27 dezembro 2006

Igreja da Atalaia

Já fora do concelho de Alcochete, a Atalaia diz-nos muito enquanto alcochetanos, quer por proximidade, quer por devoção reliogiosa. Encontrei na Wikipédia um texto que não foi verificado, mas que por curiosidade o coloco no blog. Se o leitor encontrar algum erro, ou queira deixar a sua opinião, a caixa de Comentários está sempre disponivel. Pode também contribuir para alcochetano@gmail.com

A Atalaia possui dois dos mais emblemáticos monumentos do concelho: a Igreja/Santuário de Nossa Senhora da Atalaia e o Cruzeiro da Atalaia.
A primeira, cuja fundação pensa-se ser responsabilidade dos empregados da Alfândega de Lisboa, aquando de uma Peste, data de 1507. Contudo, os registos mais antigos desta Igreja surgem só por volta de 1525, por ocasião de uma visita da Ordem de Santiago. Edifício maneirista, foi reedificado no século XVIII. Também desse século são os azulejos azuis e brancos, que revestem as paredes interiores e ilustram cenas da vida da Nossa Senhora. Quanto ao cruzeiro, mandado erguer pela Confraria de Lisboa em 1551, é feito de pedra lioz e apresenta um estilo gótico-bizantino. O culto a Nossa Senhora da Atalaia tem origem numa lendária aparição da Virgem, no topo de uma aroeira e junto à fonte que, depois, se tornou santa. Tal prodígio, cedo se tornou ponto de atracção de uma concorrida romaria, construindo-se, então, um primeiro edifício religioso, em cujo altar se colocou uma imagem de Nossa Senhora. Até ao momento, não foi possível identificar a exacta cronologia destes acontecimentos, mas é certo que, nos inícios do século XVI, o culto à Virgem da Atalaia era já bastante importante, a ponto de os oficiais das alfândegas se obrigarem a fazer uma romaria anual logo em 1507 (FONSECA, 1944, p.6). Por outro lado, e tendo em conta algumas informações do século XIX, alguns círios (dos muitos que se desenvolveram em torno da devoção) reclamavam ser anteriores ao reinado de D. Manuel (COSTA, 1887, p.31). Finalmente, temos indicação de que, por 1540, concluía-se a cobertura da fonte santa, a expensas da Câmara de Alcochete. Com base nestas indicações, fácil se torna sugerir que a primeira metade de Quinhentos terá sido um período de forte incremento do culto na Atalaia, eventualmente relacionada com a própria afirmação das vilas de Alcochete e de Aldeia Galega enquanto sedes concelhias, sem esquecer a conjuntura religiosa da época, fértil em novos cultos, marcados pela modernidade, em detrimento das antigas devoções baixo-medievais. A construção do principal cruzeiro no adro do Santuário não escapa a estas condicionantes e a sua cronologia reflecte bem o período de apogeu que, então, o monte da Atalaia viveu. Construído em 1551, conforme dupla inscrição na base da cruz, ficou a dever-se à confraria de Lisboa, certamente uma das mais importantes (senão, mesmo, a mais importante) de quantas chegaram a constituir-se. O monumento compõe-se de duas partes distintas. Ao centro, ergue-se o cruzeiro propriamente dito, com representação escultórica de Nossa Senhora da Piedade, numa das faces, e Cristo na Cruz, noutra, ambas repousando num capitel que, por sua vez, assenta sobre uma coluna monolítica de base rectangular. A envolver o cruzeiro, existe uma estrutura quadrangular alpendrada, suportada por quatro colunas e rematada em cúpula, por sua vez sublinhada por pináculos triangulares nos ângulos. O grupo escultórico é o principal elemento deste monumento, apesar de se encontrar em mau estado de conservação e, em algumas partes, truncado. A Piedade constitui uma das cenas mais representadas em cruzeiros deste género, razão por que aparece em primeiro plano, a todos quantos cheguem à Atalaia; na face voltada ao santuário, retratou-se a Crucificação, completando, desta forma, os dois momentos essenciais da Praixão de Cristo. No conjunto, merece também destaque o capitel que suporta este conjunto escultórico, onde se inseriu um pequeno laço terminando em volutas, composição que, pela técnica fina de execução e pela forma, se integra nitidamente no vocabulário renascentista. Até 1987, o nível do terreno esteve à altura das bases das colunas, tendo-se, nesse ano, desafrontado o monumento e construído a actual caixa de cimento que o protege. Esta foi a solução encontrada para fazer face à constante subida da cota do terreno, particularmente gravosa nas últimas décadas, em consequência do notório abrandamento do culto dos círios no arraial. Do grupo de cruzeiros da Atalaia fazem ainda parte outros dois, colocados lateralmente ao santuário, respectivamente nas estradas para Pegões e Alcochete. São elementos posteriores ao primeiro, provavelmente do século XVII (um deles possui a inscrição de 1669) e testemunham o carinho com que os vários círios - forma de religiosidade colectiva, assente na romaria, que dispensa a intercessão de ministros da igreja (MARQUES, 1996, p.55) - foram enriquecendo a aldeia de referentes religiosos, para lá das suas próprias casas de acolhimento, que rodeiam ainda o arraial.

27 novembro 2006

Património V - Centro Paroquial




Época Construção

Séc.XV (conjectural ) / XVI / XIX

Cronologia

Séc. 15, início - primeiras referências documentais à família dos Pato, sabendo-se que morava então em Alcochete Gonçalo Fernandes Pato que teve dois filhos, Martim Viegas Pato e Brites Gonçalves Pato; Séc. 16 - já existia o edifício, pertença da família Pato, apenas com dois pisos, anexos de cavalariças, pátio do cavalos e armazéns situados na antiga R. das Canas; séc. 19 - o antigo Solar é pertença da família Nepamuceno de Aldeia Galega, sendo então acrescentado um 3º piso e provavelmente o actual terraço e as ferrarias forjadas; a casa já não compreendia os edifícios baixos dos armazéns e o pátio dos cavalos era então um jardim; sec. 19, último quartel - passou para a posse de José Estevão de Oliveira e de Adelina de Carmo Oliveira, filha do Comendador Estevão António de Oliveira Júnior; séc. 20, inícios - adquirido por António Dias Gouveia e sua mulher Maria Eugénia de Oliveira Gouveia (irmã da anterior proprietária então casada com Joaquim Gomes de Carvalho); após a morte do casal a casa passou a Maria dos Prazeres Dias de Gouveia Abrantes que o deixou em herança a seu filho António Gouveia Abrantes; séc. 20, década de 70 - por morte do anterior proprietário passou para a sua viúva Maria Aliete de Gouveia Abrantes.
Tipologia
Arquitectura civil, quinhentista, pombalina, oitocentista. A espessura das paredes bem como as vigas de carvalho sob os arcos da casa dos Carros atestam a sua antiguidade. O tratamento independente dado aos dois primeiros registo do corpo principal e a diferença na espessura dos muros comprovam que, de início, o edifício não possuía o terceiro piso que lhe foi acrescentado já no séc. 19, numa solução de compromisso entre a estética pombalina - as janelas de sacada com gradarias de ferro forjado - e oitocentista com laivos de revivalismo na moldura em arco quebrado das janelas.
Características Particulares
Um dos solares renascentistas ainda existentes em Alcochete, apesar de muito alterado, evidenciando um notável rigor na disposição dos alçados, simétrica e ritmicamente rasgados de sóbrios vãos, animados apenas pelos varandins em ferro forjado.

25 novembro 2006

Património IV - O Pelourinho



Época Construção

Séc. XVI / Idade Moderna

Cronologia

"1450 - período de grande desenvolvimento da vila incrementado pelo Infante D. Fernando, Duque de Viseu, irmão de D. Afonso V, 12º Grão Mestre da Ordem de Santiago e pai de D. Manuel; 1515, 7 de Janeiro - D. Manuel deu-lhe foral; data provável de construção do pelourinho; 1955 - parte da coluna do pelourinho encontrava-se no átrio dos Paços do Concelho; 1969 - a Câmara manifestou interesse em reconstruir o pelourinho, integrando-o no largo onde inicialmente estivera; 1988 - a totalidade do pelourinho perdeu-se existindo apenas um fragmento da parte superior do fuste"


Património III - Sociedade Imparcial



Época Construção

Séc. XV (conjectural) XVI / XVII / XIX

Cronologia

"Séc. 15 - Vasco Gil Moniz, filho de Gil Anes escrivão da puridade do condestável, casa-se com D. Leonor de Lusignan, filha de Febo de Lusignan (filho bastardo de João II, rei de Chipre), dando origem ao ramo dos Monizes Lusignano; D. Leonor de Lusignan viera de Aragão enquanto dama de D. Isabel mulher do Infante D. Pedro; Séc. 15 / 16 - construção do Solar dos Monizes de Lusignano; Séc. 18 - o proprietário do Solar é Nuno Álvares Pereira Pato Moniz (1781 - 1826), poeta e grande amigo de Bocage; Séc. 19 - existiam em Alcochete duas sociedades musicais de que faziam parte elementos das famílias dos Cebola, Nunes e Grilo; 1802 - fundação da primeira "Philarmonia" de Alcochete; Séc. 19, meados - elementos destas famílias constituem o 1º grupo musical da vila chamado "Sociedade de Recreio"; 1895, 25 de Setembro - extinto o Concelho de Alcochete que é anexo ao de Aldeia Galega; 1898, 13 de Janeiro - Decreto de restauração do concelho de Alcochete com as freguesias de Alcochete e Samouco; quinze dias dantes da restauração do Concelho a Sociedade passa a chamar-se "Sociedade de Recreio 15 de Janeiro"; data provavelmente deste tempo a reconstrução do edifício, tendo-se demolido em grande parte o antigo Solar (destruída a escada de pedra que dava ingresso ao amplo salão e entaipadas as colunas da entrada); antes de passar para a posse da Sociedade o último proprietário fora Carlos Augusto Nunes; um dos sócios mais ilustres da Sociedade era o pianista João Baptista Nunes Júnior autor do Hino da Restauração do Concelho; 1913, Janeiro - é confirmada a existência da sociedade musical e baptizada com o nome actual; tinha inscritos então c. de 600 sócios; 1994, 6 de Março - inauguradas as novas instalações da sede musical."

Tipologia

"Arquitectura civil, renascentista, seiscentista, barroca, oitocentista. Edifício de raiz quinhentista, ou mesmo quatrocentista. A espessura das paredes no andar térreo, com c. de 70 c., atestam a antiguidade do imóvel. Do séc. 16 parecem subsistir alguns elementos como as diferentes colunas no interior e o portão que abre para a Rua do Comendador. Possui uma varanda do séc. 18 sobre o portão da fachada S., e um arco de abóbada no interior, da mesma época; a fachada principal adquiriu com a reforma oitocentista uma feição neo-classicizante."

Características Particulares

Um dos maiores edifícios da vila, só encontrando rival no Asilo Barão de Samora Correia e no Antigo Solar dos Soydos testemunhando a importância e grandeza do antigo solar. A sociedade foi no tempo uma escola artística que dominaria a vida cultural da vila durante vários anos. As estátuas em cerâmica da platibanda com paralelos das existentes na Casa dos Bustos



Património II - Ermida de Santo António de Ussa



Época Construção
Séc. XVI (conjectural) / XVIII
Cronologia
"1585 - os terrenos da Barroca, de origem terras da Coroa, encontravam-se na posse de Álvaro Afonso de Almada; 1619 - o fidalgo André Ximenes de Aragão, cavaleiro da Ordem de Cristo (6º filho de Duarte Ximenes de Aragão e de Isabel Rodrigues da Veiga e irmão de Fernão Ximenes de Aragão, rico mercador), institui, em testamento com sua mulher D. Maria Ximenes, um morgadio de 10 mil, cruzados que tinha como sede a Barroca d'Alva e importância de que era credor ao Duque de Bragança; a administração deste vínculo passou depois a um filho de nome Tomás e, por morte deste, a um seu sobrinho, Jerónimo; deste passou a outro sobrinho, Rodrigo Ximenes de Aragão e depois a seu neto Francisco Inácio Ximenes Coutinho de Aragão Barriga e Veiga; foi depois o morgadio herdado por Rodrigo Caetano Pereira Coutinho Barriga e Veiga seu filho bastardo; nesta altura já a maior parte das terras da Barroca tinham revertido para a Coroa; 1747 - Jácome Ratton (1736 -1822) chega a Portugal; 1767 - Ratton obtém da Coroa o arrendamento perpétuo das terras da Barroca e inicia no local uma plantação de amoreiras e criação de bichos-da-seda; procede ao arroteamento dos terrenos incultos, enxugo de pântanos, limpeza de valas, etc.; nos terrenos existia então, segundo o próprio Ratton, apenas uma ermida, dedicada a Santo António (2), com casa anexa em ruínas, que eram pertença da comenda de São Tiago de Alcochete; Ratton teria procedido ao restauro da ermida, mantendo as suas características (3); 1810 - perseguido por suspeita de colaboração com os franceses durante as invasões, Ratton exila-se em Inglaterra; durante a sua ausência será o seu filho Diogo Ratton a assumir a direcção dos negócios; senhor do Prazo da Barroca d'Alva, membro da Comissão de Obras Públicas e membro fundador da Sociedade Promotora da Indústria Nacional, conclui as obras do primitivo solar da Barroca, hoje desaparecido; 1876 - José Maria dos Santos, compra a Barroca e courelas anexas ao Barão de Alcochete, Jacques Léon Daupiás, filho de Bernard Daupiás, 1º Barão e 1º Visconde de Alcochete, casado com Emília Júlia Ratton, sua prima, e herdeira da Barroca por via paterna; 1913 - morre José Maria dos Santos passando a direcção dos seus negócios para o seu sobrinho António Santos Jorge pai do actual proprietário Samuel Lupi Santos Jorge."
Tipologia
"Arquitectura religiosa renascentista, maneirista. Edifício de planta circular, com cobertura em cúpula esférica, com protótipos italianos do alto renascimento, do tipo bramantino. Modelo invulgar no país, a capela enquadra-se na tipologia das cubas alentejanas aqui defendida por dupla cintura de muralhas ameadas. Os vestígios do pórtico de entrada, em frontão semicircular, conduzem sempre aos formulários italianizantes de quinhentos."
Características Particulares
Capela fortaleza sem paralelos conhecidos em Portugal, destaca-se pelo equilíbrio das massas e pela racionalidade geométrica da sua planimetria, constituindo aparentemente um exemplar único de puras formas renascentistas, divinamente enquadrado pela paisagem envolvente.

Património I - Biblioteca

Depois de ler um post no Blog "Praia dos Moinhos" sobre um dos edifícios condenados de Alcochete, vasculhei o site monumentos. pt e achei, novamente, a riqueza da nossa terra.
Não posso deixar de concordar com "Praia do Moinhos", " O património edificado deve ser respeitado." A nossa História não pode acabar desta maneira.
A Biblioteca
Época Construção - Séc. XV / XVI (conjectural)
Arquitecto, Construtor, Autor - Desconhecido
Cronologia
"Séc. 15, 2ª metade - D. João II e a corte por várias vezes estabeleceram residência em Alcochete; o Infante D. Fernando, enquanto Grão-Mestre da Ordem de Santiago a que a vila pertencia, reedificou-a, tendo muitos fidalgos, sob seu incitamento, aí construído os seus palácios, sendo Alcochete solar de muitas famílias nobres; é provável pois que este antigo solar de que se desconhece a data de construção e o nome dos primeiros proprietários, fosse edificado por esta época ou no século seguinte; séc. 18, início - este solar estava na posse de Estevão António de Oliveira, dito Estevão o Velho, pai do Comendador Estevão António de Oliveira Júnior; 1826 - o proprietário restaura o imóvel sobretudo a nível de interiores; por morte do proprietário passou a sua filha Gertrudes de Oliveira Simões que a deixou a um sobrinho conhecido por Estevinho; posteriormente foi vendido em hasta pública e remodelado a nível dos interiores para albergar vários inquilinos; 1971 - instalação no 1º andar da Biblioteca Municipal - Biblioteca fixa da Fundação Calouste Gulbenkian."
Tipologia

"Arquitectura civil, quinhentista, renascentista, maneirista, pombalina, oitocentista. Edifício solarengo de planta composta por casa com varanda alpendrada com colunas toscanas, e pátio murado com portão de fogaréus pombalino; subsistem alguns elementos de traço maneirista como o perfil de algumas portas e o tratamento das vergas de janelas conjugando-se com elementos já pombalinos e vernaculares como a platibanda de cerâmica elemento característico do burgo alcocheteano. Interiores muitos descaracterizados com portadas de finais de Oitocentos."

31 outubro 2006

O Sal - Parte 2

"(...)António Sérgio acentuou a importância da salicultura na economia portuguesa desde o tempo da romanização e durante os primeiros séculos da nacionalidade e Virgínia Rau publicou vários estudos sobre a história do sal português. Luís Cadamosto, navegador e comerciante veneziano, do século XV, ao serviço de Portugal, descreveu como se trocava o sal por ouro entre os nativos nas costas da Guiné. No século XVI há notícias de terem chegado ao Tejo e ao Sado mais de 250 barcos, sobretudo alemães e holandeses, em apenas seis dias, para carregarem sal.

Chamou-se Sal de Santa Maria a um imposto pago pelos proprietários da barcos. D. Sebastião decretou o monopólio da exploração salina para custear a malograda expedição de 1587. Os pescadores do Norte da Europa, onde o clima é desfavorável e a salinidade do mar é fraca (7,2 g/l, no Báltico), abasteciam-se aqui de sal a caminho da pesca do bacalhau na Terra Nova. Restaurado Portugal em 1640, a dívida aos estados que nos ajudaram a expulsar o domínio espanhol foi paga com sal, então considerado o melhor de toda a Europa. Nessa época punia-se com a pena de morte todo o marnoto nacional que ousasse ensinar aos galegos, nossos concorrentes, a arte das salinas.

As nossas salinas proliferaram nas embocaduras dos principais rios, do Lima ao Guadiana (Castro Marim), sendo actualmente ainda importantes as de Aveiro (iniciadas no século X), da Figueira da Foz, do Tejo (em Alcochete), de Setúbal e da Ria Formosa, esta última responsável por 50% da produção nacional de sal, considerado de óptima qualidade. A importância do sal está bem testemunhada no Museu do Sal, em Alcochete, uma lição sobre a salicultura portuguesa e a vida dos salineiros ou marnotos.

Em termos ambientais, o abandono da actividade salineira e a destruição das salinas está a pôr em risco a sobrevivência de muitas aves migratórias que aí fazem escala. Na construção da Ponte Vasco da Gama, no Tejo, a preservação das antigas salinas do Samouco fez-se pela expropriação e recuperação desta área, com vista à preservação da importante fauna que alberga, tendo sido criada, em 28 / 22 / 2000, a “Fundação para a Gestão do Ambiente das Salinas do Samouco”.

No nosso dia-a-dia e na tradição de um saber antigo, salga-se o bacalhau e temperam-se com sal as azeitonas, os queijos e os enchidos. Salsicha e salpicão são, como o nome indica, enchidos temperados com sal. Ainda se prepara, com muito sal, a massa de pimentão, no Alentejo; está-se a perder o atum em salmoura e quase já se perdeu a sardinha de barrica, a carne e o toucinho da salgadeira e os queijinhos guardados no sal. Lá fora, salga-se o arenque, prepara-se a choucroute e conservam-se o caviar e os ovos de galinha (na China), que assim podem durar anos.(...)"

O sal pertence à nossa história e lendo a antiga trova que o Prof. Galopim de Carvalho colocou no meio da sua conferência, não consigo deixar de pensar quem tanto lutou no meio dos talhões para dar comida aos seus filhos.

“Ó ondas do mar salgado,
donde vos vem tanto sal?
Vem das lágrimas choradas
nas praias de Portugal.”

Transcrito de : A. M. Galopim de Carvalho, Museu Nacional de História Natural ,Conferência pronunciada na abertura da Feira dos Minerais, Gemas e Fósseis, de 2003

22 outubro 2006

Paço Real de Alcochete e Álvaro Velho

Antiga vila, cuja origem se perde nas brumas do passado, sobranceira ao rio Tejo, ao seu imenso estuário que quase se assemelha ao mar oceano, Alcochete foi desde sempre uma terra privilegiada em águas, ares e vastos horizontes por onde as suas gentes desde sempre espraiaram os seus sonhos, as suas vidas.

A 31 de Maio de 1469 nascia em Alcochete o rei D. Manuel I, posteriormente cognominado "o venturoso". Da ligação à vila que o viu nascer pouco se sabe, porém, cremos que a mesma não se tenha limitado a um nascimento ocasional, mas antes desse nascimento tivesse surgido uma ligação afectiva mais duradoura, atestada pelo Paço Real que existiu então, ou já existiria antes do nascimento do soberano. Devido à sua situação geográfica, privilegiada pelos arejados espaços da sua malha urbana, e pela relativa proximidade a Lisboa, capital do Império, Alcochete constituía, sem dúvida, uma vila de eleição para residência temporal da Corte, principalmente em períodos de peste, que periodicamente assolavam a capital.

Em 1498, Vasco da Gama chegava à Índia comandando uma frota composta por três navios: S. Gabriel, S. Rafael e Bérrio. A Álvaro Velho caberia a tarefa de escrever o roteiro da viajem, personagem a quem vários historiadores e alguns curiosos atribuem como terra de nascimento, o Barreiro.Este mesmo Álvaro Velho a determinada altura no seu roteiro refere: «Esta vila de Melinde (…) está assentada ao longo de uma praia, a qual vila se quer parecer com Alcochete, e as casa são altas e mui bem caiadas e tem muitas janelas» (1).

Se, tal como é referido por vários historiadores, Álvaro Velho era natural do Barreiro, lógico seria que conhecesse bem Alcochete, pela sua proximidade geográfica à primeira das povoações. Porém, mais lógico será a analogia que o autor refere no seu roteiro caso frequentasse amiudadamente a Corte em Alcochete, dado ser um homem de confiança do rei D. Manuel I e por esse facto querer distinguir o soberano, comparando Melinde a Alcochete.

Num maço de documentos descoberto há pouco pelo autor no Arquivo Distrital de Évora, encontram-se transcritas uma série de cartas datadas de 1508 a 1513, correspondência essa, trocada entre Álvaro Velho e o soberano. Na altura, era Álvaro Velho vedor e recebedor das obras do Mosteiro de S. Francisco na cidade de Évora, e paralelamente, grande proprietário nessa cidade (2), que regista ainda hoje em dia um largo com o seu nome.
Refira-se que as obras do convento de S. Francisco foram iniciadas em Maio de 1508 e concluídas em Maio de 1509 (3). A correspondência enviada pelo rei a Álvaro Velho é proveniente dos paços de Almeirim, dos Paços de Alcochete e dos paços de Lisboa. No entanto, uma única carta se encontra datada de Alcochete como segue: «Nós el-rei vos enviamos muito saudar. Mestre Olival veio a nós nos requerer algumas cousas acerca das obras que for nesse mosteiro. E quanto ao mais dinheiro que nos pediu que lhe mandássemos dar por respeito da mais obra que acrescentou no retávolo (…) com ele assentamos que fizesse cento trinta mil oitenta reis. E por que ele se obrigou a nos dar feita e acabada toda a dita obra, que assim agora com ele concertamos até um ano cumprido que começa a correr da feitura desta carta, avemos por bem que lhe paguem estes cento trinta mil oitenta reis que nele monta aos meses (…) Escrita em Alcouchete aos 28 de Março de 1508, Rey.
Para Álvaro Velho, do despacho de Mestre Olival 4.Embora não seja referido o dia, numa carta datada de 1508, dos paços de Almeirim, Mestre Olival endereça da seguinte forma a carta a Álvaro Velho: «Ao virtuoso senhor Álvaro Velho, vedor e recebedor das obras do Mosteiro de S. Francisco da cidade de Évora, por especial mandado de sua Alteza» (5).

Pela forma com Álvaro Velho é tratado, de que são exemplo as passagens destas duas cartas, conclui-se que seria personagem da estima do soberano. O ser natural do Barreiro, não podemos neste momento afirmar que o não fosse, mas o facto de ser grande proprietário em Évora, Alentejo, região de onde (provavelmente) era natural Vasco da Gama, e com ele ter embarcado para a Índia, suscita-nos dúvidas quanto ao ter nascido no Barreiro, terra, aliás, onde até hoje não foi encontrada referência à sua passagem e muito menos documentos de propriedades suas.


Quanto ao paço real de Alcochete, sabido que o terramoto de 1755 o destruiu certamente, tal como Lisboa e toda a zona ribeirinha do Tejo, talvez não seja difícil de localizar, atendendo aos avanços que a arqueologia urbana tem registado nos últimos anos.

(1) Vasco da Gama e a sua Viagem de Descobrimento, pg.67
(2) Cópia e leitura de Documentos do Cartório da Câmara de Évora (1440-1598)
(3) Papéis pertencentes à Administração dos Pastos. Resumo das Propriedades, rendas e direitos que ao Concelho d'esta cidade de Évora pertencem que estão na Torre do Tombo que foi feito no ano de 1536
(4) Documentos pertencentes à cidade de Évora
(5) Idem, ibidem

Transcrito de “Comunidades.Net”

20 outubro 2006

Retalhos da Vida de Manuel, o primeiro


Acerca de Manuel, nascido em Alcochete, encontrei na Biblioteca Nacional, “Chronica do Sereníssimo Senhor Rei D. Manoel” escrita por Damião de Góis numa edição 1749, que simplesmente não resisto em deixar alguns links, para se ler sobre um do maiores monarcas do Mundo.

Esta crónica de Damião de Góis, dirigida inicialmente ao Cardeal- Infante D. Henrique, filho de Manuel, aparece aqui impressa (conforme original) com data de 1749 de modo a ser oferecida a D. Rodrigo António de Noronha e Menezes por Reinerio Bocache.


Do Nascimento

A sucessão

Falecimento

As feições de Manuel

As feições (continuação)

Esta obra pode ser vista na sua totalidade aqui.

10 outubro 2006

Mais uma curiosidade

Em periodo agitado de trabalho, e resolvidos os problemas com a Internet, deixo mais uma curiosidade de 1512. Uma cópia de alvará municipal que diz o seguinte na sua descrição:

“Cópia do alvará que derrogou aos moradores de Alcochete os privilégios que tinham contra as posturas do concelho, guardando-se somente o do secretário, ao qual isentou de todas as ditas posturas.”

23 de Outubro de 1512

Documento 1

Documento 2

A quem quiser participar neste blog, poderá sempre fazê-lo através de alcochetano@gmail.com


Até breve

25 agosto 2006

Interessante descrição

Neste Site, fui encontrar uma interessante descrição da nossa freguesia. Aqui fica:
"A antiga vila de Alcochete é de povoamento muito antigo, bem anterior à fundação da Nacionalidade. A data da sua primeira ocupação não pode ser determinada, mas o seu topónimo expressa bem a ligação ao mundo árabe e a manutenção do seu uso certifica a continuação do povoamento, desde essa época.
Na toponímia da própria freguesia de Alcochete, além deste vocábulo, há outros dois que corroboram esta antiguidade, são eles Carias e Alva e, Barroca d'Alva. Estes três topónimos representam três momentos da história desta região, mais ou menos sucessivos. Alcochete representa o domínio muçulmano, Carias a ocupação moçárabe e Alva o repovoamento, com gente do norte, desta área, após a reconquista.
A ocupação arábica de Alcochete não surpreende visto estar inserido numa região de domínio muçulmano efectivo e florescente, não longe de Lisboa e no termo do castelo de Palmela, que, com efeito, ia do estuário do Sado ao do Tejo ao mar. Alcochete era um domínio desta notável fortaleza árabe e continuou a sê-lo depois da Reconquista Cristã no ano de 1147. A povoação de Alcochete entrou nos domínios da Ordem de Santiago quando esta recebeu em seu domínio e guarda a península que os dois estuários formam com o mar. É deste período de domínio da milícia espatária que data o repovoamento e a presença dos frades senão professos pelo menos afiliados.
O local manteve-se sem importância de maior significado até ao século XV altura em que o grão-mestre da Ordem de Santiago era D. Fernando, filho do rei D. Duarte, e escolheu Alcochete para sua residência, com fidalgos da sua casa. O infante fez notáveis construções com os seus vassalos, aumentando de tal forma a importância da povoação a ponto de D. João II a elevar à categoria de vila. O rei D. Manuel que, pelo que todos os indícios apontam, aqui nasceu em 31 de Maio de 1469, concedeu-lhe foral, em Lisboa, a 7 de Janeiro de 1515. Alguns autores afirmam, no entanto, que a tradição municipal de Alcochete remonta a épocas anteriores, pelo menos ao século XIV. O dr. Rui de Azevedo afirma que este concelho era constituído por pequenas “pobras” da orla transtagana em poder da Ordem de Santiago, formadas, em grande parte, como medida para proceder à exploração de salinas desde o segundo quartel do século XIII. Estaria então integrado nos denominados “concelhos do Ribatejo” que viria a desaparecer quando dois dos lugares que o integravam, Aldea Galega e Alcochete, se lhe sobrepuseram em importância.
Alcochete teve o seu nome associado à aristocracia portuguesa. Os Barões de Alcochete, de que o primeiro foi Bernardo Daupiás, nascido a 9 de Novembro de 1782 em Lisboa, foi Comendador de Cristo, Cavaleiro da Conceição, oficial da Legião de Honra em França, do Conselho de Sua Majestade, Conselheiro de Legação e Cônsul Geral aposentado. Foi agraciado com o título de Barão em duas vidas por decreto de 26 de Maio de 1836 e, por decreto de 18 de Fevereiro de1852 foi elevado a 1.º Visconde de Alcochete. Bernardo Daupiás era um abastado proprietário da região de Alcochete, onde, entre outros possuía o Prazo de Barroca d'Alva a que pertencia a herdade de Rio Frio. Quando esteve em Paris como encarregado de negócios teve o encargo de cuidar da infanta D. Maria, futura D. Maria II, quando esta permaneceu num convento daquela cidade a completar a sua educação."

02 agosto 2006

O Sal


“Não se sabe ao certo quando é que a actividade salineira terá surgido, neste concelho mas supõe-se que na dominação romana já existisse, pois a indústria de salga do peixe e a preparação do “garum” encontrava-se em franco desenvolvimento em toda a margem sul do rio Tejo.
Os árabes também se ocuparam nesta actividade, tendo deixado testemunhos através dos utensílios de trabalho – diversas pás, as adufas e o bombeiro.
Segundo documentos antigos, os Alcochetanos tinham profissões de escudeiros, marnoteiros, carreiros, mareantes, barqueiros, sapateiros, cavadores e feitores.
A partir do séc. XV, a povoação adquiriu maior importância e tornou-se centro abastecedor de Lisboa. A população local contribuiu bastante para o projecto dos Descobrimentos, tendo o seu sal abastecido as caravelas e naus que partiram para o Oriente, onde foi utilizado como moeda de troca.
O sal foi sempre um produto importante nesta zona e era extraído em grande quantidade. Durante o Séc. XVII, Alcochete assistiu a um grande desenvolvimento da exploração do sal. Após um período de menos actividade, no sec. XVIII Alcochete voltou a atrair a nobreza, pois ai se instalou o comerciante francês Jacome Ratton que, entre muitas inovações nos diversos sectores económicos, introduziu novos mecanismos para movimentar a água das salinas, que se estendiam ao longo das margens da Ribeira das Enguias.
Durante o séc. XIX e a primeira metade do sec. XX, Alcochete voltou a ser considerado um importante centro produtor de sal, desenvolvendo-se economicamente e enraizando as suas tradições.
No entanto, na década de 50 deste século, diversos factores levaram à diminuição da produção de sal no nível nacional, situação que também atingiu Alcochete, tais como: a auto-suficiência de países tradicionalmente consumidores do nosso sal; o enfraquecimento da navegação à vela que o transportava como lastro; o aparecimento de sistemas de refrigeração e o seu emprego nos navios da pesca de bacalhau (os principais consumidores de sal). Assim, passou-se rapidamente de pais exportador para a situação de importador.
Apesar disso, o sal como qualquer actividade económica dominante num determinante lugar, tem concedido, ao longo de gerações, uma identidade cultural à população ribeirinha deste concelho, embora este produto, que pelo seu valor e simbolismo chegou a ser denominado de “ouro branco”, não tenha enriquecido quem lhe dedicou toda a sua vida (os salineiros eram uma classe simples e carenciada economicamente).
Os salineiros habitavam, maioritariamente, no Bairro das Barrocas, juntamente com os Pescadores. São considerados a figura mais importante do concelho, devido à enorme importância que as marinhas de sal tiveram noutros tempos.”

Transcrição do livro “Nos Caminhos do Sal”

20 julho 2006

Ratton



Industrial e negociante da praça de Lisboa; deputado do tribunal supremo da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação; fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da ordem de Cristo. Sendo francês de nascimento, tornou-se português pela sua naturalização.

Nascera na cidade de Monestier de Briançon, na província do Delfinado, mais tarde departamento dos Alpes, em França, a 7 de Julho de 1736. Faleceu em Portugal cerca de 1822. Era filho único de Jacome Ratton e de Francisca Bellon, natural da mesma cidade.
Pouco depois do seu nascimento vieram seus pais para Portugal e aqui se estabeleceram com uma casa de comércio, de sociedade com Jacome Bellon, seu cunhado, o qual já estava estabelecido no Porto. Depois de fixarem definitivamente em Lisboa a sua residência, mandaram vir o filho, que chegou aqui em 7 de Maio de 1747, e completaram em Portugal a sua educação, toda dirigida no sentido do comércio, cuja teoria e prática conhecia perfeitamente quando, em 1758, seus pais o instaram para casar, visto ser filho único. Escolheu então para sua mulher a Ana Isabel Clamouse, filha do cônsul francês no Porto, Bernardo Clamouse. Pouco depois foi encarregado da liquidação da casa comercial de seus pais e tio, que lha tinham cedido, ao retirarem‑se para França. Desde logo manifestou uma grande actividade e uma arrojada iniciativa, nos mais variados assuntos do comércio, indústria e agricultura. A primeira coisa que projectou foi, em 1764, uma fábrica de chitas, que suscitou o estabelecimento de outras, e depois uma de papel. Em Elvas fundou uma fábrica de chapéus finos, e outra em Lisboa. Em 1789, associando-se com outro francês ilustríssimo Timóteo Lecussan Verdier, fundou a fábrica de fiação de algodões de Tomar, que tanta importância deu aquela terra. Promoveu a criação de outras empresas importantes, para as quais encontrava largo auxílio no governo, que então era o do Marquês de Pombal, sempre tão empenhado em desenvolver a indústria, a agricultura e o comércio da nação portuguesa. Foi em 1762, que Jacome Ratton se naturalizou cidadão português.

Em 1767 tratou de explorar umas marinhas de sal importantes na Barroca de Alva, nas proximidades de Alcochete. Para esse fim aforou uma grande extensão de terrenos incultos, conhecidos pelo Sapal de Pancas; depois enxugou pântanos, saneando lugares onde nunca se criara um homem, fez grandes culturas, construiu uma casa magnífica para sua residência, e fundou finalmente um valiosíssimo estabelecimento agrícola e industrial. Muito dedicado à arboricultura, fez aqui, entre outra outras tentativas, um viveiro de amoreiras brancas de que podia dispor de 12.000 pés. De árvores exóticas plantou neste lugar o primeiro eucalipto que houve em Portugal. A primeira araucária, bela árvore que se admira na quinta dos duques de Palmela, no Lumiar, foi também importada por Jacome Ratton.

Em 1788 foi nomeado deputado da Junta do Comércio e depois fidalgo cavaleiro da Casa Real, recebendo ao mesmo tempo o hábito de Cristo. Vivia tranquilo, respeitado, considerado e feliz, rodeado de seus filhos, escrevendo as suas memórias, quando em 1807 veio a invasão francesa de Junot. É provável que, apesar de se achar naturalizado português, ou não desgostasse de ver tremular aqui a bandeira do seu país, ou pelo menos mantivesse relações amigáveis com os seus ex-compatriotas. Tudo isto é natural. Mas ainda que Jacome Ratton se conservasse completamente afastado do governo de Junot, bastavam o seu nome de estrangeiro, a sua ilustração e o seu espírito naturalmente inclinado às ideias do progresso, para o indigitar como jacobino. Assim o trataram, e foi Jacome Ratton uma das vítimas da famosa Setembrizada. Já em Junho de 1810, por informações que a Regência enviara para o Rio de Janeiro, fora demitido do lugar de deputado da Junta do Comércio, em que esteve durante mais de vinte e dois anos, prestando notáveis serviços.
Na noite de 10 para 11 de Setembro do referido ano de 1810, foi preso para a Torre de S. Julião e transportado cinco dias depois para bordo da fragata Amazona, que o devia conduzir, juntamente com outros jacobinos, para a ilha Terceira, onde chegaram a 24 do mesmo mês. À força de súplicas e de empenhos, conseguira Ratton que lhe permitissem exilar-se voluntariamente para Inglaterra. Passou então para bordo da fragata inglesa Lavinia, a qual tinha seguido a Amazona desde o Tejo até à ilha Terceira, comandada por Lord William Stuart. Ratton, como outros companheiros, tinha passaporte do ministro britânico em Lisboa para passar à Inglaterra, mas os governadores do Reino retiveram esses passaportes e Ratton ainda esteve preso no Aljube de Angra e deveu à diligencia de Lord Stuart o passar sem demora para bordo da Lavinia, que o levou a Portsmouth, donde partiu para Londres. Aqui, junto de seu filho José Luís, que havia pouco fora de Portugal para se estabelecer em Inglaterra, escreveu e publicou, em 1813, a obra intitulada: Recordacoens de Jacome Ratton, fidalgo cavalleiro da Caza Real, cavalleiro da ordem de Christo, ex-negociante da praça de Lisboa, e deputado do tribunal supremo da Real Junta do Commercio, Agricultura, Fabricas e Navegação. Sobre occurrencias do seu tempo, em Portugal, durante o lapso de sessenta e tres annos e meio, aliás de maio de 1747 a setembro de 1810, que rezidio em Lisboa: acompanhadas de algumas subsequentes reflexoens suas, para informaçoens de seus proprios filhos. Com documentos no fim. Londres. Impresso por H. Bryer, Bridge Street, Blackfriars, 1813. Esta curiosíssima obra constitui um volume de 969 páginas, com o retrato do autor desenhado por H. L'Eveque e gravado por J. Vendramini, e uma planta das suas propriedades da Barroca de Alva. É de uma grande importância pela vasta cópia de informações e de esclarecimentos que encerra, tudo acompanhado de reflexões, quase sempre judiciosas, e de anedotas interessantes, relativas principalmente ao governo do marquês de Pombal e à reacção que se lhe seguiu. Não pôs à venda exemplar algum, e limitou-se a brindar com eles os seus amigos. Por morte destes vieram alguns exemplares para o mercado, mas em diferentes épocas parece que houve interessados no seu desaparecimento, tornando-se o livro tão raro quão apreciado. Quando em 1815 se fez a paz geral, pôde Jacome Ratton regressar a Lisboa e acabar aqui tranquilamente os seus dias nos fins de 1821 ou princípios de 1822.
Ainda em 1816 publicara no Investigador portuguez um artigo Pensamentos patrioticos. Imperio luso. Seu filho Diogo Ratton foi feito barão de Alcochete e Inocêncio, no seu Dicionário Bibliográfico, declara não saber se são dele se de seu pai os seguintes opúsculos, intitulados: Reflexões sobre o papel-moeda e Reflexões sobre o commercio e fazenda, publicadas em 1822. Pinheiro Chagas, no seu Dicionário Popular, inclina-se que estes escritos sejam de Diogo Ratton. Jacome Ratton foi ascendente directo do conde de Daupias, um esclarecido industrial, falecido em 1900.

por Manuel Amaral, In Arqnet
Por tudo quanto este homem fez por Alcochete trazendo o progresso, acho que o destaque é merecido...

11 julho 2006

Igreja Matriz (Parte 2)

Aqui neste post, tentei mostrar a redução de certas descrições sobre um dos mais importantes marcos históricos do nosso concelho. Assim, tentei também mostrar que as suspeitas de que a Igreja Matriz tenha sido anteriormente uma mesquita, não esteja provado totalmente.

Este texto que abaixo deixo, do IPPAR, é talvez a mais completa descrição (resumo) da nossa Igreja.
"No século XV, em pleno período de afirmação da dinastia de Avis, Alcochete era uma vila ribeirinha próspera. Dispunha de um paço real (muito provavelmente destruído aquando do terramoto de 1755) e era um dos mais importantes centros da Ordem de Santiago, cujos principais nomes, incluindo o seu mestre, aqui tinham casa e aqui residiam durante largas temporadas do ano. A actual igreja Matriz é o mais singular produto dessa favorável conjuntura e data dos meados da centúria, do período de mestrado de D. Fernando (1443-1470), irmão de D. Afonso V e pai de D. Manuel. Sobre o portal principal, as duas cruzes do seu duplo mestrado, de Avis e de Santiago, são uma marca inequívoca deste marco histórico e cronológico, anunciando, no presente como no passado, a tutela do empreendimento.Artisticamente, a igreja é um templo heterogéneo, cuja deliberada busca de monumentalidade não disfarça a vigência de correntes estéticas díspares, tão características do século XV português.O plano arquitectónico geral representa uma forma de arquitectura religiosa gótica tradicional, cuja origem recua aos primeiros exemplos do século XIII, mais precisamente à obra de Santa Maria do Olival, de Tomar, e aos ensaios mendicantes de Santarém e de outras cidades do reino. A opção por um corpo de três naves (neste caso com quatro tramos), separadas por arcarias longitudinais, e tecto de madeira, e por uma fachada principal ad triangulum, com portal inscrito num alfiz e uma rosácea axial a coroar o segundo andar, são características essenciais do Gótico paroquial nacional, tipologia arquitectónica e espacial que, partindo do século XIII, teve grande impacto nos séculos da Baixa Idade Média e foi ainda bastante utilizada nos alvores da modernidade.Mas, se esta é a impressão geral imediata, existe uma segunda tendência estética, menos perceptível, é certo, mas igualmente relevante. Ela testemunha-se, entre outros locais, no portal lateral Sul - a única parte do templo que foi assinada por um enigmático mestre A. (Afonso?). O recurso a capitéis de dois andares e, principalmente, o perfil cairelado do seu arco, são marcas inconfundíveis do tempo tardo-gótico de ascendência batalhina, o que prova como o projecto quatrocentista de Alcochete detinha recursos económicos suficientes para atrair homens formados no maior estaleiro do país - o Mosteiro da Batalha.Ao longo do século XVI, e seguindo uma tendência visível na maior parte do reino, o interior da igreja foi progressivamente enriquecido com capelas devocionais e funerárias. Das várias então construídas, resta a de Pero Lourenço e sua mulher, do lado Norte do tramo oriental do corpo, espaço quadrangular abobadado e com acesso através de um arco quebrado encimado pela cruz da Ordem de Cristo. A da família Mascarenhas, cuja lápide evoca ainda a sua memória, foi completamente destruída pelas reformas posteriores.No século XVII, a história deste templo conheceu um período importante, na sequência da descoberta de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que logo se instituiu como uma das principais referências devocionais da comunidade. O projecto então concebido determinou a substituição da velha capela-mor gótica por um compartimento rectangular profundo, iluminado lateralmente e com espaço suficiente para integrar um retábulo monumental. Um documento prova que, em 1740, o estaleiro era dirigido por Carlos Mardel, mas, até ao momento, não se conhece suficientemente bem a natureza dos trabalhos por si desenvolvidos. Por essa altura, pensamos que as obras de arquitectura há muito estariam terminadas - existe a data de 1678 na parede exterior da capela-mor que poderá datar a sua conclusão - e que o projecto se resumia a dotar o interior das imprescindíveis realizações de talha (retábulo-mor proto-barroco ainda do século XVII) e de azulejo (grandes painéis alusivos à vida de Cristo e de São João Baptista) obras que datam, efectivamente da primeira metade do século XVIII."
Chegou há relativamente pouco tempo vinda de restauro, a primeira das quatro enormes pinturas atribuidas ao pouco conhecido pintor Barradas, que estão expostas na Capela-Mor da Igreja-Matriz. As telas representam quatro episódios da vida de João Baptista e depois da "cara lavada", o brilho da primeira tela chama a atenção ao que durante anos esteve escondido atrás do pó. Como não existe bela sem senão, descobriu-se que as dimensões das telas eram superiores e foram no passado vandalizadas.
Fontes: IPPAR

07 julho 2006

Documentos 1

Em mais uma das minhas epopeias de Internet, descobri que a Torre do Tombo tem mais de 800 documentos referentes a Alcochete. Claro, que a pesquisa foi através da palavra “Alcochete”, palavra qual, o respectivo motor procurou em todas as descrições dos documentos.
Assim temos centenas de documentos que vale a pena descobrir... Com tempo...

Um dos documentos é uma Certidão da Câmara de Alcochete datada do dia 1 de Outubro de 1501.



“Certidão da Câmara de Alcochete do registo de uma ordem do Duque sobre o contrato da Grã da dita vila e termo, de 1 de Outubro de 1501.”

Documento página 1

Documento Página 2

Documento Página 3


Fonte: Torre do Tombo/IANTT

04 julho 2006

Alcochete como Roma - Igreja da Misericórdia


A igreja da Misericórdia de Alcochete é o mais importante testemunho do período de apogeu de que a vila ribeirinha desfrutou no século XVI. Quer pela sua localização (à beira rio e em provável conexão com o paço real que os monarcas de Avis aqui detinham), quer pela qualidade artística da sua construção (que lhe confere o estatuto de monumento primeiro no contexto de um tardo-renascimento da margem Sul do Tejo), a igreja é uma referência incontornável no passado e no presente de Alcochete.
A sua construção remonta aos meados do século e estaria terminada, com grande probabilidade, em 1563, data inscrita no lintel do portal lateral Sul (o que está virado para a vila), juntamente com uma legenda alusiva à protecção da mater misericordiae. Ao que tudo indica, o projecto ficou a dever-se a um pouco conhecido arquitecto - Fernão Fidalgo, a quem se tem vindo a atribuir as diversas construções monumentais religiosas dos concelhos de Alcochete e de Aldeia Galega (Montijo) nos meados e segunda metade do século XVI.
Com efeito, quer as Misericórdias destas duas vilas, quer a Capela de Nossa Senhora da Vida, em Alcochete, quer ainda a Ermida de Santo António da Ussa, na herdade da Barroca de Alva, são construções unidas estilisticamente por um mesmo padrão tardo-renascentista erudito, "em moldes longinquamente italianizados", de que a Senhora da Vida é a manifestação mais clara (SERRÃO, 2002, p.216). Não restam dúvidas sobre a qualidade, originalidade e monumentalidade da igreja. O espaço foi propositadamente unificado, dispondo-se rectangularmente e diferenciando-se a capela-mor por estar em plano mais elevado que a nave. A cobertura reforça esta unificação espacial de tipo salão, ao compor-se por três panos de caixotões, onde se pintaram os símbolos da Misericórdia. Mas a principal característica do monumento, que o singulariza em relação a outras obras de idêntica funcionalidade, é o corpo quadrangular do narthex, que se adossa à fachada ocidental. Este elemento é também o que confere maior monumentalidade ao conjunto, uma vez que se organiza em dois andares: o primeiro corresponde àquele espaço de preparação para a entrada no templo, com acesso tripartido em cada alçado através de um amplo arco de volta perfeita; o segundo foi concebido como sala de reuniões e Casa do Despacho da Irmandade, impondo-se em altura bem acima do telhado da própria igreja.Findos os trabalhos de arquitectura, a Misericórdia de Alcochete esforçou-se por dotar o interior de elementos devocionais de qualidade. Exemplo máximo disso mesmo é o retábulo-mor, obra efectuada entre 1586 e 1588 e devido a um dos mais importantes nomes da pintura maneirista tardia portuguesa: Diogo Teixeira. Com oficina em Lisboa, a sua obra está documentada a partir da década de 60 e espalha-se por todo o país. Fiel a um formulário ideológico pós-Concílio de Trento, que preconizava o catequismo imagético sobre as pesquisas vanguardistas das décadas anteriores, o retábulo alcochetano é uma das realizações que melhor define o seu trabalho, aqui em parceria com o genro António da Costa.Como espaço sagrado quinhentista, a igreja foi escolhida, por vários membros da nobreza local e da hierarquia da ordem de Santiago, para última morada. A maioria destas sepulturas data dos anos finais do século XVI, contando-se a de D. João de Mascarenhas, D. João de Almeida (neto do conde de Abrantes e provedor da Misericórdia) e o panteão da família Viegas, entre outras (ESTEVAM, 2001, 2ªed., pp.50-59). O capítulo mais recente da história da igreja iniciou-se nos finais do século XX. A 15 de Agosto de 1990, era criado o Museu Municipal de Alcochete, cujo pólo de Arte Sacra foi concebido para se instalar no imóvel. Este, foi restaurado para o efeito, com projecto do arquitecto Vítor Mestre, inaugurando-se em 1993 e assumindo, a partir daí, um lugar de verdadeiro destque no roteiro cultural da vila.
Fonte: IPPAR

27 junho 2006

Alcochete e o Santo Oficio

Talvez a mais negra mancha da história da Humanidade entrou-nos portas dentro. Numa localidade onde todos pensamos estar seguros e que tudo de mal apenas acontece aos outros, a História mostra-nos o contrário. Deixo-vos o testemunho histórico, sem querer fazer qualquer valor de juízo à Igreja, do que se pode encontrar na Torre do Tombo, sobre o Santo Oficio.

Estes processos são os sumários de arquivo de naturais e moradores de Alcochete dos séc XVI, XVII e XVIII, com processos no Tribunal do Santo Oficio.


Processo de Fernão Cardoso: Cristão-Novo

12/02/1558-15/05/1558 Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa,
proc. 5766
Crime/Acusação: Judaísmo
Estatuto Profissional: Mercador
Naturalidade: Alcochete
Morada: Lisboa
Pai: Bento Cardoso Mãe: Isable Fernandes
Estado Civil: Casado
Nome do Cônjuge: Leonor Henriques
Data da Prisão: 12/02/1558
Data da Sentença: [15]/05/1558
Data do Auto de Fé: [15]/05/1558
Outros Dados: O RÉU FOI A AUTO-DE-FE NA RIBEIRA DE LISBOA; APRESENTOU PETIÇÕES:
1) PARA LHE COMUTAREM A PENITÊNCIA PARA O BAIRRO (DEFERIDA)
PARA SER SOLTO E LHE TIRAREM O HÁBITO PENITENCIAL (DEFERIDA); PARENTES PRESOS: A MULHER, LEONOR HENRIQUES (FALECEU NOS CÁRCERES DA INQ.) E O PARENTE DINIS MENDES; 24 FLS., M.C., MANCHADO


Cristão-novo, acusado(a) de Judaísmo, com a profissão de Mercador, natural de Alcochete, morador em Lisboa, de 40 anos de idade, filho de Bento Cardoso e de Isabel Fernandes, Casado com Leonor Henriques. Sentença: Abjuração em forma; cárcere e hábito perpétuo.

Processo de Matias Pereira
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 83
08/08/1671
Frei, acusado(a) de Solicitação, com a profissão de Religioso da Ordem do Ermita de Stº. Agostinho; sacerdote; pregador, natural de Alcochete, morador em Convento de N. Snr.ª da Graça, Lisboa, de 50 anos de idade, filho de Manuel Pereira de Faria e de D. Maria Correia, Sentença: em 08/10/1671, Abjuração de leve; privado de voz activa e passiva e do poder de confessar; 5 anos de suspensão das ordens; 10 anos de reclusão no Convento de Penafirme



Processo de Manuel Fernandes
26/06/1543
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 6207
Cristão-novo, acusado(a) de Participar na fuga de um preso do Santo Ofício; impedir o recto ministério do Santo Ofício, com a profissão de Escrivão, morador em Alcochete, Sentença: Não se provou a participação na fuga.

Processo de Pedro [Pero] Corte Real
22/12/1536-27/7/1543
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 8723
Acusado de Luteranismo e posse de livros proibidos, é fidalgo da Casa d`El Rei, morador em Alcochete, também possuí habitação Lisboa, à Madalena, é viúvo de Isabel de Novais, foi preso nos cárceres de Lisboa, tendo sido sentenciado em Auto de Fé, no dia 26 de Março de 1542, com as sentenças de ir ao Auto de Fé, onde abjure em forma os seus erros heréticos, tenha cárcere por um período de cinco anos num mosteiro que lhe convenha, pague as custa e trezentos cruzados anuais para obras pias. A 25 de Outubro de 1542 pede revisão de sentença tendo-lhe sido concedido um dia semanal para sair do cárcere.

Processo de Jacinto Ferreira
12/9/1758-8/3/1759
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 8907
Acusado de Judaísmo, é oficial de cabeleireiro, natural de Alcochete e morador em Lisboa, junto ao Pombal, freguesia de Santa Isabel, tem 15 anos de idade e por ser menor de 25 foi-lhe nomeado Curador o Pe. Clemente Xavier do Santos, Capelão dos Cárceres desta Inquisição, filho de António Ferreira Dourado, homem de negócio, e de Filipa Joaquina, natural de Santarém, que o seu avô materno se chamava Cristóvão da Costa, é solteiro, tendo sido sentenciado em Mesa, no dia 02 de Março de 1759, com as sentenças de abjuração em forma dos seus erros heréticos, tenha penas e penitências espirituais, instrução na Fé e pague as custas. Foi solto a 08 de Março de 1759

Processo de Henrique Valente de Oliveira
17/8/1655-10/1/1658
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 10646
Acusado de impressão clandestina, é impressor de livros, natural de Alcochete e morador em Lisboa, tem 35 anos de idade, pouco mais ou menos, filho de Manuel Nunes da Costa e de Brites Valente, naturais de Alcochete, é solteiro, tendo sido sentenciado em Auto de Fé, no dia 19 de Novembro de 1657.

09 junho 2006

Nossa Senhora da Vida


Edifício emblemático da frente ribeirinha de Alcochete, a Capela de Nossa Senhora da Vida destaca-se pela sua localização geográfica, praticamente em cunha sobre o rio Tejo, formando um dos vértices da vila.
A sua importância, porém, é também histórica, na medida em que está associada ao Hospital da Misericórdia local, uma das mais importantes instituições alcochetanas ao longo da época moderna.Em 1553, como refere um visitador da Ordem de Santiago, esse hospital já existia e possuía uma pequena capela, "de alvenaria, com um altar também de alvenaria, e sobre ele havia um retábulo de papel grudado em tábua, com um crucifixo e outras imagens de papel. O Espírito Santo estava pintado com os Apóstolos" (ESTEVAM, 1956, p.93).
Tendo em conta que a Misericórdia da Vila foi instituída pelos meados do século, e que o seu templo principal estaria concluído por volta de 1563, tudo indica que o Hospital tenha sido uma das primeiras obras da Irmandade, dando assim pleno sentido à sua própria existência de assistência aos mais necessitados.
O templo que hoje vemos não corresponde àquela descrição do visitador, nem é seguro que se tenha edificado no mesmo local. Com efeito, pouco tempo depois daquela visita, por volta de 1577, D. Afonso Garcia de Figueiredo e sua mulher, Júlia de Carvalho, determinaram a construção deste monumento, dedicado ao Espírito Santo, tendo-se feito sepultar nele, em campa rasa diante do altar-mor. Estamos ainda muito mal informados acerca destes dois nobres, bem como das motivações que presidiram à sua vontade. Em todo o caso, a construção deste pequeno templo não pode dissociar-se das obras que a Misericórdia alcochetana então fomentava.De acordo com algumas informações que necessitam ainda de uma confirmação documental, o arquitecto da obra terá sido o mesmo que esteve envolvido na edificação do templo da Misericórdia, o enigmático Fernão Fidalgo. Os paralelos entre as duas obras foram recentemente colocados em evidência por Vítor Serrão, que realçou a semelhança das naves quadradas, a utilização de cúpulas semi-esféricas nas respectivas capelas-mores, o recurso a "portadas rusticadas de tradição clássica", com aduelas rectangulares de desenvolvido almofadado, e a presença de capitéis de tradição jónica (SERRÃO, 2002, p.216). Por esta breve caracterização, há que forçosamente colocar este templo numa tipologia tardo-renascentista erudita, que tem os seus mais directos antecedentes nas soluções italianizantes que melhor singularizam a nossa produção arquitectónica quinhentista. De planta longitudinal composta por nave rectangular e capela-mor quadrangular, o interior exibe algumas obras rococó de relevância regional. Todo o espaço é percorrido por um silhar de azulejos, datável da segunda metade do século XVIII. A zona central, figurativa, é envolvida por uma moldura polícroma, de contornos irregulares, e cujos elementos concheados adquirem uma expressão muito gráfica. As representações alusivas a episódios da vida de Nossa Senhora, conservam a tonalidade azul e branca, que marcou o período barroco, e são complementadas pelas cartelas superiores e inferiores. As primeiras exibem inscrições referentes à cena ilustrada, e as segundas associam aos temas representados alguns símbolos marianos das litanias, como a rosa sem espinhos, o sol e a lua, entre outros, que reforçam a ideia de pureza e ausência de pecado original. Os retábulos, polícromos e de desenho diferenciado, desenvolvem uma linguagem que denota a influência do neoclassicismo, mais evidente ao nível dos retábulos colaterais. O retábulo-mor, que ocupa a parede fundeira da capela-mor, apresenta tribuna flanqueada por duas colunas, e ático com aletas, coroado por frontão curvo. Num plano ligeiramente mais recuado, e ladeando a estrutura central, abrem-se duas portas, no primeiro registo, a que se sobrepõem os nichos, de remate recortado, que se eleva até ao nível do entablamento da tribuna.


Fotos - Vista area

- Vista do Rio

Fonte: IPPAR

07 junho 2006

Perda e Restauração do Concelho - Conclusão

Finalmente Nosso...

A 15 de Janeiro de 1898 é publicado, no Diário do governo, o Decreto que restaura 51 Concelhos, entre os quais o de Alcochete.

“(...)attendendo ás convenientes informações officiais e tendo em vista conciliar quanto possível as commodidades dos povos com superiores interesses da administração do estado(...)”.

O Século de dia 16 de Janeiro escrevia : “ Indescritível alegria d´este povo pela sua autonomia. As manifestações são geraes e ouvem-se muito vivas ao sr. José Luciano, assim como a todos que se interessaram por tão justa causa. (...) O caes está embandeirado para receber o vapor com todos os grandes influentes. A musica toca hymnos expressamente feitos para este dia pelos nossos amigos Baptista Nunes e Martineau. (...)”

A 25 de Janeiro foram eleitos, o Presidente D. António Luís Pereira Coutinho, o Vice-Presidente, José Luís da Cruz e os restantes vogais. Com a festa passada era necessário colocar mãos à obra de novo. De modo a fazer retornar tudo o que era do Município de direito, apresentou-se D. António Luís Pereira Coutinho em Aldegalega, com a missão de trazer para Alcochete os bens e arquivos do concelho restaurado.
Este acto originou um dos episódios mais marcantes do Processo de Restauração.

Conta Luís Santos Nunes in “O Concelho de Alcochete”

“(...) manifestação impar nos anais da nossa história, sem uma só defecção, o esperaram no limite do concelho, abaixo do convento de S. Francisco, nesse inesquecível dia de 30 de Janeiro de 1898, e em delirante triunfo, desatrelando os cavalos e puxando eles próprios o carro, o conduziram até Alcochete, com os documentos e títulos do arquivo camarário, que ele próprio fora buscar à sede do concelho de Aldegalega”.


Não consigo deixar de transcrever um excerto de um texto do Dr. Grilo, sobre este tema. O titulo do texto “Para os alcochetanos” e podem-no encontrar na sua totalidade aqui no Blog “Praia dos Moinhos”, e aproveito para desde já pedir perdão pelo “roubo” do link.

"Eram às dezenas, às centenas, talvez aos milhares, de toda a parte, cruzando-se e reeruzando-se, estalando ensurdecedoramente. A população do Concelho secundou a da Vila com o mesmo entusiasmo. Chorava-se de satisfação. Chorava-se de alegria. Nas ruas pejadas de gente, abraçavam-se uns aos outros. A filarmónica, reunida à pressa, percorreu as ruas da vila, no meio de muito povo, de muitos vivas, de muito fogo, tocando o «Hino da Restauração» esse Hino que um alcochetano compôs, (João Baptista Nunes Júnior) e que todos nós alcochetanos sabemos cantar e sentir. Ia, enfim, soar a hora da libertação!"

Fontes: "Memorias de um Concelho" e Blog "Praia dos Moinhos"


01 junho 2006

Perda e Restauração do Concelho - Parte 5

A revolta

A revolta pela dependência Administrativa, era alimentada por pequenos folhetos e pela publicação de artigos em jornais como “O Século”. A criação do “Echo d´Alcochete” por João Baptista, ilustra bem esta necessidade de afirmação e de insubmissão.

"A suppressão do concelho de Alcochete

Esbanjamentos

O anno de 1895 foi dos mais ridentes para Alcochete e outras villas que, como esta, foram apunhaladas por esses sentido com que se praticam actos de revoltantes com o nome de medidas económicas; e que o sejam ou não, custa-nos comprehender como, com tanta facilidade e tão pouca cordura, se executam acções d´esta ordem que só podem perturbar a união d um povo pacifico, que só podem mostrar o escândalo ás claras, e a corrupção que germina nesses cérebros esphacelados e desmoronados que á beira do precipício em que se acham, não vacillam em desafiar um contendor!
Triste, profusamente triste e desolador, o aspecto dessa farçada que se representou com todos os personagens d´uma comedia de summa importância em que fuguraram, desde o galan ao vegete, desde o cómico ao cynico!... Não lhes podemos render maiores elogios.
Ao povo, aos patrícios, um viva porque souberam conhecer o seu logar, voltando as costas a esse espectáculo nefando e indecente, pulha e deshonroso, para quem se incumbe de os proporcionar.
A attitude do nosso povo valoroso, repetimos novamente, devia pelo menos infundir n´esses palhaços qual o despreso que nos merecem.
Para que se trata d´estes assumptos, invadindo com tropa uma povoação paciente e cheia de resignação? Será para atemorisar e horrorisar com esses fardamentos essas armas que merecem toda a consideração e respeito quando pregadas em defeza do paiz ou em caso de resistência, mas nunca para servir de affronta a um povo extremamente enluctado e sacrificado por essa machina horripilante inventada para soffrimento d´esse povo que procura allivio brotando lágrimas e copiosos prantos, próprios d´aqules que sentem girar nas veias o sangue da sua pátria?
Não condemnando totalmente as medidas adoptadas pelo nosso governo, cumpre-nos perguntar ainda se o processo para extinguir um concelho é tornar a frontaria da camara e administração, que outr´ora mereciam toda attenção, n´uma verdadeira feira da ladra, fazendo da mobília e outros utensílios dos referidos edifícios o objecto da sua ferocidade com todos os requintes de malvadez.
Não nos parece esta a melhor forma de se desempenhar essa missão ou antes o caminho mais seguro e menos perigoso para chegar ao fim a que se destina.
O quadro d´El-Rei D. Luiz, também não escapou á acção d´esses maltrapilhos, pois foi lançado da janella da câmara como Miguel Vasconcellos, o traidor da pátria pelos confederados por occasião da revolução de 1640. (...)

João Baptista Nunes Júnior, Echo d´Alcochete - Anno I, nº 1, 5 de Janeiro de 1895
Fonte: Memórias de um Concelho

31 maio 2006

Perda e Restauração do Concelho - Parte 4


Torna-se oficial
Em Diário do Governo, nº 220, de 30 de Setembro de 1895, torna-se publica a decisão que se temia desde Março: “São supprimidos: o concelho de Alcochete, cujas freguezias são annexadas ao de Aldeia Galega” (...)

Em acta de Sessão de Câmara da Aldeia Galega de 4 de Outubro de 1895 dá-se conhecimento oficial do novo território a administrar, e que os “archivos já tinham sido conduzidos para esta villa, nos dias 30 de Setembro e 1 do corrente mez, sob as ordens da auctoridade administrativa, o que era publico e do conhecimento de todos”. O jornal O Século de 1 de Outubro conta deste acontecimento da seguinte forma:

“Hoje de manhã cedo, fomos surprehendidos por uma força de caçadores 5, de 30 praças, e um empregado da administração do concelho de Aldegallega, a fim de removerem para ali os archivos das repartições d´este concelho, extincto por decreto. Sahiram já o da câmara e administração, devendo sahir amanhã o da repartição da fazenda e recebedoria. Tal extincção enlutou tanto este povo que tarde sahirá do crepe em que ficou envolto. Não felicitamos os aldegalleguenses, porque Alcochete e Moita saberão estabelecer uma forte corrente para que a justiça se lhes faça, quando no poder haja estadistas reparadores de tão grande injustiça. O povo assiste pacifico a tudo isto.”

In "Memórias de um Concelho", 1993


30 maio 2006

Grupo Desportivo Alcochetense


Numa altura um pouco preocupante para a vida do GDA, que após mais uma Assembleia Geral, em que nada foi decidido a favor da continuação ou nova proposta de uma Direcção para o clube, não posso deixar de mostrar aqui a minha mágoa, pelas possiveis nuvens negras que se abatem num pedaço da história Alcochetana.
Faço uma pausa sobre os posts referentes "Restauração do Concelho", para vos dar a conhecer uma entrevista pouco conhecida, de um dos fundadores do nosso Desportivo.
Não vamos deixar que um pedaço da nossa história acabe assim, de modo tão inglório, como é a falta de alcochetanos para servirem o seu clube do coração.
Aqui fica o principio da minha contribuição, para o meu clube.
"António Luís Rodrigues, natural de Alcochete, onde nasceu em 26 de Agosto de 1918, é do signo Virgem. A sua preferência clubística vai para o Sporting Clube de Portugal e para o Grupo Desportivo Alcochetense onde praticou futebol cerca de 13 anos. É sócio fundador, pois fez parte da Comissão Administrativa que foi constituída para fundar o Desportivo- É actualmente o sócio n.º 1 tendo sido agraciado como Sócio de Mérito em 1993 e recebido o emblema dourado de 50 anos de sócio em 1995.

G.D.A. Revista foi à conversa com António Luís Rodrigues, figura grata do Desportivo pelo seu passado enquanto Fundador, Dirigente e Atleta do nosso Clube.
Ficámos conscientes do seu sentir pelo Desportivo e da existência de alguma nostalgia pelos anos passados e da saudade pela época então vivida na sua juventude ligada à fundação e aos problemas decorrentes.
A emoção veio ao de cima à medida que as perguntas surgiram e até uma ou outra lágrima atrevida bailou nos seus olhos.
Conversa interessante que nos revelou algumas curiosidades, entre elas a posse de um emblema do G.D.A. em ouro e brilhantes (uma relíquia) que lhe foi oferecido há muitos anos pela Tia Maria, mulher do Tio Manuel Perinhas, que até eram imparcialistas.

Como começou o Desportivo?
O Desportivo teve o seu início pela iniciativa de um grupo de rapazes que gostavam de jogar à bola.Juntávamo-nos na casa de comidas do Tio Alfredo que era propriedade do Avelino José Carvalheda mais conhecido por Avelino Rato. Foi aí que começou o Desportivo.

Quem foi o responsável pelo nome dado ao Clube?
Nessa altura quando o Desportivo começou a praticar futebol, não existia actividade noutros Clubes pois o Sport, o 1º Maio e o Imparcial, Clubes que foram criados para o futebol, estavam parados.Entretanto o Sport e o 1º de Maio acabaram ficando só o imparcial embora sem actividade. Assim e como não existia um Clube com o nome ligado à nossa terra, a ideia partiu do João Mitra de ser Grupo Desportivo Alcochetense.

E quanto ao equipamento. Qual a razão de verde e branco?
A escolha do equipamento ser à Sporting foi motivada por a maioria da rapaziada que formou o Clube serem Sportinguistas, que era o meu caso, embora houvesse alguns que o não eram.

Em que campo disputavam os jogos?
Nessa época não tínhamos campo embora existisse um que era da Câmara. Tivemos problemas pois não nos autorizavam a jogar lá. Eu era escrevente das marinhas do Sr. Dias de Sousa e então juntamente com o António Lopes e o Artur Rodrigues, que era meu primo, fomos falar com ele e pedimos-lhe se nos deixava fazer um campo numa cabeceira da marinha do Brito, no caminho das secas de bacalhau. O Sr. Dias de Sousa deu-nos autorização e lá construímos o Campo da Praia só que o terreno era muito areoso e até lhe chamávamos o "amansa cavalos".
Quem era o treinador da equipa?Quando começámos não tínhamos bem treinador, mas era o João Eduardo Canteiro quem tomava conta da equipa.

Hoje os jogadores têm compensações e transportes. Como era no seu tempo?
Todos os que jogavam não recebiam nada e até os transportes eram de nossa conta. Quando íamos por exemplo à Costa da Caparica jogar íamos de barco e as despesas eram suportadas por nós.

Onde se localizava a primeira Sede?
Durante algum tempo não tivemos sede e equipavamos numa adega que existia na Rua Senhora Santana e íamos a pé até ao campo para jogar. A primeira sede foi na Rua do Troino no primeiro andar que faz esquina com a Rua José André dos Santos.

Ainda chegou a jogar no Campo de Jogos, que é propriedade do Clube junto à E.N. 119?
Sim joguei lá. O "Foni", que antes pertenceu ao "Sport", que veio a acabar, comprou o campo para o Desportivo e passámos a jogar lá e nessa altura os postes de electricidade estavam junto às linhas laterais do campo.

Além de jogador também foi director?
Sim fui director e tratava dos assuntos do Clube deixando muitas vezes o meu estabelecimento com esse fim. Participei também em reuniões da Associação de Setúbal.

Houve uma tentativa para uma fusão com outro clube da terra. Como foi isso?
De início as primeiras quotas eram dez tostões mas as pessoas aderindo ao Desportivo e ganhámos força.Então algumas pessoas do Imparcial juntaram-se a nós e foram bem recebidas. Mais tarde e porque o Imparcial estava inactivo outras propuseram que fosse feita essa fusão e fez-se uma assembleia. Só que a maioria não aceitou e aí veio a desunião e a grande rivalidade entre as duas colectividades.

Sabemos que o seu fervor clubista fez com todos os seus familiares sejam sócios do Desportivo.
Eu e a minha mulher somos sócios. A minha filha quando nasceu também a inscrevi e às minhas netas também. Somos todos do Desportivo.

Gostaríamos de ouvir uma história curiosa que se tivesse passado consigo ligada ao Clube.
Houve uma situação num jogo com o Imparcial que se passou comigo e com o João Rei na altura em que eramos jogadores. Os árbitros faziam a chamada dos jogadores para entrarem em campo. Nós não tinhamos os cartões mas íamos jogar. Então quando chamaram os nomes do "Bronze" e do "João Tomé" eu e o João Rei respondemos como se fossemos eles. Jogámos e não houve problema. Só que mais tarde vieram a aperceber-se disso e foram apresentar queixa à Federação, que nessa altura tinha a sede na Praça do Camões em Lisboa. As nossas fichas estavam em Setúbal mas a Associação não tinha enviado os cartões. Fomos então castigados com dois jogos cada um por termos mentido.

O que acha do actual Desportivo?
Está no bom caminho e encontro-me muito satisfeito com o que se está a passar. No entanto em termos futebolísticos lembro o tempo da segunda divisão nacional e a elimanatória com o Sporting para a Taça de Portugal, que foram pontos altos na vida do nosso Clube.

Demos a conhecer ao nosso entrevistado os projectos que existem para desenvolver, como o complexo de piscinas, a auto-construção das garagens, o furo de captação de água e o loteamento do campo de jogos e quizemos saber. Qual a sua opinião?
Tem que haver iniciativa e sobre isso que me contam só posso dizer que é uma coisa boa para o Desportivo.

Qual o seu maior desejo para o futuro do Desportivo?
Em primeiro lugar sermos amigos do Desportivo e fazermos tudo o que pudermos pelo Desportivo."

In "GDA Revista" s/d

29 maio 2006

Perda e Restauração do Concelho - Parte 3


O Pedido a sua "Magestade", Rei D. Carlos


Documento enviado a Rei D. Carlos, a 17 de Março de 1895, expondo as razões que justificavam a manutenção da autonomia do concelho.

(Resposta à deliberação de João Franco, publicada no diário do Governo nº 50, de 4 de Março de 1895, onde reclassificava Alcochete como concelho de 2ª Ordem, ou seja, aqueles que “dispõem os sufficientes recursos para custear (...) os encargos do concelho”.)

"Acta solenne de reunião promovida pela Câmara Municipal em 17 de Março de 1895

Aos dezesete dias do mez de Março do anno de mil oito centos novente e cinco, n´esta Villa d´Alcochete eschola “Conde Ferreira achando-se ahi reunida a Câmara municipal sob presidência do Senr. D. António Luiz Pereira Coutinho comparecendo a este acto o Senr. Administrador do Concelho D. João Pacheco Pereira Coutinho, a Junta de Parochia d´esta freguesia, os oitenta maiores contribuintes e diversos industriaes e commerciantes do dito Concelho tomando o Senr. Presidente a palavra pelo memso Senr. foi ponderado que, tendo em sessão camarária de onze do corrente feito aos seus colegas na vereação a leitura da nova reforma administrativa ultimamente decretada, a Câmara, na incerteza da classificação do Concelho ficará considerado em virtude das disposições do artº 467 da dita reforma, o havia encarregado de promover a presente reunião a fim de se determinar o que mais conviniente fosse à independência e conservação do concelho.
Em vista pois do que expunha e attendendo á máxima urgência de se proceder de modo a que sejam mantidas as garantidas de independência a que o concelho tem justo direito, já pelos recursos pecuniários de que dispõe e que lhe permittem a conservação da sua autonomia, já pelas largas tradições da sua antiguissima historia municipal; era de parecer que se representasse, levando tão ponderados motivos ao conhecimento de Sua Magestade a fim de ser considerado de 2ª classe em face da nova lei administrativa (...)
Senhor. Alcochete é um dos concelhos mais antigos do Reino é anterior á própria monarchia.
Aqui nasceu El-Rei D. Manuel tanto este venturoso monarcha, como outros reis, predecessores de Vossa Magestade, e dos mais celebres na história D. João 1º, D. João 2º, D. João 5º, distinguira este município com muitas honras e privilégios.
Muitos filhos d´esta terra derramaram o seu sangue nos campos de batalha pugnando pelo engrandecimento e pela autonomia da pátria.
O desinvolvimento da produção no Concelho é cada vez mais promettedor. É já larga a produção de arroz e outros cereaes, bem como de azeite, o sal vae até 100:000 moios e o vinho até 6:000 pipas. Tem em exploração propriedades como Barroca d´Alva, Rio Frio, Monte Laranjo, Monte Rodrigo e Pereiro, e outras que são das mais valiosas e das mais ricas do sul do Tejo.
Além d´outras industrias possue uma fabrica de phosphoros que emprega um numeroso pessoal e todos os annos dá de rendimento ao Estado só em serragem 20:000$000 réis.
O rendimento do Concelho é superior a 34:000$000 réis para o Estado e a 8:000$000 réis para o Concelho.
Orça a população por 7:000 almas e contem mais que suficiente para encargos administrativos.
Finalmente uma circunstancia pode invocar este Concelho, que poucos poderão allegar e que muito deverá influir no paternalismo de Vossa Magestade.
È que nunca se recorreu aqui a um empréstimo e teem estado sempre em dia os pagamentos!
O Concelho tem vivido dos seus rendimentos ordinários e á sombra d´esta administração exemplar tem visto prosperar a sua população, a sua industria e o seu commercio.
Não poderiam pois resignar os abaixo assignados com a perda da sua autonomia.
Senhor. Esta exposição toda fundamentada na verdade dos factos, abona, sem contestação a justiça dos habitantes d´Alcochete.
Por isso os abaixo assignados Pedem a Vossa Magestade a graça de mandar considerar de 2ª Ordem de Concelho. “E R. M cê “
E sendo a dita representação devidamente assignada para o fim de ser enviada ao seu destino coma máxima urgência, deu o Senr, Presidente por terminado o fim da reunião mandando, paa tudo constar, lavrar a presente acta que vae assignar com todos Senrs. Vereadores presentes, depois de ser lida por mim, José Francisco Evangelista, secretario da câmara que a escrevi

O Presidente da Câmara
D. António Luiz Perª Coutinho

O Vice-Presidente
Augusto Monteiro Forte

Os Vereadores
Manoel Pedro Bagatella
Francisco Maria Pereira"
(Continua)
In "Memórias de um Concelho"

26 maio 2006

Perda e Restauração do Concelho - Parte 2


Apontamento de inserção no contexto da extinção de Concelhos

A instauração do Liberalismo em Portugal, processo longo e penoso, traduziu-se também na promulgação de inúmeros diplomas que previam a abolição das estruturas de Portugal do Antigo Regime e a construção dos alicerces do Estado Moderno:

- As Constituições de 1822, 1826,1838 e 1852;
- A Legislação de Mouzinho da Silveira;
- Os inúmeros Códigos administrativos, comerciais, penais e civis.

O Liberalismo visava a instauração de uma administração centralista e hierarquizada, tendo como objectivo o controlo efectivo do território nacional e das comunidades locais. Contudo o processo não foi linear, muitos foram os avanços e os recuos, as hesitações e os compromissos.
A implementação da reforma administrativa, iniciada com Mouzinho da Silveira em 1832, prosseguida pelo decreto de 1835 e pelos Códigos Administrativos de 1836, 1842, 1878, 1886 e 1896, acompanhava as movimentações político-partidárias, ainda que as diferenças fundamentais entre os diversos códigos promulgados se limitasse à alternância entre uma menor ou maior centralização.

A Extinção de Concelhos

O Código Administrativo de 1896, promulgado pelo governo de João Franco, caracterizou-se pela insistência na tendência centralizadora, tendo vigorado até ao período republicano.
A preparação deste Código terá sido certamente condicionada e influenciada pela profunda crise nas instituições da Monarquia e na sociedade que caracterizou a ultima década do século XIX. Dos inúmeros problemas que se colocavam ao governo, a questão mais urgente a resolver era a da crise financeira do Estado, em constante défice orçamental. As finanças publicas estavam asfixiadas pelo aumento das despesas, pelo fraco crescimento das receitas e pelo engrossar da divida publica interna e externa.
Não pretendendo o Governo levar a cabo uma profunda reforma administrativa, havia contudo identificado, como matéria de urgente reformulação, a constituição e organização dos municípios.
Constatando-se que os pequenos municípios não estavam em condições de acertar o passo com os restantes, imperiosa era a obrigação, no entender de João Franco, de extinguir os que não ofereciam condições de vida, pelo que, durante a vigência deste Código, foram suprimidos 46 concelhos. Todos eles se encontravam associados a exageros tributários, medíocre administração e desperdício de forças de riqueza, em completo desajuste com a política central de restrição financeira. Para alem disso, através desta acção, o governo economizou 116 contos.
Esta tendência de redução do número de concelhos verificava-se já desde o Código Administrativo de 1836: 1827 – 806 concelhos; 1836 – 351 concelhos; 1878 – 290 concelhos; 1900 – 291 concelhos.


Fonte: "Memórias de um Concelho"

(Continua)

25 maio 2006

Perda e Restauração do Concelho - Parte 1


“(...) a supressão de Concelhos foi uma das principais medidas adoptadas com vista a um aumento do controlo efectivo, aliado à consequente vantagem da poupança dos orçamentos destinados aos municípios (Governo de João Franco promulgou o Código Administrativo de 1896) .

Para tal, a administração Distrital de Lisboa inquiriu os vários municípios, diagnosticando deste modo a sua capacidade efectiva de permanecerem, ou não, com o estatuto de autonomia local. Na época, Alcochete era um concelho do distrito de Lisboa, pelo que estava sob a alçada desta administração. A leitura deste tipo de inquéritos é-nos hoje importante, uma vez que neles se encontram relatadas valiosas informações sobre o estado dos municípios da época. Num documento de 1897, publicado por uma facção que estava a favor da integração de Alcochete no município de Aldeia Galega, encontra-se mencionada uma sindicância feita em 1880 no nosso Concelho. Apesar de não ser uma escrita de todo isenta, uma vez que o recurso ao referido inquérito constitui o principal argumento para fazer valer a ideia da desejada integração, não deixamos de aqui mencionar os aspectos negativos que são apontados à antiga administração alcochetana na década de 80 do século XIX.

São então referidas “Irregularidades, abusos e escândalos, (...) o thesoureiro infiel, que, em proveito próprio ou alheio dissipou o melhor de seis contos de reis em prejuízo do cofre municipal”. Mais à frente refere-se que “o edifício da escola municipal do sexo masculino da freguezia de S. João Baptista (Escola do Rossio) tornado inhabitavel, os paços da Câmara quasi em ruínas, as estradas concelhias ao abandono, uma divida enorme ao hospital de S. José de Lisboa, a percentagem de 50 % addicionada ás contribuições de estado, vexatoros impostos lançados sobre todos os géneros tributáveis, clamavam contra a má administração do concelho (...)*

*"Questões da Actualidade – o extincto concelho de Alcochete e seus antigos munícipes” – Aldeia Galega, 1897, pp. 3 e 4.

Em Março de 1895 surgem os primeiros indícios da intenção do governo do Terreiro do Paço de extinguir uma série de concelhos. Nesta altura chegam da Administração Distrital de Lisboa dois inquéritos a fim de o executivo de então prestar contas do estado do concelho. Apesar de algumas perguntas serem as mesmas para ambos os questionários, merece que se faça aqui a sua transcrição fidedigna, bem como das respectivas respostas. (Aqui deixo apenas um)

Resposta ao questionário que acompanhou o officio n. 93 da Autoridade d´este concelho na data de 12 do corrente

Qual a receita do concelho com designação de própria da instrucção e viação referida ao anno próximo findo?
R. A receita própria da instrucção primária em 1894 foi de 1:683$010 réis, não contando com um saldo importante que na caixa geral de depósitos deve existir a favor d´este concelho; e a receita própria da viação foi 9:826$284 réis em que se compreende a quantia de 7:730$517 réis de saldo que transitou de 1893 para 1894 e bem assim a de 833$746 réis em depósitos na dita caixa geral; e a do Conº não contando com o saldo de 1893 foi de 6:111$942 réis.

A Câmara municipal funcciona em edifício próprio?
R. Funcciona

Quaes as demais repartições publicas que funccionam em edifícios da Câmara?
R. Mais nenhuma

Tem a Câmara contrahido empréstimos?
R. Nenhum

Qual a sua importância?
R. Prejudicado

Tem pago regularmente as respectivas prestações?
R. Prejudicado

Quando termina a amortisação?
R. Prejudicado

Qual a importância das contribuições directas lançadas pela Cam.ª?
R. O producto da contribuição municipal directa lançada em 1894 foi de 4:186$121 réis em que se comprehende a pertencente á instrucção primaria descipta na resposta ao primeiro inquérito.

Tem lançado contribuições indirectas?
R. Tem

Qual a sua importância?
R. A importância das contribuições municpaes indirectas em 1894 foi de 4:415$000 réis.

Tem satisfeito as despesas com o serviço d´expostos?
R. Tem

Tem a Cam.ª satisfeito as despesas com os vencimentos dos finccionarios a cargo do cofre municipal?
R. Tem

Estão em dia os pagamentos das demais despesas obrigatórias?
R. Estão

Qual o estado de viação a cargo da Câmara?
R. Suffrivel

Quaes as obras começadas e não concluídas e respectivos encargos, bem como os de conservação?
R. Não existem obras começadas e com referencia aos encargos de conservação têem estes sempre merecido a especial attenção da Câmara.

Existem estabelecimentos industriaes no concelho?
R. Existem, sendo um dos principaes uma fabrica de phosphoros ordinários e amorphos.

Quaes os capitais em circulação e pessoal empregado?
R. Quanto aos capitais em circulação não se podem precisar por falta de elementos necessários e quanto ao pessoal empregado na referida fabrica e outras industrias sobe o numero a mais de 700 pessoas.

Quaes os ramos mais importantes de comercio do Concelho?
R. O sal – vinho - azeite de oliveira – cortiça - rama de pinha - fachina (farinha?) –carvão - batata e cebolla.

Quanto contribue o concelho para as despesas geraes do estado?
R. O concelho contrubue para o thesouro com a quantia superior a 34:000$000 réis.

Secretaria da Câmara municipal do Concelho d´Alcochete 14 de Março 1895.




Nestes curiosos documentos temos uma imagem de um concelho estável financeiramente, com capacidade autónoma, sem grandes investimentos, apenas com obras de manutenção de algumas estruturas vitais. Apenas se admite o estado suffrivel das estradas concelhias".

(Continua)

In "Memórias de um Concelho - 15 de Janeiro de 1898", 1993.

24 maio 2006

Samouco


A sua privilegiada situação geográfica determinou a vida das gentes desta povoação ribeirinha. Os seus múltiplos afazeres determinaram o alegre cenário de outrora, marcado pelo vai vem das carroças que, carregadas dos mais diversos produtos, se deslocavam das quintas e adegas em direcção ao cais.

Torna-se muito difícil localizar no tempo os fenómenos que deram lugar à génese da povoação chamada Samouco.

Maria Alfreda Cruz, na sua obra “A Margem Sul do Estuário do Tejo”, página 27, ao citar Virgínia Rau, afirma que o Samouco remonta ao ano de 1241.
Segundo a informação de José Estevam in “Anaus de Alcochete”, página 7, verifica-se que no século XV, os lugares de Samouco, Aldeia Galega e Sarilhos, conjuntamente com a vila de Alcochete, constituíam o Concelho de Santa Maria de Sabonha, cuja sede de paróquia funcionava na igreja do mesmo nome, implantada no local que mais tarde se veio a chamar de S. Francisco.
Em pleno século XV, a Ordem de Santiago dissolve o concelho de Santa Maria de Sabonha e cria o concelho de Aldeia Galega, ao qual junta o lugar de Sarilhos e o concelho de Alcochete, juntando a este, o lugar de Samouco.
É nos fins do século XVI que a freguesia de S. Braz de Samouco se formou.
Em 1895, com a dissolução do concelho de Alcochete, são anexadas ao concelho de Aldeia Galega a vila de Alcochete e a freguesia de Samouco.
Três anos mais tarde, Alcochete conquista de novo a municipalidade, voltando a freguesia de Samouco a fazer parte deste concelho.
A julgar pelo número reduzido de óbitos registados entre 1646 e 1650 somos levados a pensar que este lugar gozava de óptimos ares, facultando uma certa longevidade aos seus habitantes.
Aliando este facto à riqueza das potencialidades agrícolas e piscatórias existentes neste lugar, poder-se-á inferir das razões que levaram grande número de pessoas, dos mais variados locais do país e até do estrangeiro, por volta do século XVII, começaram a afluir ao Samouco.
Segundo José Estevam, em pleno século XVII, poderíamos encontrar no Samouco, ocupados nas mais diferentes profissões, trabalhadores vindos de Viseu, Lamego, Torres Novas, Oliveira de Frades, Setúbal, Barreiro, Lavradio e Coimbra. Também da Galiza e de Génova vieram homens que casaram com mulheres do Samouco.
Diz ainda José Estevam que aqui residiam alguns fidalgos. Na verdade, ainda não há muito tempo, antes da construção da Base Aérea nº 6 – Montijo, existiram várias quintas com casas senhoriais em cujas paredes se encontravam esculpidos os respectivos brasões.
Como exemplo destas, temos notícia da Quinta da Rota, que foi propriedade dos Condes de S. Vicente, e possuía uma capela dedicada à Santíssima Virgem; ou a Quinta pertencente a D. Diogo de Sá.
Houve ainda outros fidalgos que preferiram o Samouco para residência; ainda hoje se diz que os condes de Távora, quando se viram perseguidos, aqui se esconderam, em quintas pertencentes a esta família.
No século XVI e seguintes, a pequena povoação de Samouco encontrava-se circundada de belas quintas de pomares e vinha. Nestas eram produzidos variadíssimos produtos, tais como: laranjas, damascos, figos, cereais e vinho.
Estes produtos, que saíam todos os dias do Samouco, embarcavam nas fragatas e viajavam até à outra margem, para abastecer os mercados da capital.
Os figos do Samouco gozavam de grande fama em todos os mercados e bairros populares de Lisboa, graças a uma técnica inédita que os agricultores usavam quando estes ainda estavam na árvore.
O vinho conjuntamente com o sal, dado que também existiam muitas salinas, constituíam dois produtos nobres para a economia nacional da época. É de admitir que também o Samouco tenha contribuído de forma assinalável com o fornecimento de vinho e sal, para exportação, durante a época da expansão marítima portuguesa.
No século XIX, J. J. Ferreira Lapa, ao descrever as vinhas da margem sul do estuário do Tejo, notava “… depois dos de Almada, os do Seixal e da Moita, vinho de pasto de excelente sabor, os adamados e doces bastardos do Barreiro e Lavradio, os de Samouco, no concelho de Alcochete, bom tipo de mesa”.
Alberto Pimentel, in “A Estremadura Portuguesa”, 1908, pág. 137, diz: O professor Aguiar compreendeu os vinhos de Alcochete no distrito vinícola do Lavradio (prolongando-o desde Alcochete até ao Barreiro) e especializou os do Samouco.
Numa paródia aos sinos de Corneville, há anos representada em Lisboa, dizia-se:
“Vinho do Samouco!Achei bem poucoO que bebi…”.
Também existiam no Samouco grandes extensões de mato e pinhais, dos quais eram extraídos o mato e a lenha que se destinavam a abastecer as residências e os fornos de pão, cal e louça, instalados na capital.
Dada a sua familiaridade com o rio Tejo, a pesca não poderia deixar de constituir uma importante fonte de riqueza para a população de Samouco.
Outra actividade curiosa que se praticava no Samouco, foi a apanha da murraça que era vendida como alimento para o gado.
Possui o Samouco uma bonita igreja, dedicada a S. Braz, cuja data de construção não é possível afirmar; no entanto, existem notícias de visitações da Ordem de Santiago que remontam ao século XVI.
No registo de uma dessas visitações, consta que a igreja tinha o tecto pintado e as paredes revestidas de azulejos com cenas da vida de S. Braz.
A igreja ficou muito danificada por ocasião do terramoto de 1755.
Apesar de ter sido restaurada várias vezes e renovada em 1919, conservou no altar mor a sua antiga obra de talha.

A população de Samouco, cujo apego ao trabalho a caracteriza, também tem manifestado ao longo dos tempos o gosto pelas festas e romarias.
Notícias de 1758 dizem que no Samouco se realizavam cinco festas por ano. Estas eram dedicadas a S. Braz, Nossa Senhora do Rosário, Santo António e Menino Jesus.Algum tempo depois, tinham aqui lugar as festas da Nossa Senhora do Monte Carmo, no segundo Domingo de Novembro e as de S. Braz a 3 de Fevereiro.