21 abril 2014

O Sal - Parte 5



Em 1954, o salgado de Alcochete era composto por  61 marinhas de cabeceira e 33 de corredores. Na região de Alcochete-Samouco predominavam as marinhas de cabeceiras, apresentando 51 marinhas deste tipo e 16 de corredores; no rio das Enguias existiam 10 marinhas de cabeceiras e 15 de corredores e na região de Vasa-Sacos as duas marinhas aí existentes são também de corredores. 
 Assim, dentro do mesmo salgado existem diferentes tipologias de marinhas, que por isso vão determinar os processos da feitura do sal, o tipo de sal que se produz e a qualidade do mesmo. A própria actividade dos salineiros é marcada pelo tipo de marinha em que está a trabalhar, embora no essencial estejam sujeitos aos mesmos princípios.

As marinhas grandes são as de corredores, embora também se encontrem marinhas pequenas deste tipo.
 As marinhas de cabeceira são geralmente mais pequenas do que as outras, apresentando um traçado irregular e a maioria não ultrapassa as 500 toneladas de produção. Esta tipologia corresponderá à concepção das marinhas mais antigas de Alcochete, o que lhes confere, pelo seu traçado, uma especificidade relativamente aos outros salgados, nomeadamente da região de Lisboa. Da análise da documentação tudo indica  que as marinhas de cabeceira terão sido as primeiras a construírem-se em Alcochete, uma vez que Lacerda lobo, na sua obra Marinhas de Portugal refere que “as marinhas que ficam a sul do Tejo situadas nos extremos de Alcochete, Aldeia Galega, Moita e Alhos Vedros, todas têm 5 ordens de reservatórios (exceptuando as da ribeira do batel) chamados pelos marnoteiros, viveiros, caldeirões, caldeiras, cabeceiras e talhos. São formadas por um terreno ordinariamente apertado o que influi muito na bondade das marinhas, sendo melhores aquelas, que têm endurecido o fundo dos talhos onde se faz a cristalização.”
Parece que este tipo de solo, a que se refere é o casco ou traste, que em 1877 Alcoforado, refere nos seus trabalhos sobre as características do solo das marinhas dos vários salgados. Porém, Lacerda Lobo, nada adianta sobre esta matéria.
Quanto à tipologia da marinha a ordem e número de reservatórios, bem como a designação, integra-se no essencial na tipologia das marinhas de “cabeceira”.

Amanho

  Em Março/Abril, iniciam-se os trabalhos de preparação da nova safra: trabalhos de limpezada
marinha, escoam-se as águas e fazem-se as reparações (consertos) dos possíveis estragos causados pelo Inverno. 
 A limpeza dos vários compartimentos é feita segundo a ordem em que se dispõe na marinha, até chegar aos talhos, conforme ser referiu a propósito da descrição da marinha.
 Desta forma, primeiro procede-se à limpeza do viveiro, feita com pás e rodos e cortam-se as moitas dos respectivos muros. Em princípios de Abril mete-se água no viveiro.
 A reserva também é limpa da vegetação e lamas, corrigindo-se a superfície. Os trabalhos são feitos com o rodo.
 Seguidamente faz-se a limpeza dos terceiros caldeirões e contra-caldeirões, depois de passar a água para a reserva e caldeirões. As barachas são também arranjadas utilizando três tipos de pás- Pá de pejo, pá de valar e pá ferrada.  Quando já estão limpos a água regressa aqueles compartimentos.  Finalmente faz-se a limpeza dos caldeirões. Estes, depois de limpos ficam em seco, dois a três dias, para “curar” sendo novamente cheios com a água dos terceiros e contra caldeirões, com uma concentração de 10 a 16º Bé
 Depois de executados todos estes trabalhos, procede-se ao “descarrego” da marinha, sendo a água de alagamento, com uma concentração de 14 a 17º Bé, distribuída por todos os compartimentos da marinha que  foram cuidadosamente limpos. Esta operação é feita com recurso ao bombeiro ou engenho. Finalmente faz-se a limpeza dos talhos, que estavam alagados, assim como o seu nivelamento. Estas operações, têm a designação de “deitas”, no salgado de Alcochete.
 Estes trabalhos “deitas” devem ser feitos com muito cuidado de modo a não rasgar o feltro da talharia (ou cozimento) e deve aproveitar-se a água salgada que durante o Inverno cobriu a marinha. No entanto, por vezes podem acontecer acidentes durante as deitas, tais como romper o feltro, com o rodo ou a constipação das marinhas. Ou seja quando a água de alagamento, atinge uma concentração muito elevada, há necessidade de a diluir. Se a diluição for feita bruscamente e com “água muito fresca” o cozimento pode sofrer danos irreparáveis.
 Terminados os trabalhos de arranjo e preparação dos talhos, deixam-se expostos ao sol durante dois a três dias, para melhor consolidação e para aquecimento (nas marinhas sem cozimento).
 No final das “deitas” a água da marinha possui já uma concentração elevada, podendo obter-se facilmente nos caldeirões ou cabeceiras (conforme o tipo de marinha) uma concentração de 25º Bé.

Feitura do Sal

Após os trabalhos anteriormente descritos, cuja finalidade é deixar a marinha completamente limpa e depois da água ter adquirido o grau de concentração necessário nos diversos reservatórios evaporatórios, o marnoteiro inicia as operações de feitura do sal:
 Primeiro moiram-se os talhos, que significa meter-lhes água das caldeiras de moirar. Ou seja, depois de secos e aquecidos, os talhos recebem a solução (água concentrada) a 25-26º Bé, das caldeiras de moirar, operação que se repete de dois em dois dias. A quantidade de água que entra nos talhos, deve ser suficiente para cobrir as “cabeças” (partes mais altas) dos talhos ficando com uma altura de solução de 2 a 4 cm. A cristalização começa rapidamente.

 Por sua vez os caldeirões (caldeiras nas marinhas pequenas), ou cabeceiras ficam com pouca água ou seja, ficam “de rastos” e estando já muito salgados, salgam ainda mais, pois ficamquase em seco durante um dia e expostos ao sol.
Por isso, recebem mais água concentrada a 18-20º Bé dos contra-caldeirões, atingindo rapidamente os 25º Bé, dado que já estavam salgados e aquecidos e a altura da água é muito pequena.
 Entretanto, daí a 3-5 dias as cabeças dos talhos, cobertas de sal, começam a descobrir, sendo necessários dar entrada de mais água, ficando novamente com uma altura de 3 a 5 cm. O marnoteiro quando observa o abatimento do talho, sabe que está na altura de dar entrada de mais água nos talhos. Para calcular a concentração de água o marnoteiro recorre ao pesa-sais. Até 1866 os marroteiros de Lisboa, “serviam-se de um ovo de galinha, como de aerómetro, para conhecer o estado de saturação das moiras; porque o peso específico daquele corpo faz uma pequena diferença para menor, comparando com a água do mar a 25 graus. Logo que o ovo boiava à tona do liquido, tinha adquirido a precisa graduação para entrar na talharia.”
 Refere o mesmo autor que “a partir de 1866 o Sr. Estevão António de Oliveira, abastado e inteligente proprietário das marinhas de Alcochete, começou a usar o aerómetro; e hoje este instrumento utilíssimo é conhecido e adoptado geralmente pelos marroteiros da capital”.
 Se o tempo for favorável, ou seja, tempo quente com ventos brandos dos quadrantes Norte e Oeste, a entrada da solução nos talhos, faz-se de dois em dois dias. A solução do descarrego, vai sendo consumida e a água do viveiro vai avançando, novamente até chegar aos talhos. A concentração nos conta-caldeiros e caldeiras vai diminuindo e passados 15 a 20 dias, não ultrapassa os 15º Bé. A água entra nos caldeirões ou cabeceiras com esta concentração, atingindo aí 25º Bé.

Passados 25 a 30 dias, a altura de sal nos talhos é de 2 a 3 cm, iniciando-se então a colheita do sal.
Alcoforado em 1877, refere que” passados 20 a 30 dias, isto é, no princípios de Agosto, está formada, madura, a primeira camada, que tem ordinariamente 0,06 m de espessura ( 6 cm). Esta primeira colheita chama-se raza, é rapada (tirada) com rodos, exactamente como em Setúbal, tendo-lhe previamente quebrado o lavor (crosta salina)”.

A rapação

No início de Agosto quando os talhos apresentam já uma altura de 2 a 3 cm de sal, inicia-se a colheita do sal, sem escoar as águas mães. A colheita, designada rapação, é feita com rodos, sendo feita com a maior ou menor facilidade, consoante a natureza do fundo do talho e a altura da camada de sal. A rapação inclui a lavagem nas águas mãe, excepto se a marinha produz sal apenas para a indústria. É de apreciar a perícia dos trabalhadores durante a rapação.
 Durante a rapação o sal é puxado para os lados dos talhos – operação de atravincar.
 Escorre durante algum tempo e é depois arrastado para cima das barachas, onde fica durante dois ou mais dias a secar, sendo depois transportado em canastras para as eiras. 
 Diz Alcoforado, “depois de escorrido o sal algum tempo sobre as barachas, é levado para as eiras, onde se acumula em grandes montes, a que os marroteiros do Lavradio, Alhos Vedros e Moita, dão a forma original de uma lancha voltada de quilha para o ar.”

 O número de rapação em cada safra varia entre 3 a 6, consoante o ano e se o tempo favorável permite o prolongamento da colheita durante o mês de Setembro.
 Anteriormenteriormente a “tirada” de sal das barachas para as eiras era uma tarefa muito violenta, por isso deveria ser feito por homens de força. 
À medida que a safra vai avançando as concentrações são cada vez menores. A água fornecida pelos caldeirões ou cabeceiras, consoante o tipo de marinha, é cada vez menos concentrada e por isso a camada de sal vai desaparecendo. Por outro lado, as noites são cada vez maiores aumentando o período de arrefecimento e logo diminui a concentração da água.
Por isso, chega-se a moirar a 17-18 º Bé, sendo vantajoso para os talhos, uma vez que equilibra a solução muito carregada de sais de magnésio. O sal continua a depositar-se mas já sob a forma de pequenos sais e escamas.
 O bom funcionamento dos talhos começa a ser perturbado devido aos centros de cristalização que se vão formando à superfície sob a forma de película. Procede-se então à destruição dessa película com o rodo, a que o marnoteiro chama “apagar labor”

A Tirada do Sal

Depois do sal fabricado era necessário transportá-lo até à serra, que se fazia com as canastra de 56 litros à cabeça, a esta operação designa-se “tirada do sal”, da marinha até à serra ou monte.
O sal era colocado em cima das barachas (operação de embarachar) e depois os carregadores transportavam em canastras à cabeça para a Serra. As canastras eram enchidas pelo amoiador, também designado “punhos reais”. Na década de 60 começou a utilizar-se uns carrinhos de mão para transportar o sal.
 Da serra o sal é levado para dentro do barco, é a designada “carregação”; finalmente o transporte do sal até ao porão do navio (vapor) de Alcochete até Lisboa.

 Em meados do século XX, as marinhas que tinham acesso por terra, o sal começou a ser transportado por camionetas, nas outras por barcos. Há marinhas cujo acesso é dificultado, devido ao assoreamento dos rios que as servem. Segundo Charles Lepierre, em 1933, da serra o sal ia em camionetas até ao barco em Alcochete, ou directamente da marinha para o barco, colocado no barco com auxílio de pranchas; isto no caso das marinhas de fácil acesso pelo rio.  Segundo o mesmo autor, os produtores da região de Alcochete consideram a salicultura uma indústria pobre, porque as despesas desde a produção ao transporte são muito elevadas.

Conservação do Sal

O sal é conservado nas eiras em “serras”, formadas pelo sal das várias rasas. A serra tem uma forma prismática. Refere Alcoforado que tem a forma de uma quilha voltada e segundo Charles Lepierre “ou mais simplesmente em forma de telhado de quatro águas”
Para construir a serra começa-se pela primeira rasa tirada no início de Agosto. A 2º rasa é colocada contra a primeira, de cada lado e à mesma altura. Finalmente a 3ª rasa aplica-se também de cada lado contra a 2ª.
 O operário que faz a Serra é o serreiro.
 Depois de todo o sal colocado na serra e de apajar as serras, são cobertas com junco e palha-carga (também chamada palha de paul). O sal fica protegido da acção da chuva do Inverno que se aproxima. O sal na serra perde algum do seu peso inicial, mas fica privado de sais de magnésio.
 Assim se explica que o número de canastras para perfazer um moio, quando carregado das barachas até à Serra fosse constituído por 15 canastras e da Serra par o barco, o moio era constituído por 18 canastras, 3 canastras a mais para as “quebras”

Alagamento

O alagamento da marinha dá-se no fim da safra, ou seja depois da última rapação. Quando as primeiras chuvas de Setembro tornam a cristalização impossível, os marnoteiros metem nas salinas uma camada de água salgada de 60 cm de altura, sem lhes escoar as águas-mães do verão antecedente; a marinha fica assim até princípio de Maio.
  Esta operação tem lugar depois, das primeiras chuvas de Setembro em que o marnoteiro, sem evacuar, para o Tejo, as águas mães da última cristalização introduz pouco a pouco nos talhos a água concentrada que se encontra nos compartimentos anteriores. Caso a água existente na marinha não for suficiente utiliza-se a água do viveiro, em dia de maré viva, chegando aos talhos com uma concentração de 8 a 10º Bé e deixando a marinha toda alagada. A água atinge uma altura de 50 a 60 cm e tem por objectivo proteger a marinha dos rigores do Inverno. Segundo o inquérito ao salgado de Alcochete, realizado em 1954, por Luís A. Lopes Dias, a água atinge uma altura de 30 a 40 cm. Refere o mesmo autor que “com esta forma de alagamento, as limpezas são bastante atenuadas e o cozimento fica mais protegido, pois não se depositam imediatamente lamas sobre ele.

 Nas marinhas de Alcochete há ainda a distinguir os dois tipos de alagamento: o normal e o de urgência. O alagamento normal refere-se ao que acabamos de descrever – no fim da última rapação, fim de Setembro, princípio de Outubro, quando as condições climatéricas já não permitem uma nova colheita, procede-se o alagamento progressivo da marinha. 
 O alagamento de urgência é motivado pela chegada das chuvas abundantes, imprevistas. Assim a marinha é rapidamente alagada para evitar males maiores.
 A altura da água do alagamento nos talhos deve manter-se mais ou menos constante, escoando ou dando água à marinha, conforme a necessidade. Os restantes compartimentos são também alagados, excepto o viveiro e a reserva que ficam em seco e com as portas abertas para o esteiro, impedindo-se desta forma a formação de limos. Assim fica a marinha durante todo o Inverno até Março, altura em que se inicia o novo ciclo de produção com os trabalhos preparatórios para a produção do sal.

Fonte:  Maria Dulce de Oliveira Marques – Dissertação de Mestrado –“O Salgado de Alcochete”



O Sal - Parte 4

 Em 1512 foram contadas 79 marinhas, com um total de 11 052 talhos, situadas tanto na ribeira da foz do Sabonha, como na ribeira de Aldeia Galega (Montijo) e que eram “foreiras ou davam o dizimo, à Ordem de Santiago” 

O salgado foi-se desenvolvendo ao longo dos séculos, sujeito às contingências do meio, tais como o solo, o clima a maior ou menor proximidade dos esteiros relativamente ao mar, que de certa forma determinaram técnicas e processo de exploração. Os recursos económicos e humanos existentes, marcaram também desenvolvimento da indústria salineira.  

Assim, nos finai do séc. XVIII e inicio do séc. XIX continua a surgir documentação relativa às salinas de Alcochete, tais como contratos de arrendamento, aforamentos, ou ainda relatórios das salinas onde são apresentados os proprietários ou arrendatários e a quantidade de sal que produzia. Estas referências provam que a exploração da salicultura, nesta região, foi-se desenvolvendo lentamente ao longo dos séculos anteriores, atingindo a sua maturidade nos finais do séc. XVIII, altura em que ganha projecção na região de Lisboa e a nível nacional.
 Nos finai do séc. XVIII, os trabalhos realizados por Lacerda Lobo, sobre o salgado português constituem também uma referência fundamental para conhecer estado de desenvolvimento da Indústria salineira em Alcochete, o tipo de solo das marinhas, os processos utilizados e a localização das marinhas. Aliás o autor, refere-se de forma indirecta à exploração salícola de Alcochete, a propósito  da construção das marinhas de Alvor e Vila nova de Portimão, no Algarve. Mandadas construir pelo infante D. Francisco em 1720, sob a responsabilidade do Mestre de marinhas, João Marques Ratinho, natural de Alcochete.

Posteriormente sucederam-lhe os filhos: Francisco Marques; Lourenço Marques e Manuel Marques, sendo ainda em 1790 o mestre das referidas marinhas um dos filhos.
O mestre Ratinho responsável pela criação desta marinhas levou para esta região, a sua experiência e conhecimentos sobre o amanho das marinhas e feitura do sal. Daí que, como o próprio autor refere, “ São estas Marinhas enquanto à ordem dos reservatórios, e manipulação do sal, em tudo semelhantes às de Alcochete.”
Esta referência prova que no início do séc. XVIII, a indústria salineira estaria bem enraizada em Alcochete. Assim, daqui saíam os “mestres” para ensinar a “arte” de amanhar as marinhas e os processos subjacentes à feitura do sal, nas regiões do país onde a indústria salineira era ainda incipiente. Por outro lado, poder-se-á também colocar a hipótese do mestre Ratinho e a família terem ido para a região do Algarve, pelo facto das marinhas de Alcochete, nesta altura, serem pouco rentáveis devido à baixa produtividade; facto que obrigou este produtor a investir noutras regiões onde as condições eram mais favoráveis à exploração salícola.

Relativamente ao século XIX, alguma documentação existente no arquivo distrital de Setúbal, permite esclarecer algumas questões sobre o salgado de Alcochete, nomeadamente quanto ao número de salinas, sua localização e respectivos proprietários, assim como quem eram os arrendatários. Porém, é escassa,  atendendo à importância que este salgado já em finais do séc. XVIII e especialmente no séc. XIX tinha na margem sul do Tejo. Muita documentação ou se perdeu ou estará por inventariar e dispersa em arquivos Municipais, ou outras instituições e famílias proprietárias ou arrendatárias de salinas.
Foi possível colmatar, em parte, esta lacuna para os finais do séc. XVIII, recorrendo-se a uma obra bastante importante para a história económica e social de Alcochete, que é a obra de Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton…, escrita entre 1747 e 1810. Nela observa-se o estado de desenvolvimento de Alcochete, quer ao nível da agricultura, quer da salicultura, a ocupação do espaço em termos de população, as zonas cultivadas e incultas bem como a situação económica das populações que aqui habitavam. É, por isso, uma referência para Alcochete, na qual se encontram descritos espaços e situações, bem como todas as obras levadas a cabo por este empreendedor em vários locais. Tais foram os trabalhos de modernização implementados, nomeadamente na Barroca D`Alva que o rei D. José se lhe dirigiu nestes termos “ este é o nosso Ratton o grande cultivador da barroca d`Alva”
 O único rendimento da Barroca d´Alva, na altura em que Jacome Ratton a tomou de arrendamento decorria o ano de 1767, era uma marinha que se situava afastada do Tejo. Esta era uma marinha pequena e que se encontrava em mau estado de conservação, estando arrendada por 192.000 reis, “único rendimento de toda a barroca d`Alva para seu dono, e que se achavam hipotecados ao pagamento de uma divida, que sucessivamente ia crescendo pela acumulação dos juros, por estes excederem muito a dita quantia; divida que eu resgatei antes de me apossar da marinha para bemfeitorizar ao ponto de render dois mil mois de sal claro, um ano por outro, quando antes não passava de duzentos, e muito escuro, em razão dos muitos nascimentos de água doce, que ali havia; e que à força de pensar, e de dinheiro fiz desaparecer, cuja descoberta até então desconhecida tem sido depois aproveitada nas outras marinhas daqueles contornos. E como esta marinha é a mais distante de todas aquelas que recebem do Tejo a água das marés pelo rio das Enguias; e por isso neste sitio a sua água menos salgada em razão da doce que se lhe mistura; e observando eu ao mesmo tempo, que nos praimares das águas vivas, a doce, por mais leve se achava ao decima do salgada, construí o registo da entrada das águas nos viveiros, de modo que abrindo-se pouco antes das praiasmar, e fechando-se pouco mais de uma hora depois, me entrasse somente água salgada na marinha, ao que se deve, junto com as dispendiosas bemfeitorias que lhe fiz, a melhoria, e maior produção de sal”


Fonte: Maria Dulce de Oliveira Marques – Dissertação de Mestrado –“O Salgado de Alcochete”

O Sal - Parte 3



No século XIII, ao longo do estuário do Tejo, tanto na margem direita como na margem esquerda, surgem pequenos núcleos salineiros que se vão implantando na paisagem, pintando-a de branco. O seu desenvolvimento ao longo dos séculos é marcado pela importância que adquire nos circuitos comerciais tanto no mercado nacional como no internacional, tornando-se fundamental para a vitalidade económica das comunidades locais.

 Virgínia Rau no estudo que fez sobre as salinas do estuário do Sado, também aborda o salgado de Lisboa, fazendo uma referência curiosa acerca da forma como vão surgindo os primeiros centros produtores na margem sul do Tejo associados ao aparecimento de pequenas comunidades ribeirinhas. Refere a autora que, nos finais do séc. XIII no estuário do Tejo, surge “uma poeira de lugarejos que constituíam um grémio municipal rudimentar: o concelho do Ribatejo. Nessa orla de terras baixas por onde o mar surgia ao longo dos esteiros e dos ribeiros, quase toda entregue aos cuidados colonizadores da ordem de Santiago, verificou-se o aparecimento de minúsculas póvoas ribeirinhas, em grande parte para exploração de salinas, desde o segundo quartel do séc. XIII, tais como: Montigio (1249), u samouco e Lançada (1241), sarilhos (1304), aldeã dalcouxhete (1313), aldeã galega (herdade de Fernão Galego, 1306) e outras. Todas elas tinham por sede paroquial Sabonha (Sabona, 1249), outro lugarejo situado numa pequena eminência entre Alcochete e Aldeia Galega.”    
 Segundo José Estevam, “ A comarca do Ribatejo era constituída no século XV pelo Concelho de S. Lourenço de Alhos  Vedros e pelo Concelho de Santa Maria de Sabonha, este último composto da vila da Alcochete e dos lugares de Aldeia galega, Samouco e Sarilhos.”   A sede paroquial, funcionava na Igreja do mesmo nome, implantada no local que mais tarde se viria a chamar S. Francisco. Como lugar dominante, que era, aqui se construiu a primeira igreja, dedicada a Santa Maria, símbolo por excelência da autoridade da povoação sobre o território circundante.
“A vereação  do concelho ou freguesia de Sabonha constava de dois juízes ordinários, um vereador e um procurador. Um dos juízes residia em Alcochete e o outro em Aldeia Galega”
 No séc. XV, a ordem de S. Tiago dissolve o concelho de Santa Maria de Sabonha e cria dois concelhos: o concelho de Aldeia Galega (actual Montijo), ao qual junta o lugar de Sarilhos e o concelho de Alcochete, integrando neste o lugar de Samouco.

 Efectivamente, as zonas ribeirinhas, nomeadamente aquelas que ofereciam condições favoráveis à fixação do homem, constituíram um ponto de atracção humana, graças aos recursos que a terra e o clima ofereciam. A exploração do solo era a principal fonte de rendimento destas pequenas comunidades. O tipo de exploração que se fazia da terra dependia da capacidade do homem para observar e interpretar a natureza, explorando a terra da forma mais rentável possível. Daí que nas zonas alagadas, onde não era possível desenvolver a agricultura uma vez que as águas das marés entravam através dos esteiros ou dos rios, o homem dedicava-se à exploração do sal. Em muitas situações os resultados foram vantajosos.
  Por isso, tal como outros estudiosos têm referido, o salineiro, marnoto ou marnoteiro, antes de o ser, era em primeiro lugar agricultor, pois precisava de dominar as técnicas para amanhar e cultivar aterra.
Precisava de conhecer a terra e as plantas que aí podia cultivar. Este conhecimento obtido pela experiência acumulada e transmitido de gerações em gerações constituiu o segredo que fez prosperar a Indústria salineira nesta região, assim como noutras.
Desta forma, embora as referências documentais provem a existência de salinas nas margens do Tejo, a partir de meados do século XIII, construídas aqui e ali conforme as condições do terreno e a habilidade do homem o permitiam, é muito provável que já antes se produzisse sal nesta região. (…) Acerca da questão da antiguidade da indústria salineira, esta seria a região que oferecia, desde tempos remotos, as melhores condições para o desenvolvimento da salicultura. Segundo Lacerda Lobo, terá sido nas margens do Sado e Tejo que se construíram e exploraram as primeiras salinas, pelas seguintes razões: “1º as enchentes das marés nestas regiões são mais consideráveis do que no Mondego e Ria de Aveiro; 2º o terreno é mais apropriado para nelas se fazerem marinhas; 3º A extracção do sal é mais fácil pela bondade faz barras de Lisboa e Setúbal. Estas vantagens, que a natureza nunca negou a estes sítios, são motivos fortes, para nos persuadirmos, que os nosso maiores talvez fizessem aqui primeiro Marinhas que em qualquer outra parte” 
 Na margem esquerda do Tejo, as referências documentais, sobre a indústria salineira, remontam ao século XIV, embora já muitos anos antes, se produzisse sal. Só assim se justifica toda a documentação relativa a contratos de arrendamento e de compra e venda de salinas, nesta região, que os estudos de Virgínia Rau vieram demonstrar. No século XIV, a margem sul do Tejo teria já uma produção bastante significativa, merecendo o interesse e investimento de proprietários locais e especialmente de Lisboa. Assim, em 1375 (16 de Outubro) Gil Vicente, prior de Stª Maria de Sabonha, vende uma salina a Lopo Martins de Lisboa, situada num lugar chamado “pinhal do Ribatejo”, onde se situava um dos centros produtores importantes desta região.

 Virgínia Rau, refere um documento existente no núcleo documental do Mosteiro de Chelas, no qual consta um contrato de arrendamento de uma salina, em Aldeia-Galega, actualmente pertencente ao concelho do Montijo, realizado entre Constança Afonso e Domingos Afonso, morador nesta localidade, que segundo a autora “define usanças e normas que só longos decénios de exploração salícola podiam ter estruturado” 
 Em 1429 (10 de Outubro), uma carta de emprazamento, outorgada pela “subprioresa” do mosteiro de Chelas, Catarina Anes, a João Esteves, refere o aproveitamento de uma marinha no Lavradio, “perto de outras de diferentes proprietários, que jazia muito danificada e lapidada”.
No reinado de D. João I, o salgado de Lisboa, nomeadamente da margem sul, teria já alguma expressão no reino pois o sal que aqui se produzia servia para consumo interno e também para exportação para outros países. Segundo Constantino de Lacerda, “ no reinado do senhor rei D. João I havia marinhas no Riba-Tejo em tão grande quantidade, que não somente davam sal para o consumo de Lisboa, mas também era exportado para fora do reino, o que se prova por um dos artigos, que foram requeridos em Coimbra ao Senhor rei D. João I por parte dos fidalgos, referidos nas ordenações do senhor rei D. Afonso V.” 8   
  Neste artigo, queixam-se os fidalgos de Lisboa e outros das imposições que o rei havia lançado sobre o sal, sobrecarregando os exploradores, que desta forma não tinham qualquer rendimento com o sal que produziam, nem com o seu comércio. Queixam-se ainda pelo facto de se determinar que, quem tirasse sal de um termo para outro pagasse três libras por cada moio de sal. Porém, muitas vezes acontecia que o produto da venda não chegava a render as três libras que pagavam. Por outro lado, sendo a maioria dos proprietários fidalgos de Lisboa, teriam que levar o sal do Ribatejo para a dita cidade, para abastecer as suas casas ou para vender no mercado estando sujeitos a o pagamento das referidas três libras. Por isso, pedem ao rei para que não sobrecarregue o sal com esta imposição. 9 


Daqui se infere também que era na região do Ribatejo situada na margem sul do Tejo, que se encontrava o centro produtor mais importante. 

Fonte: Maria Dulce de Oliveira Marques – Dissertação de Mestrado –“O Salgado de Alcochete”

11 fevereiro 2014

Igreja Matriz - Parte III


Ver partes anteriores  aqui.






Hino da Restauração do Concelho de Alcochete








(…) A população do Concelho secundou a da Vila com o mesmo entusiasmo. Chorava-se de satisfação. Chorava-se de alegria.

Nas ruas pejadas de gente, abraçavam-se uns aos outros. A filarmónica, reunida à pressa, percorreu as ruas da Vila, no meio de muito povo, de muitos vivas, de muito fogo, tocando o “Hino da Restauração”esse hino que um alcochetano compôs, (João Baptista Nunes Júnior) e que todos nós alcochetanos sabemos cantar e sentir.

Ia, enfim, soar a hora da libertação!

- Duas semanas depois, no dia 30 de Janeiro, entrava solenemente nos seus Paços Municipais, o Arquivo do Concelho de Alcochete, não trazido por um simples oficial de diligências, mas sim pelas mãos fidalgas de D. António Pereira Coutinho, o primeiro presidente do Município restaurado.- Muito propositadamente o fora buscar em pessoa a Aldegalega, o ilustre Marquês de Soydos, com D. João Pereira Coutinho, António Luís Nunes e José Francisco Evangelista.
A população inteira, acompanhada pela filarmónica, esperou, fremente de alegria e comoção, à entrada do Concelho (...) – À noite não houve edifício público, não houve casa particular, rica ou pobre, grande ou pequena, que não iluminasse a sua fachada em sinal de regozijo. – E desta forma começaram as festas da “Restauração”. (...)
(…) Grande banquete na sala nobre do Palácio Pereira Coutinho, durante o qual a filarmónica executou vários trechos musicais, e finalmente, como fecho da festa, uma imponentíssima marcha luminosa, apoteose formidável, extranha faixa de luz, melhor, de fogo, alastradora, interminável, por toda a beira-rio, onde dezenas de barricas, alcatroadas, ardiam fantàsticamente. E, para tudo haver nessa marcha rubra de calor e frenesi, nem faltaram mãos delicadas de mulheres, sustentando, gentis e orgulhosas, clássicos e portuguesissimos archotes.
Assim terminaram, exuberantes de alegria e de nobreza, as grandes Festas da Restauração, consoladora recompensa de dois anos de martírio, estupenda manifestação de uma liberdade reconquistada.
José Grilo Evangelista

Restauração do Concelho de Alcochete - Exortação aos Novos,
In: Jornal A voz de Alcochete, Nº 7, Ano I, Janeiro de 1949



Clica para ouvir A Musica


Hino da restauração do concelho de Alcochete

Povo, acorda p'rá glória
da nossa mãe e terra amada.
Leu e escreveu a vitória,
Alcochete restaurada.

És livre, és livre, portanto,
não há já que duvidar.
Haja riso cesse o pranto
e vamos todos a cantar.

Refrão

Povo irmão valente,
nobre povo e gente,
se queres morrer
herói e vencedor
abraça a união
e dá-lhe o coração,
que terás a glória e o amor.

Se mais tarde a tirania
nos quiser martirizar,
basta apenas este dia
para nos desafrontar.

E se lermos o passado
na história livro fiel,
veremos com D. Manuel
o nosso nome gravado.

Refrão

Povo irmão valente,
nobre povo e gente,
se queres morrer
herói e vencedor
abraça a união
e dá-lhe o coração,
que terás a glória e o amor.


Fonte: Cleva e Andante

20 outubro 2011

O viveiro de Forcados





O Forcado

Quem o inventou criou-o português. 
Murmura uma prece, abraça o toiro, entrega toda a sua essência e, num silêncio humilde, guarda a coragem numa partilha íntima. A pega é o mais emocionante respeito pelo que se teme. É o mais entregue temor pelo que se respeita.

Amadores na alma e no ser, os forcados começaram por organizar-se, tal como hoje, em grupos de homens a quem se pedia que dominassem a força do toiro com os ‘forcados de mosquete’, na arena, junto ao acesso à escadaria real, segundo registos que remontarão há mais de quinhentos anos atrás. Eram alabardeiros ou monteiros já então comandados por um cabo com características militarizadas que aliás não se perderam hoje: continuam a ser ‘capitaneados’ por um ‘cabo’, chamam ‘farda’ ao traje de forcado, dão a direita ao cabo nas cortesias e mantém-se uma hierarquia de antiguidade em relação a elementos antigos já saídos do grupo.
De grupos de alabardeiros, defensores dos nobres que assistiam às touradas, passam a rematar a lide dos toiros com as suas pegas por força de um decreto régio de D. Maria II, em 1836, que proibia a morte dos toiros na arena. Chamaram-lhes ‘Moços de Forcado’ por causa dos forcados de mosquete que tradicionalmente utilizavam para defesa da escadaria real. 
A História foi conduzindo a senda dos forcados até aos dias de hoje.
Pegar toiros é também uma forma de Portugal se cumprir. Na coragem da tradição, no compromisso com a vida, na entrega à sorte, na honra da pega, no cumprimento de uma memória que se quer futura.
 Amadores de Alcochete

A 24 de Junho de 1971 é fundado o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, numa saudosa reunião efectuada no Moinho de Vento no Canto do Pinheiro de Alcochete.
Na qual se juntaram os forcados João Perinhas Mimo, Gregório Bolota, José Barrinha da Cruz, Francisco Sequeira, Aníbal Pinto, Alberto Silva, José Pinto, Estêvão Augusto de Oliveira, Filipe Sequeira, Manuel Pinto, Augusto Henrique de Oliveira, António José Pinto, João Rei, João Barata da Silva, Manuel Jorge Marques, António Manuel Cardoso aos quais se juntaram os amigos António Seabra da Cruz, António Faria dos Santos, Francisco da Costa Salvação, Paulo Penim, Vítor Marques e Joaquim da Costa Godinho.
É pelo comando de João Perinhas Mimo que o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete se apresenta pela primeira vez em Praça, a 21 de Agosto de 1971 na Praça de Toiros Amadeu dos Santos, no Montijo perante seis Toiros de Rio Frio.
De João Perinhas Mimo, cabo fundador, destaca-se o seu forte poder de organização, capacidade de liderança, flexibilidade e sensibilidade para lidar com tão ingrata tarefa de conduzir um novo grupo. Comandou até Abril 1984, ano em que se despede, em Alcochete, perante toiros de Paulo Caetano. Após catorze épocas de chefia sábia, entrega ao seu sucessor um grupo bem consolidado, prestigiado e com os seus princípios bem definidos.
António Manuel Cardoso foi o forcado eleito para comandar o Grupo entre 1984 e 1995. É sob a sua responsabilidade que, nesta década, o grupo não só atinge o topo da tauromaquia nacional, como a tragédia lhe bate há porta. A morte repentina, e em tão pouco tempo, de dois jovens forcados na posse de todas as faculdades físicas e técnicas para pegar toiros, deixa o Grupo chocado e abalado durante muito tempo.
Nestes momentos duros, difíceis e dolorosos, emergiu um enorme sentido de unidade de todos quantos vestiram a sua “jaqueta” e, em conjunto, foi possível ultrapassar esta fase mais crítica. Queremos realçar também a solidariedade de todos os outros grupos.
A força e a união do Grupo fizeram com que este período difícil fosse ultrapassado, com muito sofrimento é certo, mas vencido e com a certeza de ter tornado o Grupo mais forte perante qualquer adversidade. António Manuel Cardoso retira-se a 31 de Agosto de 1995, na Praça de Toiros do Campo Pequeno, com Toiros de António Coelho Charrua.
Sucede-lhe João Pedro Bolota. Forcado de eleição, de vida dedicada à arte de pegar toiros e ao seu Grupo, este cabo mantém o Grupo durante o seu comando na senda dos antecessores com actuações de grande mérito e presenças assíduas nas melhores feiras taurinas, permitindo ao Grupo continuar a figurar no “escalafon” dos “Românticos” da Festa Brava.
A 1 de Julho de 2007, em Alcochete, e perante um Curro de Toiros de Pinto Barreiros, João Pedro Bolota despe a “jaqueta das ramagens” após uma carreira de 33 anos de forcado e entrega o comando a Vasco Pinto.
Empenhado, orgulhoso da Terra e do seu grupo, Vasco Pinto emprega-se numa liderança na continuidade emprestando-lhe uma visão actual e activa.
No Historial do Grupo, constam actuações em todo o País e Ilhas, Espanha, França e Estados Unidos da América. De realçar a presença na primeira Corrida “Goyesca” com forcados, aquando do 2º Bicentenário da Praça de Toiros de Ronda, realizada a 7 de Setembro de 1985, na qual foram pegados dois toiros em pontas da ganadaria de D. Belen Ordoñez.
Sendo Alcochete conhecida pela sua aficción e terra de antigos e famosos forcados, cabe aos actuais a responsabilidade de honrarem a imagem do forcado alcochetano, assim como darem a conhecer a outros povos e culturas, esta genuína, única, e tão “nobre arte de forcado português”.
É certo que nos esperam momentos de sorrisos e de lágrimas, optimismo e angústia, medos e valentia mas, com o apoio de antigos elementos, amigos, familiares, e essencialmente com a amizade e a união fomentada em muitas tardes e noites de “toiros”, tudo será recompensado!

Amadores do Aposento do Barrete Verde
O Grupo de Forcados Amadores do Aposento do Barrete foi fundado a 22 de Maio de 1965, no seio do Aposento do Barrete Verde tendo como primeiro cabo José Luís Carapinha Rei, à frente de um grupo de forcados constituído por Manuel Pinto, Aníbal Pereira, Eduardo da Costa Vantacich, Luciano do Carmo Pinto, Gregório Bolota, João Mimo, António Tavares, José Pinto e José Gomes e, mais tarde, Augusto Henrique, Francisco Giro e Luís Cebola.




O grupo faz a sua apresentação na Praça de Touros de Alcochete a 9 de Agosto desse ano, num festival de homenagem ao Aposento do Barrete Verde, que integrava no cartel, os cavaleiros Pedro Louceiro, João Núncio e José Samuel Lupi. O espectáculo taurino foi abrilhantado pela fabulosa Banda da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898.


Em 1967 António Luís Penetra foi nomeado cabo, e sob a sua orientação o grupo alcança grandes êxitos, destaque para a mais alta distinção atribuída a um Grupo de Forcados – O Prémio da Imprensa, em 1968, afirmando-se de forma inegável no mundo taurino, tornando-se uma referência para a forcadagem da época.  

Em 1981, Luís António da Piedade Cebola assume a liderança e aposta na renovação e na juventude, ao criar o Grupo de Forcados Juvenis, que muitos forcados daria a Alcochete, alguns deles ainda hoje se encontram no activo. O Grupo de Forcados do Aposento do Barrete Verde desloca-se a corridas no estrangeiro, por terras de Espanha e França, e participa na Corrida TV, sendo considerado pela crítica especializada como um dos melhores Grupos de Forcados, em 1991. 

A 24 de Junho de 1993, Joaquim José Penetra assume a liderança na corrida realizada na Praça de Toiros de Setúbal. Ainda na década de 90, os Forcados do Barrete Verde alcançam imensos êxitos em importantes praças de Portugal e Espanha. Luís Miguel Cebola, filho do antigo Cabo Luis António Cebola, forcado de referência no panorama nacional, assume em 1995 a direcção do Grupo, honrando com mérito e grande louvor a jaqueta do Barrete Verde. 

Os anos de 2002 a 2004 são testemunho de grandes triunfos alcançados com o Troféu de Melhor Pega, nas Festas Sanjoaninas e na Corrida da TVI. 2003 é também um ano de consagração do êxito do grupo que recebe a distinção da crítica especializada como “Melhor Grupo” da temporada, atribuídas pela Revista “Campo e Arena” e Jornal “Farpas”. No mesmo ano, o referido Jornal distingue João Miguel Pinto Salvação com o Troféu “Forcado do Ano”. Este jovem assume a direcção do Grupo de Forcados em Agosto de 2005, ano em que é distinguido com o Troféu de Melhor Pega no Concurso de Ganadarias da Feira de Arruda dos Vinhos, e que o grupo perfaz 40 anos de êxitos, de garra e bravura nas arenas.

Pode-se encontrar mais informação, aqui: Forcados e gente da festa brava em Alcochete. Texto baseado em testemunhos de José Barrinha da Cruz, onde contam algumas particularidades da nossa gente. 

Fontes: Site Forcados Amadores de Alcochete
             Site da CMA
             Site da AIPD

Foto: Forcados Amadores de Alcochete

18 outubro 2011

A greve do Sal

A AIPD é uma organização, cuja missão consiste em promover o desenvolvimento das potencialidades dos cidadãos, estimulando a sua autonomia, formação, individualidade e excelência através do combate de alguns factores e exclusão social, privilegiando o desenvolvimento de respostas sustentáveis ajustadas às necessidades identificadas, de forma a contribuir para uma sociedade mais justa e solidária.

O seu site é um autêntico tesouro à história de Alcochete, contendo documentos únicos reunidos, por pessoas que reúnem pedaços dos acontecimentos do concelho e da região.

Desta forma, fui encontrar duas páginas muito completas sobre a greve dos Salineiros de 1957, onde identifico histórias familiares contadas por meu avô, também ele vitima de perseguição.

Aqui ficam então os links:



Vasculhando mais o site no separador próprio, existem mais informações sobre a história de Alcochete.

 

18 agosto 2010

Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 Alcochete



Dos seus fundadores efectivamente nada se conhece. Diz a tradição oral que a Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 terá nascido no mesmo dia da restauração do Concelho de Alcochete (1), sendo considerada por isso (vox populi) a instituição gémea da Câmara Municipal de Alcochete.

A anteriormente chamada Sociedade de Recreio Alcochetense, terá passado a chamar-se, a partir desse dia, Filarmónica 15 de Janeiro de 1898 (2) .

O hino da Restauração, composto por João Baptista Nunes Júnior (música) e por Luís Cebola (letra), terá sido tocado pela primeira vez nesse dia 15 de Janeiro de 1898 (3).
No imaginário colectivo dos alcochetanos ao longo de sucessivas gerações, até mesmo nos nossos dias, paira uma imagem nítida das festas da Restauração, da agitação e do burburinho que se viveu na época, nas imagens recriadas mentalmente em que se vêm as iluminações dos archotes, as barricas a arder e até se consegue ouvir a música a tocar o Hino da Restauração. Para alimentar este sentimento bairrista em muito concorreu o artigo escrito em 1949 pelo Dr. José Grilo Evangelista (4):
(...) A população do Concelho secundou a da Vila com o mesmo entusiasmo. Chorava-se de satisfação. Chorava-se de alegria.

Nas ruas pejadas de gente, abraçavam-se uns aos outros. A filarmónica, reunida à pressa, percorreu as ruas da Vila, no meio de muito povo, de muitos vivas, de muito fogo, tocando o “Hino da Restauração”esse hino que um alcochetano compôs, (João Baptista Nunes Júnior) e que todos nós alcochetanos sabemos cantar e sentir.

Ia, enfim, soar a hora da libertação!

- Duas semanas depois, no dia 30 de Janeiro, entrava solenemente nos seus Paços Municipais, o Arquivo do Concelho de Alcochete, não trazido por um simples oficial de diligências, mas sim pelas mãos fidalgas de D. António Pereira Coutinho, o primeiro presidente do Município restaurado.- Muito propositadamente o fora buscar em pessoa a Aldegalega, o ilustre Marquês de Soydos, com D. João Pereira Coutinho, António Luís Nunes e José Francisco Evangelista.

A população inteira, acompanhada pela filarmónica, esperou, fremente de alegria e comoção, à entrada do Concelho (...) – À noite não houve edifício público, não houve casa particular, rica ou pobre, grande ou pequena, que não iluminasse a sua fachada em sinal de regozijo. – E desta forma começaram as festas da “Restauração”. Eis o seu programa, como outro igual ainda não se realizou em Alcochete: DIA 31 – Alvorada, tocando a filarmónica uma marcha triunfal expressamente escrita pelo maestro Rosa Martins! [segue-se o restante programa desse dia e dos dias 01 e 02 de Fevereiro, passamos para a noite do dia 02] Às 20 ½ HORAS – Grande banquete na sala nobre do Palácio Pereira Coutinho, durante o qual a filarmónica executou vários trechos musicais, e finalmente, como fecho da festa, uma imponentíssima marcha luminosa, apoteose formidável, estranha faixa de luz, melhor, de fogo, alastradora, interminável, por toda a beira-rio, onde dezenas de barricas, alcatroadas, ardiam fantasticamente. E, para tudo haver nessa marcha rubra de calor e frenesi, nem faltaram mãos delicadas de mulheres, sustentando, gentis e orgulhosas, clássicos e portuguesissimos archotes.

- Assim terminaram, exuberantes de alegria e de nobreza, as grandes Festas da Restauração, consoladora recompensa de dois anos de martírio, estupenda manifestação de uma liberdade reconquistada.

No entanto as atribuições de nomes e datas a esta colectividade não são pacíficas, havendo falta de documentação que as confirme efectivamente, temos em mãos apenas alguns documentos e um grande conjunto de conjecturas relativamente às origens da Sociedade.

Uma das evidências escritas, nas quais nos podemos apoiar, é a pequena monografia escrita em 1902 pelo Coronel Avelino Ramos da Costa (5) que nos dá notícia de:
Desde 1898 que no dia 15 de Janeiro de todos os annos se realisam imponentes festas organisadas pela “Sociedade de Recreio 15 de Janeiro de 1898” que data da restauração do Concelho. Costumam ser revestidas de grande brilho e grande concurso de povo e ainda n’este anno veiu partilhar da alegria dos alcochetenses a bella banda da Ribeira de Santo Estevão acompanhada de muito povo da mesma localidade. (...) Possue a villa um pequeno e modesto theatro na sede da “Sociedade 15 de Janeiro” que é sua administradôra. N’esse theatro tem sido representadas algumas peças originaes e outras já conhecidas dos palcos da capital, habilmente desempenhadas pelo grupo dramático da referida sociedade que teve sempre visto coroádos do melhor exito todos os seu trabalhos e que é digno dos maiores elogios e da maior consideração do povo alcochetense por vêr n’esse punhado de homens um conjunto de verdadeiros pugnadôres pelo estabelecimento, em Alcochete, d’essa bella escola onde o espírito afina a intelligencia. (...) Quem superintende no theatro actual é a direcção da “Sociedade 15 de Janeiro” que tem sido incansável em a fazer prosperar anno para anno.

Essa Sociedade possue uma esplendida banda composta por 33 figuras. Habilmente dirigida e ensaiada pelo digno regente o maestro Sr. Esteves Graça que tem o seu nome ligado a varias obras theatraes cuja música é de sua composição.

Já tem sido ouvida na capital por varias vezes, sendo sem favor considerada uma das melhores do Ribatejo.

Com este texto conseguimos apurar várias coisas importantes: primeiro, que, segundo nos diz o autor, a Sociedade data da restauração do Concelho, segundo, que se realizam desde 1898 grandes festas de comemoração da restauração e estamos ainda em 1902, apenas 4 anos depois! De seguida apuramos que a Sociedade tem duas actividades distintas: o teatro e a música, por último, talvez o mais importante, a banda de música era já considerada uma das melhores do Ribatejo!

Também datado de 1902, um artigo da Gazeta Sul do Tejo (6) surge como reforço desta informação: Desde 1898 até 1902, o dia 15 de Janeiro é solemnemente festejado, porém este anno celebraram-se ruidosos festejos que certamente ficarão gravados nos corações de todos os que tiveram a ventura de a elles assistirem.

Na quarta-feira ás 6 horas da manhã, a phylarmónica 15 de Janeiro, que também celebrava o aniverário da sua fundação, tocou a alvorada na séde da sociedade, percorrendo depois as ruas da Villa, partindo ás 9 horas, acompanhada de numerosos populares, para o Rio das Enguias, esperar a phylarmónica de Santo Estevam, que obsequiosamente veio tomar parte nos festejos e compartilhar com a sua vinda da alegria de todos os alcochetenses.

Ás 9 e 45, faziam-se os cumprimentos do estylo e ás 10 percorriam as ruas da Villa, executando os Hymnos da Restauração do Concelho e da Carta, na sua maior fraternidade.

A recepção calorosa e expontanea feita áquella sociedade foi a prova mais evidente da estima e consideração que nos merece esse povo pequeno no número de habitantes, mas grande nas suas nobres qualidades e apreciaveis predicados. (...)

Ás 9 horas da noute, no theatro D. Manuel que tinha uma enchente colossal e deveras selecta, realisou-se um grandioso sarau dramatico-musical. Começou a primeira parte pela execução primorosa do lindo Hymno da Restauração do Concelho pelas duas phylarmónicas Alcochetense 15 de Janeiro e a da Ribeira de Santo Estevam. (...) A orchestra executou primorosamente a symphonia “Toujours Galant, por Esteves Graça (...) A orchestra, composta por eximios professores d’esta Villa, foi habil e distintamente dirigida pelo incansável e apreciado maestro Esteves Graça, regente da banda 15 de Janeiro.

Do ano de 1903 surge o primeiro hino, conhecido, que foi feito à Sociedade pelo referido regente Esteves Graça, na capa da partitura podemos ler a inscrição: Hynno da “Sociedade Phylarmonica Alcochetense” – offerecido – por Esteves Graça – Lisbôa 15 de Maio de 1903 (7).

Num depoimento dado pelo Senhor Francisco Boieiro Nunes Rodrigues (conhecido por Chico Nunes), um dos actuais membros da Direcção da Sociedade, temos outra pista, se bem que sem confirmação efectiva, de que a banda estaria a funcionar em 1904, já com outro regente: “O meu avô Joaquim Boieiro foi regente, naquela altura chamava-se regentes, hoje são mestres ou maestros, foi realmente, não durante muito tempo, penso que não, foi regente da Banda de Alcochete, onde eu cheguei a lêr no tal livro que me desapareceu, os anais de Alcochete ou coisa assim do género, que a inauguração da carreira fluvial Lisboa-Alcochete/Alcochete-Lisboa, foi portanto inaugurada onde esteve presente a Banda de Alcochete, com o regente Joaquim Boieiro, sei que foi em 1904, disso tenho a noção, mas parece-me que foi em Fevereiro ou em Abril.”

Com data provável de 1905 ou 1906, temos uma fotografia da Banda com a regência, á época, do Senhor Joaquim José de Carvalho.



Primeira foto (Acima publicada) conhecida da Banda da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898, cerca de 1905/6. Identificam-se várias pessoas além do Regente: Joaquim José de Carvalho (sentado ao centro sob a bandeira); do lado direito deste: João da Costa Godinho; do lado esquerdo do regente: Cristiano José Sarola; em pé na segunda fila o primeiro do lado direito: José Maria Marreco (pintor); sentado na segunda fila o segundo a contar da direita: Artur Augusto Rodrigues; deitado no chão: Joaquim Tomaz da Costa Godinho.
Num roteiro da Estremadura em 1908 Alberto Pimentel (8) informa que: O actual theatro é modesto e acanhado; mas pensa-se em construír um que satisfaça as justas aspirações da terra.

Ha uma philarmónica, denominada 15 de Janeiro de 1898 (data da restauração do Concelho de Alcochête); é composta de 33 figuras.

Sem outros dados absolutos podemos, baseando-nos apenas nos factos acima referidos, afirmar que havia uma Sociedade com uma Banda filarmónica no activo em 1898, que terá durado pelo menos até 1908. Retiradas essas evidências restam-nos outras questões: que tipo de agremiação, colectividade ou pequeno grupo existiria antes de 1898?

Como surgiu este conjunto dos primeiros músicos que apareceram a tocar na Restauração?

De onde vem o nome de Imparcial?
Voltando ao campo das conjecturas, numa entrevista dada pelo então Presidente da Sociedade António Neto Salgado em 1989 (9)este afirma que no Sec. XIX havia os bailes de roda com uma fogueira no meio, havia as guitarras, os guitarristas de Alcochete, a Tuna que era um Solidó, era um conjunto de guitarras, bandolins e violas e foi desta Tuna que nasceu a Sociedade.

A Sociedade nasceu como eu digo, da Tuna de Alcochete, mas também incluia instrumentos metálicos, concretamente corneta e saxofone, etc., e há quem diga que não, que foi mesmo no dia 15 de Janeiro que a banda nasceu, mas não podia, porque para vir tocar o Hino da Restauração do Concelho, tinha que haver instrumentos e tinha que já se ter ensaiado, logo a Sociedade nasceu antes de 15 de Janeiro de 1898.

No jornal A voz de Alcochete, de Janeiro de 1952, João Lusitano (10) fala da proliferação das sociedades de recreio e filarmónicas nos finais do séc. XIX por todo o País, salientando o facto de Alcochete se ter atrasado nesse campo, chegaram ao final do século passado apenas com um sol-e-dó, ainda que composto de optimos elementos. Mas o entusiasmo da Restauração e a boa vontade de todos em promover o levantamento da terra, já então em grande crise, deu-nos a Sociedade, que tomou o nome de imparcial para que dela pudessem fazer parte todos os alcochetanos , quer fossem progressistas, quer fossem regeneradores, ou doutras cores politicas ou mesmo de nenhuma. Sociedade Imparcial queria dizer que não tinha politica nenhuma. (...) Num ápice de fez tudo. Arrendou-se uma casa apropriada, a antiga casa do Valentim, e nela se montou um palco para representações teatrais, adquiriu-se um instrumental valioso; instruíram-se músicos; apareceram actores; e surgiu a filarmónica que foi famosa.
Fala depois de alguns músicos da época salientando um que mais se destacou: Francisco José: habil cornetim, que chegou a ser mestre da filarmónica e exímio guitarrista, e que em Lisboa marcou posição de relevo no seu tempo. Foi também mestre de uma charanga a bordo de um paquete da carreira de África, e a ele se refere com simpatia o comandante Couvreur de Oliveira num dos seus livros. (...) Cito ainda mais um nome: João Baptista Nunes Júnior, excelente pianista e autor do Hino da Restauração, cuja letra foi escrita pelo Dr. Luís Cebola, nosso ilustre conterrâneo. Creio que não fizeram parte da filarmónica esses notaveis artistas.

Mais dúvidas se acumulam agora depois deste relato e para aumentar a discórdia um artigo de 1989 da autoria de Luíz Santos Nunes intitulado O despertar da música em Alcochete (11), em que o autor defende que por volta de 1855 um grupo de 3 irmãos da familia Nunes junto com um sobrinho e um grupo de amigos formaram a primeira filarmónica a que chamaram Sociedade Recreio Alcochetense, mantendo-se a mesma em actividade até à Restauração do Concelho em 1898. Foi, segundo Luíz Nunes, esta filarmónica que tocou nos festejos da Restauração e dada a euforia que se vivia então e o facto de terem já falecido os mais velhos músicos, que fez com que a filarmónica fosse renovada e adoptasse o nome de Filarmónica 15 de Janeiro Alcochetense.

Para que a confusão se instale de vez, passamos a citar a restante informação fornecida pelo autor: Esta filarmónica teve pouca duração, cerca de três anos, como consequência da saída voluntária do seu maestro em 30 de Maio de 1901, por motivos particulares, segundo a invocação apresentada pelo próprio no ofício de pedido de exoneração enviado à Direcção da Sociedade. E a filarmónica acabou. Depois de um interregno de cerca de 12 anos, em que deixou de existir, na nossa Vila Sociedade do género filarmónica e tendo voltado a calma ao espírito do povo, passados dois anos sobre a implantação da República (5 de Outubro de 1910), agitados ainda pela política dominante na altura, e pela cisão em dois grupos, ou partidos, Quelhas e Escalas, verificada entre os trabalhadores das descargas do carvão no Estuário do Tejo (Belém), que teve preocupantes repercussões, localmente, corre na Vila Alcochetana, pelos fins de 1912 a notícia de que estava em organização uma nova Sociedade Filarmónica (...) Com o passar do tempo, chega-se ao mês de Janeiro de 1913 e é então confirmada a existência da nova colectividade musical, baptizada com o nome “Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898”
Parece-nos pouco provável que a Banda tenha deixado de existir durante uma década, pois a informação acima apresentada contesta esta opinião, pois já vimos evidências da sua existência pelo menos até 1908.

De onde terá então surgido a informação de que a Sociedade deixou de existir? Só porque se demitiu o regente? Já vimos também que os regentes naquela época se sucediam uns aos outros com grande facilidade, e o nome Imparcial, terá a ver com os dois grupos de trabalhadores específicos, ou terá mais a ver com monárquicos e republicanos no geral?

Sem que possamos ter muitos factos palpáveis sobre as suas origens, temos no entanto uma certeza, no Salão Nobre da sua sede, vemos afixado um documento que atesta o seguinte: a partir do dia 22 de Novembro de 1924 a Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 foi efectivamente constituída na 3ª repartição do Governo Civil de Lisboa e autorizada a funcionar.

A partir daqui tudo foi um crescendo, com mais ou menos dificuldades, a Sociedade nunca deixou de funcionar e cedo se transformou na referência cultural do Concelho, com um papel social de relevo na formação de gerações e gerações de músicos ao longo de todo o século XX até aos nossos dias, dando um sentido à vida de centenas de trabalhadores que tinham na música e na Sociedade o seu descanso, as suas férias, a sua força para enfrentar mais um dia de trabalho duro, seguramente mal pago, mas que se sentia um pouco mais leve por causa do amor à música...