus desígnios, da sua cultura. Exultam a Festa Brava, a verdadeira essência, a verdadeira alma, que dá corpo a estas festividades, ou não fosse Alcochete inigualável na forma como comemora e pratica o culto da tauromaquia.


A noite mais longa do ano em Alcochete


As festividades atingem o clímax logo no primeiro sábado, com a realização da Noite da Sardinha Assada. As ruas, becos e ruelas engalanados, vestem-se de cor para receber um indescritível mar de gente. Nesta noite, o Tempo parece parar e Alcochete é, por momentos, o centro do Mundo. Nos improvisados fogareiros de rua, «estalam» sardinhas, febras, couratos... o que houver. Nada mais importa, salvo a confraternização, a alegria, os abraços da tão típica saudade portuguesa, que faz gritar corações. Afinal, é tempo de reencontro com a família para os muitos que regressam à sua terra natal depois de um ano de trabalho lá fora; é, para outros, tempo de rever amigos e receber forasteiros, amigos do nosso amigo, ou absolutos estranhos, mas que nesta noite passam a partilhar dos atributos da orgulhosa família Alcochetana... Ah! já lá vem a charanga, com um som contagiante e rodeada de uma multidão de foliões. Agora, já só a noite manda. Até o Sol raiar, Alcochete canta e dança... é Noite da Sardinha Assada e «... é só gente da borda d”água».

Páginas da cultura portuguesa


Carismática desde sempre é, também, a realização da homenagem às três figuras centrais que os festejos honram – o forcado, o salineiro e o campino. Uma tradição distinta, assinalada no dia de abertura das celebrações e precedida por um cortejo de invulgar composição e beleza, um verdadeiro símbolo das Festas do Barrete Verde e das Salinas. Não só pela beleza que encerra em si, como também pela forma como é levada a efeito, por Mar e por Terra, a Procissão em Honra de Nossa Senhora da Vida, no Domingo, é outro dos momentos altos. É a fé de mãos dadas com a devoção a fluir numa terra onde a tradição, exibida com orgulho e brilhantismo, segue os mais fortes pergaminhos da cultura portuguesa. Depois, as tradicionais largadas, a par da vertente dos espectáculos musicais, que decorrem ao longo dos dias de comemorações, enchem as ruas, no primeiro caso, e o Largo de São João, no segundo, com verdadeiras multidões, envoltas em frenéticas ondas de êxtase e alegria.


Historial das Festas


Apesar de centrar a sua homenagem em três figuras da cultura local – o forcado, o salineiro e o campino –, as Festas do Barrete Verde e das Salinas não se dissociam dos predicados religiosos. Aliás, surgiram na sequência das extintas Festas em Honra da Nossa Senhora da Vida, que segundo alguns autores já se realizavam no século XVII. Com a inclusão de uma corrida de toiros na programação destas festividades, em Agosto de 1930, aliando-se assim o cariz religioso à vertente profana, abriu-se caminho para o surgimento das actuais Festas do Barrete Verde e das Salinas. As Festas de Nossa Senhora da Vida, então a cargo da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete, sofrem um interregno (que viria a ser definitivo) entre 1936 e 1940, mantendo-se, durante este período a realização da corrida de toiros, assegurada que foi por uma comissão da Santa Casa da Misericórdia. Aproveitando a realização desta já habitual corrida, José André dos Santos, jornalista e Alcochetano, faz nascer o primeiro «Barrete Verde». Estávamos então em Setembro de 1941, quando a romaria – que começou por se denominar «Festas das Salinas e do Barrete Verde» – teve início. A organização da iniciativa pertenceu à Santa Casa, com os concursos da Câmara Municipal, de Samuel Lupi dos Santos Jorge e de José André dos Santos, e com a colaboração da Sociedade Imparcial. Ainda nesse ano, nasceu o primeiro grupo de «Meninas do Barrete Verde».Em 1942, as Festas são organizadas com a colaboração e concurso da Santa Casa e da Sociedade Imparcial e ganham a designação actual. No ano seguinte, surgem as primeiras dificuldades: a Santa Casa abdica da organização dos festejos e a Sociedade assume o ónus com o apoio da Autarquia. Começa-se, então, a projectar uma comissão que se responsabilize anualmente pelas Festas.


In: Solares de Portugal

02 julho 2007

A Ultima Marinha



Em meados do século XX,
dezenas de salinas espraiavam-se
ao lado do Tejo e a extracção
do sal era a actividade económica
mais importante de todo
o concelho de Alcochete.
Hoje, em laboração, apenas
subsistem as Salinas do Brito.
É aí que se situa o Museu do Sal,
activo e dinâmico,
mantendo viva a tradição





Ocupação ancestral, em Alcochete, perde-se no tempo a origem da faina do sal. A descoberta, em Porto de Cacos, de ânforas romanas que serviriam provavelmente para guardar preparados de peixe faz pensar que já na época se faria a recolha de sal na região. Porém, de seguro, apenas os registos dos cronistas que ascendem à dinastia de Borgonha e a certeza de que, em meados do século passado, a salicultura terá tido a maior importância para a economia de Alcochete.

Manuel Nicolau de 87 anos, salineiro desde os 13, é o único trabalhador que faz parte dos quadros das Salinas do Brito, pertença da Fundação João Gonçalves Júnior (FJGJ) – as únicas que se mantêm em todo o concelho. Nicolau começou por ser criado, “a carregar lamas e a tratar das limpezas”. Transportava também água, acalmando a sede aos trabalhadores que, sob o sol escaldante do Verão, corriam para carregar mais uma canastra de sal. Miúdo ladino, aproveitava para ver como faziam os outros, ia aprendendo, mostrando capacidades. Conta que com 17 anos “já ganhava o ordenado de um homem”, correndo ao lado destes, descalço, tentando transportar rapidamente as quinze canastras que haviam de perfazer o moio de sal. Cedo chegou a mestre de máquinas da marinha. Era ele quem abastecia e fazia a manutenção dos motores que bombeavam a água entre o viveiro e a talharia. Além disso, controlava as utilizações desnecessárias das máquinas, consumidoras de combustível, quando a altura da água era suficiente para correr entre talhos: “enquanto a água entrasse pelo seu pé, não havia necessidade de um motor”.
“Era uma vida dura”, afirma Manuel Nicolau, “a vida de salineiro sempre foi muito difícil”. A distância entre a vila e as marinhas era percorrida a pé, pela madrugada. Ainda o dia não tinha bem nascido e já os homens rapavam o sal, que ao sol da tarde, reflectido pelo cristal branco, ninguém suporta. Os momentos de descanso, esses, eram passados a escavar os desenhos feitos em pedaços de madeira, dos quais haviam de nascer as formas para fazer os pãezinhos de sal. “Ganhava-se muito mal, nessa altura”, recorda o salineiro. “Além do mais, era um trabalho sazonal”. Por isso mesmo, quando três complexos industriais se instalaram em Alcochete, como a maior parte dos seus conterrâneos, Nicolau não perdeu tempo para procurar melhor soldo que cobrisse o ano inteiro.
Data dessa altura o declínio da exploração do sal. A decadência da indústria conserveira e o mineral estrangeiro, colocado no mercado a preços muito mais baixos, competindo com o exportado por Portugal, ditaram o fim de muitas das salinas nacionais. Alcochete, que fora considerado, no século XIX, o centro salineiro mais importante do país, não foi excepção. As marinhas, outrora sinónimo de riqueza, passaram a significar prejuízo, vindo progressivamente
a ser abandonadas. Criada por vontade de João Gonçalves Júnior, a Fundação com o seu nome teve desde sempre a finalidade de apoiar a população mais desfavorecida de Alcochete. Como forma de providenciar fundos para manutenção da FJGJ, as Salinas do Brito foram anexadas ao legado. Quando ocorre o declínio da venda do sal, como todas as outras, a marinha começa a apresentar prejuízos. Consciente da impossibilidade de manter a situação, mas também do facto da extracção do sal ser uma actividade intimamente ligada à história social e económica do concelho, a administração da FJGJ procura um parceiro que viabilize a manutenção das marinhas sem que estas se tornem um peso para a Fundação. É então assinado um protocolo com a Câmara Municipal de Alcochete, através do qual esta assume as despesas das salinas, sendo criado o Museu do Sal. Manuel Nicolau que, apesar da estabilidade oferecida pelo emprego na indústria, não apreciara o escasso movimento do seu cargo, havia voltado às salinas. Por essa altura já era ele o 25 marnoteiro que orientava e dirigia a marinha. E mantém-se, diariamente,
controlando os níveis das águas e a labuta dos trabalhadores.
Ainda de madrugada, os seus homens vão chegando. O trajecto, outrora palmilhado, é agora feito de automóvel, motorizada ou bicicleta. Porém, os horários não mudaram, que do sol não há protecção possível. Mal o dia ameaça despontar, a curta fila de oito homens encaminha-se para a talharia. Semi-mecanizada, a safra mostra-se todavia muito menos rentável do que nos tempos em que era totalmente feita à força de braços: “não há pessoal”, diz Nicolau. Não estranhamos. Perante o horário e o esforço físico exigido a estes homens, e apesar dos descontos inteiramente
suportados pela FJGJ, um ordenado que não atinge os e 400,00 € mensais não parece muito apelativo, sobretudo se pensarmos que as ofertas da capital se situam à distância de um olhar. Os mais novos só para ali vão quando, de todo, não encontram outras alternativas. São essencialmente os mais velhos, procurando um complemento às reformas, que se mantêm mais assíduos no trabalho das salinas. Além do mais, continuam a não existir contratos, permanecendo a inconstância sazonal do ofício. As máquinas facilitam hoje a vida destes homens, que já não correm entre pranchas na procura de perfazer o moio de sal que havia de lhes render mais uns escudos no final da semana.
Efectivamente, é já a fresadora que prepara o sal para a rapadura, é o guincho que substitui o trabalhador na arte de puxar o sal para a borda com o intuito de secar e deixar escorrer o magnésio, e é a passadeira quem transporta o mineral para a serra. Porém, os salineiros continuam a possuir a tez curtida pela mistura do sol com a salinidade das águas em que se movimentam dentro dos talhos quando rapam o sal que emerge, rude e cortante. Continua a ser necessário verificar os níveis de água e de salinidade de cada talho, moirar e supervisionar quando há peças aptas para serem rapadas. Desgastados pelo tempo e pela companhia corrosiva do mineral, por vezes os motores recusam-se a trabalhar. Nessas alturas tudo o mais pára porque é necessária a totalidade dos braços para ajudar a carregar o motor de substituição. Quando a passadeira da máquina de transporte se parte, a serra de sal cessa de crescer e há que esperar pelo técnico da câmara que assegura o funcionamento da maquinaria. Contudo, a urgência de outros tempos, quando todo o cristal recolhido tinha escoamento garantido no mercado, já não existe. É quase seguro que as cerca de 900 toneladas de sal que compõem a serra irão ficar em espera até encontrarem um comprador interessado. Longe vai o tempo em que as próprias fábricas de salga e secagem de peixe mandavam pessoal para ensacar e transportar o mineral.

Manuel Nicolau, apesar da idade, mantém-se no ofício que lhe ocupou a maior parte da sua existência. Este ano, uma vez mais, antes que a chuva chegue e abra buracos na pilha de sal, ele assistirá à sua cobertura, com palha obtida nos pauis ribatejanos. Após a colocação das habituais 10 a 15 camadas de ponjas e respectivas cintas de lama, será ele quem subirá à serra para colocação do combro, rematado a lama, que “não deixará que o vento pegue na palha”.
Foi também ele o herdeiro das formas do último marnoteiro, com as quais, utilizando o sal de embate, vai fazendo os tradicionais pãezinhos de sal. E continua a ser ele quem, pelas 6:00h da manhã, lança chave ao cadeado que nos abre os portões deste admirável mundo velho: o Museu do Sal, ali mesmo às portas de Alcochete.


Glossário do salCanastras / cestas onde era transportado o sal, com capacidade para cerca de 56litros;
Cintas / camada de lama colocada à volta das ponjas e no combro, com a finalidade de segurar a palha que cobre a serra;
Combro / camada de palha colocada no topo da serra rematando as várias ponjas que protegem o sal. O apuro na elaboração do combro vai tornar a serra mais ou menos duradoura;
Marinha / nome também dado à salina;
Marnoteiro / trabalhador responsável pelo funcionamento de toda a salina;
Moio / cerca de 840 litros de sal, 15 canastras a 56 litros cada;
Moirar / fase em que a água fica a evaporar, ganhando por isso salinidade;
Pãezinhos de sal / elaborados a partir do sal de embate que é colocado dentro de formas de madeira, com desenhos talhados em alto-relevo. São tradicionais em
Alcochete;
Ponja / chama-se a cada camada de palha disposta em altura para cobrir a serra;
Rapar / puxar e juntar o sal em pequenos montes para escorrer e limpar do magnésio antes de ser colocado na serra;
Sal de embate / cristaliza nas águas remexidas pelo vento (móveis), ficando um sal fino e gomoso que, precisamente por estas características, se mostra o melhor para manter a estrutura dos pãezinhos de sal;
Serra de sal / é formada pelo sal, depois de escorrido, que aí fica a secar até ao fim da safra sendo posteriormente protegido por uma cobertura de palha;
Talharia / conjunto dos talhos que formam a salina
Talho / rectângulo de terreno escavado onde o sal cristaliza;
Viveiro / encontra-se na parte mais elevada da marinha de forma a poder encher-se na preia-mar e despejar na baixa-mar, sendo aí controlada a quantidade de água que se mantém na marinha.





28 JUNHO . JULHO . 2006 . REVISTA VEGA
Texto e fotografias Anabela Oliveira

31 maio 2007

O nosso dialecto





No sitio do Instituto Camões, fui encontrar numa das suas páginas sobre a História da Língua Portuguesa, alguns registos sonoros sobre os dialectos portugueses onde numa divisão geográfica, Alcochete se encontra referenciado como “Dialectos portugueses centro-meridionais: do centro interior e do sul”.
Este estudo mostra-nos as variações linguísticas em Portugal e compara-as.

Para ouvir basta clicar nos links abaixo e acompanhar com o texto.

Alcochete 1

Alcochete 2

Alcochete 3

Alcochete 4

Alcochete 5

Alcochete 6


Fonte: Instituto Camões

04 maio 2007

Padre João Rodrigues II



“P. Joaõ Rodrigues Giram, Jezuita, n. de Alcouchete, missionário no Japaõ, f. em 1633. E. Seis Cartas sobre a Missam, que andam nas Colleçoes.”

Excerto do livro “Summario da Bibliotheca Luzitana” de Diogo Barbosa Machado e Bento José de Souza Farinha, publicado em 1786.

Neste livro não consegui encontrar o “outro Padre João Rodrigues”.

Fonte: Google Books

27 abril 2007

Padre João Rodrigues



Em muitas pesquisas, procurando por Alcochete, um nome esbarrava constantemente no meu ecran. João Rodrigues, padre e missionário jesuita no Oriente. Esta minha pesquisa alongou-se quando em muita bibliografia, este nome teimava aparecer, juntando-o a Alcochete. Não raros foram os casos, em que autores, em primeiro lugar colocavam Alcochete como local de nascimento e depois suscitavam a dúvida em parêntesis com outra possível localidade, Sernancelhe.

No livro “Portuenses Ilustres” de Sampaio Bruno, escrito em 1906, o autor refere essa duvida, mas coloca Alcochete em primazia. Já em outros livros, como no “Memorias de Literatura Portugueza” da “Academia Real das Sciencias”, publicado 1856 na sua pagina 143 e “Macau e sua Diocese” escrito por Manuel Teixeira e publicado em 1979 na sua página 258, relacionam o Padre João Rodrigues e o seu nascimento com Alcochete. Em toda a minha pesquisa, apenas num livro é referido concretamente uma “confusão com outro missionário do Japão com mesmo nome nascido em 1558” em Alcochete. Este livro, o “Anais” da “Academia Portuguesa de Historia” de 1946 é que tende a desvanecer a questão, mas realmente entre 1558 e 1561 existiram dois jesuítas missionários portugueses com o mesmo nome em terra do Sol Nascente e um deles definitivamente era alcochetano.




No site da Câmara Municipal de Sernancelhe existem largas referências ao Padre João Rodrigues e à sua obra, bem como a informação que foi imortalizado, dando o seu nome a ruas e escolas.
Deixo então a biografia oficial, presente no referido site.


Padre João Rodrigues nasceu em Sernancelhe em 1560 ou 1561. Com apenas 14 anos saiu de Portugal em direcção à Índia. Em 1580 chegou ao Japão por intermédio da Companhia de Jesus. Ao serviço da Companhia dedicou-se ao ensino da gramática e do latim. Alguns anos mais tarde concluía os estudos em Teologia em Nagasaki. Foi a Macau para ser ordenado sacerdote e, tendo regressado ao Japão, tornou-se intérprete, servindo como agente intermediário nas compras feitas às naus estrangeiras. Conhecido como comerciante, diplomata e político, Padre João Rodrigues acabaria expulso do Japão no ano de 1610. Regressado a Macau, iniciou uma série de investigações com vista ao conhecimento das origens das comunidades cristãs ali estabelecidas desde o século XIII. Considerado um clássico para o conhecimento do Japão, Pe. João Rodrigues foi o autor da primeira gramática da língua japonesa e escreveu a “História da Igreja no Japão”. Apontado como um vulto da cultura universal, faleceu em Macau em 1633.


Do Alcochetano Padre João Rodrigues existiu uma sombra de 450 anos, que agora teve um momento de luz.



Fontes: Camara Municipal de Senancelhe e Google Books

Dr. Manuel Simões Arrôs






No blogue "Praia dos Moinhos", tomei conhecimento do falecimento do Dr. Arrôs.
Considerando este homem como um marco na nossa comunidade, presto-lhe também a minha homenagem, transcrevendo o texto elaborado pelo Sr. Fonseca Bastos e colocado no seu blogue.


"Em memória do Dr. Simões Arrôs"

"Só agora tendo tomado conhecimento do falecimento do Dr. Manuel Simões Arrôs, ocorrido no passado dia 9, aos 96 anos, e lamentando, profundamente, que o passamento dessa invulgar personalidade alcochetana seja resumido em 11 linhas no jornal da terra (?), por imperativo de consciência reproduzo aqui, com as necessárias actualizações, o que acerca dele escrevi, em 2003, no defunto «Tágides».

Durante meio século tratou da saúde à maioria dos pais e avós de famílias tradicionais de Alcochete: camponeses, funcionários públicos, salineiros, operários, forcados e marujos.

Só os mais antigos residentes conheciam o Dr. Manuel Simões Arrôs, que desempenhou todos os cargos clínicos do concelho durante cerca de meio século: delegado e subdelegado de saúde, médico camarário, da Misericórdia, da "Caixa", de três secas de bacalhau e, no final da carreira, também em três fábricas.

Levado na onda pelo sogro, ajudou a fundar o Aposento do Barrete Verde, em 1944. Oito anos depois seria até presidente da Direcção.Era uma das memórias vivas de Alcochete, desde 1943, preciosamente refrescada pela da esposa, campeã em datas.


A juventude


A 6 de Dezembro de 1910 nascia o primeiro médico da "Caixa" que houve em Samouco e Alcochete. Veio ao mundo e cresceu entre lutas operárias, em Braço de Prata (Lisboa).
Acaba por se formar na Faculdade de Medicina do Porto, em 17 de Outubro de 1941, obtendo a primeira colocação na vila alentejana de Ourique poucos dias depois.
Chega a Alcochete em 31 de Março de 1943, admitido por concurso público como "médico camarário" para a freguesia de Samouco, onde se desloca, de bicicleta, duas vezes por semana ou sempre que há casos urgentes.

Médico do povo e da Misericórdia

A 2 de Maio de 1944 é nomeado médico da Casa do Povo de Alcochete e, em 1951, o então director e médico residente do Hospital de Alcochete (situado à época na ala esquerda do actual edifício da Santa Casa da Misericórdia) era o Dr. José Grillo Evangelista - muito conceituado na vila e cujo nome seria perpetuado, anos depois, numa artéria da urbanização dos Barris.
Esse clínico desentende-se com a mesa da instituição e resolve sair, sendo substituído nas funções de médico e director pelo jovem Simões Arrôs.
O hospital cresce em importância e, em 1957, virá a ser criado um centro de assistência aos tuberculosos. O médico Simões Arrôs incumbe-se dele, a partir de 1 de Julho desse ano. Tais serviços serão extintos a 31 de Julho de 1978.

Médico dos primeiros operários fabris

Em 1958 é inaugurada a fábrica de pneus Firestone, que angaria localmente a maioria dos quadros médios e dos trabalhadores menos qualificados. O Dr. Simões Arrôs é o primeiro médico dessa empresa, da qual vem a ser afastado, em meados da década de 70, em circunstâncias nebulosas e por influência de um padre. Entretanto, em 1959, chegavam também as fábricas de secagem e de preparação de bacalhau da Terra Nova. Primeiro instala-se a Bacalhau de Portugal, a seguir a Pescal e, por fim, a Sociedade Nacional dos Armadores do Bacalhau (SNAB).
O Dr. Simões Arrôs será médico em todas, vindo a ser afastado da Pescal e da SNAB, no princípio da década de 70, quando, numa reunião da União Nacional (partido único do regime), um capataz da empresa diz a amigos que o "chefe do reviralho em Alcochete" é Simões Arrôs. Presente, o "patrão" almirante Henrique Tenreiro manda despedir o clínico.

Ficará só na Bacalhau de Portugal até a empresa se extinguir, porque o seu responsável era também assistido por ele e sempre se recusou a aceitar a exigência de afastamento feita por Tenreiro.Na senda da industrialização, em 1963 e 1965, respectivamente, abrem também as as fábricas de alumínio (Português-Angola, já encerrada) e de latoaria Ormis (hoje a multinacional Crown, Cork & Seal), nas quais o Dr. Simões Arrôs exercerá também funções.
Nesta esteve até ao princípio da década de 90, tendo sido a sua última ocupação profissional.


Médico da Previdência

Em 1961, quando o Dr. Grillo Evangelista se reforma, o colega Simões Arrôs substitui-o como subdelegado de saúde no concelho. A 1 de Julho de 1972 será também nomeado delegado de saúde.Entretanto, a 1 de Julho de 1962 era contratado pela Caixa de Previdência de Setúbal para a Casa do Povo de Alcochete (a primeira existiu no n.º 7 da Rua do Amaral, no edifício onde hoje está a sede social do Grupo Desportivo Alcochetense). A assistência médica torna as instalações acanhadas e a Casa do Povo transitará então para a Rua do Chão do Conde.Em 1963 é inaugurado o posto n.º 16 (Alcochete) da Caixa de Previdência, de que vem a ser o primeiro director, seguindo-se, a 1 de Julho de 1966, o cargo de médico do posto n.º 5 da Previdência (no Montijo). A 1 de Janeiro de 1974 virá a ser também nomeado médico-chefe deste posto.
Em Março de 1968, a mesa da Misericórdia decide que as tarefas de enfermagem ficam a cargo de uma irmandade religiosa, gerando-se um litígio com a enfermeira-chefe da época, o qual levará, em 1 de Abril, à demissão colectiva da equipa médica e da enfermeira (esposa do Dr. Simões Arrôs, com a qual viria a casar, em segundas núpcias, em 1973).
A 6 de Dezembro de 1980 cessa funções como médico municipal e delegado de saúde, por ter atingido o limite de idade (70 anos).
A 1 de Setembro de 1982 sai também da Caixa de Previdência por estar à beira dos 72 anos de idade.


Histórias de "João Semana"

De meados da década de 40 o Dr. Simões Arrôs recordava-se (em 2003) do caso de um doente com tuberculose, que medicou com várias embalagens de estreptomicina, na época uma droga de preço elevado e fora do alcance de gente pobre.
A comparticipação pública na aquisição de medicamentos era então somente concedida a beneficiários, o que não era o caso desse paciente, pelo que os familiares teriam de pagar integralmente as embalagens necessárias.
Como essa família era muito pobre, o clínico Simões Arrôs decide emitir as receitas em nome do beneficiário, de modo a evitar despesas insuportáveis.
Mas Alcochete era uma aldeia, em que toda a gente se conhecia e revia quase diariamente, e, dias depois, o tesoureiro da Casa do Povo pergunta ao clínico qual a razão porque emitira receitas em nome de um paciente gozando de boa saúde, pois estivera com ele. Semanas depois a Casa do Povo queixa-se do Dr. Simões Arrôs aos serviços centrais da Previdência, que enviam um inspector para tirar o caso a limpo.
Este manda chamar todas as pessoas a quem o clínico passara receitas "suspeitas" e elas confirmam terem sido emitidas a seu favor. Logo, o clínico não estava a desviar medicamentos em proveito pessoal, como constaria de uma denúncia que o dava como homem rico.
Não podendo pegar-lhe por aí, o inspector dá ao caso contornos políticos. E avisa o Dr. Simões Arrôs de que, embora nada de reprovável fosse detectado, possivelmente seria demitido por ter fama de ser "comunista" - coisa que, na época e na terra, era comum ser apontado a algumas pessoas influentes.
Em meados da década de 40 tal "acusação" equivalia a ser despedido do Estado. Pior ainda no seu caso porque, anos antes, quando frequentava a faculdade de medicina, batera com as costas nas tarimbas do Aljube, da Penitenciária e da sede da PIDE.
Em 2003 confessava-me que nunca foi comunista, embora lidasse com a miséria do povo e detestasse o Estado Novo. E se alguma influência a propaganda marxista teve nos seus ideais de vida, quando viaja à URSS, em 1972, tudo se desmorona ao descobrir pedintes nas ruas e miséria como a de Alcochete.

A fundação do Aposento do Barrete Verde

A participação do Dr. Simões Arrôs na fundação do Aposento do Barrete Verde, em 1944 - cerca de um ano após assentar arraiais no concelho - faz-se por influência de seu sogro, Virgílio Jorge Saraiva, amante da festa brava e ligado à organização das festas anuais desde o seu início, em 1942.
O Aposento nasce num almoço organizado por António Luís Regatão, farmacêutico e então proprietário da Farmácia Gameiro, repasto para o qual Dr. Simões Arrôs é convidado pelo sogro.
Em 2003, com 91 anos e uma visão desapaixonada da política recente e do desenvolvimento da vila, era ainda indiscutível referência do concelho.
Todos os anos, no seu aniversário natalício, recebia inúmeras homenagens de gratidão.
Em lugar de destaque guardava cerâmicas e salvas dedicadas por forcados, bombeiros, colectividades artísticas e desportivas e pelos Centros de Saúde de Montijo e Alcochete.
Ao longo da vida foi ainda presidente das direcções do Aposento do Barrete Verde (em 1952) e dos Bombeiros Voluntários de Alcochete, bem como presidente da Assembleia Geral da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898. Tratou (e ainda tratava em 2003, esporadicamente) de forcados e jogadores de futebol do Alcochetense, do Vulcanense e do Grupo Desportivo do Passil.


Principais homenagens






Em 14 de Fevereiro de 1981, almoço de homenagem organizado por dois amigos, no qual participaram cerca de 300 pessoas, tendo então recebido a medalha de mérito da Câmara Municipal de Alcochete.
Em Setembro de 1982 foi também homenageado pela vila de Alhos Vedros, onde durante muitos anos presidiu às juntas médicas que determinavam as reformas antecipadas de trabalhadores.
A 25 do mesmo mês, homenagem dos trabalhadores do posto médico do Montijo, que lhe ofereceram um relógio em ouro.
A 10 de Junho de 1991, homenagem do Governador Civil de Setúbal, que lhe entrega a medalha de mérito do distrito.
A 10 de Fevereiro de 2001, almoço de homenagem promovido pelo Aposento do Barrete Verde, que dá o seu nome a uma das salas da sede. Associa-se a Câmara Municipal de Alcochete, cuja edilidade lhe outorga a medalha dourada de mérito (o mais alto galardão do município). O almoço teve tal afluência que as inscrições tiveram de ser encerradas uma semana após o seu anúncio, por se ter esgotado a lotação da sala.
Em 2006 o município de Alcochete concedeu-lhe nova distinção honorífica.

Embora algo tenha escrito sobre o assunto e muito mais debatido com responsáveis autárquicos, nunca consegui que, em vida, o Dr. Manuel Simões Arrôs recebesse a honra que mais ansiava: ter o seu nome perpetuado numa artéria da vila.Continuo a considerar que todas as honrarias e os gestos de gratidão devem exprimir-se durante a vida das pessoas. Infelizmente, continua a ser norma que apenas os defuntos têm direito a emprestar o nome a uma rua. Não conheço lei que a tal obrigue, nem nunca ninguém me deu uma explicação aceitável.Simões Arrôs merecia tê-lo na rua do Centro de Saúde de Alcochete, a que, há anos, deram o nome do capitão Salgueiro Maia."


Transcrito de: "Praia dos Moinhos"
Fotos cedidas por Fonseca Bastos

23 abril 2007

Procissão Fluvial




No passado dia 15 de Abril, recebi o seguinte mail que passo a transcrever:

"CARO SENHOR
VI O CIRIO DOS MARITIMOS DE ALCOCHETE NO SEU BLOG;
DAR-ME-IA GRANDE GOSTO SE PUDESSEMOS ENCONTRAR-NOS NAS MINHAS IDAS À PÁTRIA PARA FALARMOS DA SENHORA DA ATALAIA E ENTREGAR-LHE UM CD ROM COM A HISTÓRIA DE 1887 E ALGUMAS IMAGENS, UMAS ANTIGAS OUTRAS DA PROCISSÃO QUE REINICIÁMOS HÁ DOIS ANOS.
ESPERO, PELO MENOS, ENCONTRÁ-LO COM OS QUE FOREM DE ALCOCHETE NA PROCISSÃO PELO TEJO QUE ESTE ANO SERÁ A SEGUNDA DO SÉCULO XXI DEPOIS DE QUASE UM SÉCULO DE INTERRUPÇÃO; NOS DIAS 2 E 3 DE JUNHO A PARTIR DO CAIS DA MOITA. ESPERAMOS QUE AS EMBARCAÇÕES DE ALCOCHETE ESTEJAM PRESENTES PARA LEVAREM QUEM QUEIRA IR.

OS MELHORES CUMPRIMENTOS

F. CARVALHO RODRIGUES"




Além de passar informação sobre esta procissão, estou grato pela visita ao meu blog e mostro o meu interesse sobre a informação histórica que tem para divulgar. Mediante o meu tempo disponivel, irei por tudo tentar estar presente.

Alcochetano

04 abril 2007

Cirio dos Maritimos

Os círios dos marítimos chamavam-se outrora "círios dos marítimos casados e solteiros de Alcochete", resultando de uma profunda fé em Nossa Senhora da Atalaia, padroeira dos marítimos alcochetanos. A origem do actual círio é desconhecida e pode remontar a épocas bastante recuadas, eventualmente coevas, embora haja documentação que aparenta comprovar a sua existência no ano de 1502. Mas subsistem algumas dúvidas na datação, impossíveis de esclarecer até ao momento.
Note-se que por marítimos não se entendia os pescadores mas gente ligada à produção e condução de barcos, o que incluía calafates, carpinteiros, serventes, marujos e outros tripulantes. Ultimamente, porém, quase só os pescadores assumem a responsabilidade da realização da festa, porque a maioria das tradicionais profissões navais extinguiu-se, tendo desaparecido também os arrais e as embarcações típicas do Tejo. Luís Marques considera também que o círio dos marítimos é uma das mais arcaicas e raras manifestações profanas. Numa obra posterior – intitulada «Círio dos Marítimos de Alcochete» – Mário Balseiro Dias descreve uma lenda, segundo a qual, "em época remota, um barco navegava no rio Tejo e uma tempestade surpreendeu-o. Aflito, um dos barqueiros prometeu a Nossa Senhora da Atalaia que, caso se salvasse com os companheiros, organizaria uma confraria para festejá-la anualmente. Como o tempo amainou e puderam alcançar terra a salvo, desde então os marítimos alcochetanos têm cumprido a promessa". O mesmo autor refere que, segundo um documento de 1512, já então existia a Confraria dos Barqueiros de Alcochete.

O círio realiza-se anualmente, durante quatro dias, sempre na Páscoa, tendo uma cruz do festeiro (do séc. XIX e em prata), um guião de seda lavrada e actualmente cerca de uma centena de bandeiras (de cetim e bordadas, pintadas ou estampadas).Constitui a mais antiga tradição conhecida na vila de Alcochete e é uma espécie de ritual para a população da borda d'água (durante séculos caracterizada por marítimos ligados a actividades dependentes do rio). É da tradição que, no período do círio, os romeiros (hoje cerca de um milhar) almocem e jantem em conjunto, com refeições preparadas e confeccionadas sob a responsabilidade do festeiro. A logística dos repastos não é fácil, bastando referir que, normalmente, consomem-se 5 bovinos, 250 quilos de bacalhau, 500 quilos de peixe e mais de uma tonelada de batatas.

Ser festeiro no círio simboliza poder e riqueza, por lhe caber a organização da dispendiosa festa. Antigamente era festeiro quem invocava ter feito uma promessa, ou apresentasse outra justificação aceitável, obtendo prestígio indirecto através dos filhos. No desfile da tarde de domingo as mulheres montam em burros, sentando-se de lado e sempre com as pernas voltadas para o lado direito, devendo os animais ser alindados com flores campestres e lençóis brancos decorados por rendas. As solteiras envergam fatos novos e seguem à frente, as casadas atrás. A última mulher do desfile é a esposa do festeiro. Ao casal cabe convidar senhoras solteiras e casadas que integrarão o cortejo. É o popularmente conhecido "cortejo dos burros".
As mulheres são, assim, o elemento social em evidência neste rito secular alcochetano. Luís Marques assinala no livro atrás citado que, ao exporem-se e ao passearem-se pela vila, afirmam o seu controlo na sociedade. As casadas representam a autoridade e as solteiras anunciam a continuidade. O homem tem papel secundário, tanto mais respeitado quanto a esposa ou a filha se evidenciem no cortejo, pelo que é posto cuidado especial na indumentária e no arranjo e decoração do burro que as transporta.

Na segunda-feira, por volta das 09h00, junto à Igreja Matriz de Alcochete, inicia-se a romaria a pé à Atalaia. Em 2002 foram cerca de duas centenas as pessoas que percorreram os 6km de distância. À chegada à Atalaia os romeiros dirigem-se à igreja, onde assistem à missa, seguindo-se o almoço e a procissão (à frente da qual vai o filho do festeiro, ladeado pela juíza e o juiz. Incorporam-se o guião do círio e a imagem de Nossa Senhora da Atalaia, escutando-se em fundo o rufar do tambor do "Chininá"). Antes da missa os romeiros entregam ao festeiro as bandeiras arrematadas no ano anterior, pagando o valor da arrematação e recebendo em troca um símbolo (a medalha) que colocam no peito. No período da manhã são também entregues as fogaças a leiloar. As bandeiras novas serão benzidas durante a missa e posteriormente entregues ao festeiro, a fim de integrarem o leilão da tarde. As bandeiras e as medalhas identificam o círio e o seu valor define uma hierarquia no funcionamento da festa. As bandeiras contêm, normalmente, uma representação da Senhora da Atalaia, a identificação da localidade, do ofertante e por vezes também a data e a graça obtida. As medalhas são de três tamanhos (as maiores e mais valiosas apenas exibidas pelo filho do festeiro, juíza e juiz), sendo feitas pela esposa do festeiro com cartão, tecido, papel de alumínio e missangas. Constituem, normalmente, representações de motivos náuticos (barcos sobretudo). De notar que as "fogaças", um bolo típico de Alcochete, são os doces pães desta festa popular. Cada ofertante leva sete fogaças para o leilão realizado à porta da igreja da Atalaia, uma por cada dia da semana e pesando individualmente um quilograma, augurando abundância e afastando infortúnios. As fogaças podem ou não constituir o pagamento de uma promessa.Com esse ritual cumprem-se votos antigos e o arrematante compromete-se a trazer outras tantas fogaças ao leilão do ano seguinte.Comer as fogaças oferecidas ao círio, segundo relatos antigos, torna a pessoa e a colectividade a que pertence indemnes à peste e às pragas. O leilão das bandeiras principia pela mais valiosa, o guião. Os arrematantes ficam na posse das bandeiras durante um ano e o guião é guardado pelo festeiro. No final da tarde de segunda-feira, após o regresso do círio a Alcochete, organiza-se novo desfile do círio no circuito tradicional na zona histórica da vila, montando novamente as senhoras os burros. Os novos arrematantes vão atrás, num ruidoso cortejo automóvel, exibindo as bandeiras que guardarão durante um ano. Os ex-detentores de bandeiras prendem uma medalha ao peito. Na noite desse dia, na Casa do Círio, em Alcochete, realiza-se um beberete oferecido pela juíza, pelo juiz e pelo festeiro do ano seguinte. Na terça-feira há novo almoço na Casa do Círio, seguindo-se, ao final da tarde, o desfile na zona histórica de Alcochete de inúmeros pares de jovens, à frente dos quais seguem o filho do festeiro, a juíza e o juiz, ostentando os seus distintivos. A festa termina com um derradeiro e muito aguardado jantar, novamente na Casa do Círio. Há 35 anos fazia-se a festa com 12 contos, actualmente chega a custar 9.000. O financiamento das despesas resulta apenas da arrematação das bandeiras e das fogaças, à porta da igreja da Atalaia, paga somente no ano seguinte. Assim se preserva a tradição secular do Círio dos Marítimos de Alcochete, que descrevemos apenas sucintamente, cuja continuidade nem sempre tem sido fácil. Respeitar e compreender esta romagem e o seu significado profundo na vida local é o que se pede aos alcochetanos de hoje e do futuro.