A historiografia da vila de Alcochete aponta
as origens do povoado para o período muçulmano,
sendo uma tese apoiada no indício sugerido pelo
topónimo. Para seu próprio reforço argumenta que
a Igreja Matriz assenta sobre as fundações de uma
antiga mesquita, embora tal facto nunca tenha sido
comprovado (Pereira et al., 1904: 170; Câncio,
1939: 89; Estevam, 1948: 72; Nunes, 1972: 275;
Duarte, 1993: 25; Graça, 1998: 14).
Em nosso entender, e enquanto não surgirem
provas materiais que justifiquem o contrário, a vila
de Alcochete terá surgido já sob o domínio cristão
do território, visto nunca se terem encontrado vestígios
arqueológicos anteriores ao século XV (Correia,
2003: 195; 2004; 2010: 185; Correia & Nunes,
2005). Alcochete dependia administrativamente de uma das sedes do concelho do Ribatejo. Este velho
concelho, cujo território se estendia entre a ribeira
de Coina a Poente e a ribeira das Enguias a Nascente,
com dupla administração em Alhos Vedros e
Santa Maria de Sabonha (atual São Francisco, Alcochete),
é resultado de uma política de consolidação de um território pouco povoado, num momento
após a reconquista cristã. A edificação da
Igreja de Santa Maria de Sabonha, ordenada em
1252, serviria certamente uma população rural, bastante
dispersa.
Caso Alcochete constituísse já neste
momento um aglomerado urbano relevante, certamente
reuniria melhores condições para assumir o
papel de sede concelhia, em detrimento de Sabonha.
Segundo José Manuel Vargas, depois de analisada
a toponímia da região documentada nos sé-
culos XIII e XIV, são muito raros os topónimos que
podem indiciar um povoamento mais antigo, com
origens árabes ou moçárabes. A maioria deles são
já de origem cristã, surgindo geralmente a menção
“onde chamam…”, supondo um povoamento recente
(Vargas, 2005A: 17).
Sendo “Alcochete” indiscutivelmente um topónimo
de origem árabe, cuja etimologia al-kusat
significa “os fornos”, a sua existência estará provavelmente
relacionada com a tradição oleira que se
desenvolveu na região durante o período Romano.
Esta importante actividade económica desenvolveu-
-se ao longo de mais de 400 anos (entre os séculos
I e V d. C.), e está testemunhada em cerca de vinte
sítios arqueológicos, situados sobretudo ao longo
da margem direita da ribeira das Enguias. Porto dos
Cacos, o principal destes centros de produção e o
único intervencionado arqueologicamente, revelou
também uma ténue ocupação do espaço já após o
abandono dos fornos, estendendo-se até ao século
VIII. Talvez ainda aqui existisse uma pequena comunidade
indígena, já sob dependência do novo poder
muçulmano sedeado em Palmela, justificando-se assim a perpetuação, em topónimo, do principal
elemento caraterizador da região.
Sendo assim, “os fornos”, que foram identificadores
deste território pouco povoado até à primeira dinastia dos reinados cristãos, passaram, a partir deste período,
a designar um espaço físico mais restrito, ou seja, a
atual vila de Alcochete, sem dúvida um dos mais antigos
aglomerados urbanos da região. O restante espaço rural
começava a ser explorado e inevitavelmente identificado
com nova toponímia (Correia, 2010: 185/6).
Mesmo sob influência da administração de
Sabonha, Alcochete foi adquirindo autonomia, fruto
do desenvolvimento de que vinha gozando. Enquanto
nos meios rurais se praticava uma economia
essencialmente agrícola (assente sobretudo na viticultura),
nos meios urbanos de Alcochete e Aldeia
Galega (atual Montijo) já se assumiam outras formas
de subsistência, desenvolvendo-se a salicultura
e o transporte fluvial, destinado ao abastecimento
da capital (Dias, 2004: 96). Este crescente desenvolvimento
proporcionava autonomia, sob o apadrinhamento
do Infante D. João, mestre da Ordem de
Santiago, desde 1419.
É a partir desta altura que a
documentação passa a designar Alcochete com categoria
de vila. A própria noção de concelho começa
a ficar explicita já em documentação régia de 1413
(Vargas, 2005A: 46).
O referido Infante “terá mandado construir
uma residência em Alcochete que, mais tarde (cerca
de 1450), o seu sobrinho, Infante D. Fernando,
transformou no Paço, várias vezes referido na documentação,
onde viria a nascer D. Manuel I, em
1469” (Vargas, 2005A: 47).
Esta crescente autonomia viria a ser formalmente
reconhecida em 1515, no reinado de D. Manuel
I, com a outorgação conjunta de foral a Alcochete
e Aldeia Galega.
A referência documental mais antiga a Alcochete
data de 1308. Contudo, as evidências arquitetónicas
e arqueológicas remontam apenas ao século
XV. Ao analisarmos a planta do Núcleo Antigo da
vila de Alcochete, deparamos com um tecido urbano
de traçado radiocêntrico, com as ruas do Talho, do Paço, de O Século, Diário de Notícias, da Praça
e António Maria Cardoso a confluírem para o Largo
da República, antigo Largo da Praça. Este traçado,
algo irregular, é delimitado do lado norte pela Rua
Comendador Estêvão de Oliveira, antiga Rua Direita,
a qual parte do Largo da Misericórdia até se unir
com o acesso à vila proveniente de Nascente, junto
à Igreja Matriz.
Para além deste acesso há um outro, proveniente
de Sul, da antiga Aldeia Galega, que passava
junto da capela de São Sebastião, no Valbom, ainda
fora do casco urbanizado. Entrava na vila, na confluência
das actuais Rua José André dos Santos com
a Rua João de Deus. Este seria o principal acesso a
Alcochete. A capela de São Sebastião assumia uma
posição de sentinela, tal como se verifica à porta
de muitas outras povoações, crendo-se que o respectivo
santo mártir protegeria a vila de eventuais
pestes trazidas pelos forasteiros. A quem por aqui
chegasse podia igualmente refrescar-se no chafariz,
situado já dentro da vila. Constata-se que se trata de
um traçado urbanístico fiel ao seu original, criado
na Baixa Idade Média.
No antigo Largo da Praça estaria o pelourinho,
peça de arquitectura manuelina, oitavado em
espiral, decorado com as insígnias da Ordem de
Santiago. Será contemporâneo da outorga de foral
(1515), tendo sido demolido na segunda metade do
séc. XIX. Sobreviveu um segmento do seu fuste,
hoje exposto no Núcleo Sede do Museu Municipal
de Alcochete
Retomando o (...) tombo das propriedades
de 1498, o Paço do Concelho, também conhecido
por Estalagem, compunha-se de três divisões: a
casa onde se vendiam as mercadorias, a estrebaria e
o palheiro. A levante confinava com o talho, virado
para a atual rua com a mesma designação, a poente
para a rua, ainda conhecida por Rua do Paço, e a
sul ficaria o Alpendre do Concelho, este virado para
a praça. A norte do talho ficava o Lagar de Fernão
Meira4
(Beirante, 2004: 75; Estevam, 1956: 36/7).
Este paço terá sido sede administrativa do concelho
até inícios do século XX, momento em que os serviços de administração se transferem para o atual edifício,
antigo Solar dos Pereiras. A edificação deste
solar terá ocorrido em finais do século XVI (Nunes,
1972: 107).
De entre o rol de residências pertencentes à
Estalagem, destaca-se uma, curiosamente chamada
“mesquita” , cuja localização não é esclarecedora.
Talvez se tratasse eventualmente de um espaço onde
uma pequena comunidade islâmica prestava culto.*
Contudo, há certezas de Alcochete ter albergado
uma pequena comunidade judaica, residente junto
da praça. Em reunião de 24 de Agosto de 1421, a
vereação tomou conhecimento de que a população
de Alcochete tinha pedido para que os judeus da vila
não rezassem no meio da praça, visto que faziam-no
tão alto, que “enojavam” a restante população .
Havia três poços públicos dentro da vila: o
Poço Salgado, de localização incerta, embora Beirante
o situe junto da Rua Direita (atual Rua Comendador
Estêvão de Oliveira), o Poço de São João,
situado diante da igreja Matriz, no largo com o mesmo
nome, (tendo sobrevivido até inícios do século
XX e recuperado em 2009) e o Poço da Horta, o
qual dispunha de nora para abastecer o já referido
chafariz. Esse mesmo poço, junto do qual se situava
também o curral do concelho, onde se guardava o
gado fugido causador de estragos nas culturas, abastecia
ainda a Horta do Concelho (Beirante, 2004:
75,76).
Fonte: Setúbal Arqueológica. texto de Miguel Correia
*o sublinhado no texto é de minha autoria.
1 comentário:
O texto recusa remontar as origens de Alcochete ao período muçulmano: "...a vila de Alcochete terá surgido já sob o domínio cristão do território, visto nunca se terem encontrado vestígios arqueológicos anteriores ao séc. XV [...].
Depois diz: "Sendo Alcochete indiscutivelmente um topónimo de origem árabe..."[...].
Finalmente, quase no fim, o texto faz referência a uma mesquita em Alcochete cuja localização é indefinida.
Pergunto eu: no meio disto tudo não haverá aqui alguma contradição?
Este debate, onde caí de pára-quedas e do qual está excluída mais de 90% da população concelhia, não é inocente. Essa ausência de inocência pô-la-ei eu a nu no meu blog num futuro próximo.
Por agora direi o seguinte: é evidente que os romanos estiveram na nossa sub-região e dela tiraram partido pois que era rica em sal para a consevação das vitualhas... quantas destas transportadas em ânforas para várias partes do Império. Mas isto não quer dizer que, na fundação de Alcochete, o primado pertença aos romanos... que não pertence... mas sim aos árabes.
Mas para estes arqueólogos a arqueologia terá a ver com coisas que só se agarrem com os dedos?
"Alcochete" é topónimo de origem árabe; houve uma mesquita não se sabe bem onde; há, fora de portas, Vale de Mouros, etc, etc., etc., mas Alcochete não foi terra de mouros... vá-se lá saber porquê! Bom... eu sei porquê.
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